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Posts Tagged ‘Fernando Pessoa’

No passado dia 2 de dez., o poeta fingidor, Fernando Pessoa, viu a sua vida e obra ser recriada e homenageada por alunos do 12 ano dos Cursos Profissionais, na biblioteca da ESDS.
Em estilo café-concerto, Fernando Pessoa revelou o seu “eu” fragmentado e plural. Eis então que surgem Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e até mesmo Alexander Search, que em registo musical emocionou a plateia – E. E., alunos, Professores, Direção.
Os alunos e alunas assumiram com convicção os rostos do poeta através de sentidas leituras de interessantíssimos poemas. Alguns bem divertidos, revelando um Fernando Pessoa (ou seria Álvaro de Campos?!…)  irónico, meigo e ridículo, pois “todas as cartas de amor são/ Ridículas. […] Mas, afinal, /Só as criaturas que nunca escreveram/ Cartas de amor/ É que são/ Ridículas”.
Também através da dança e da música estes (re)criadores deram “vida” ao grande escritor da língua portuguesa, falecido a 30 de novembro de 1935, data que este café-concerto pretendia também assinalar.
Sob orientação e organização das Professoras Maria Chinopa e Rute Magalhães (Português), bem como com a colaboração e monitorização das Professoras Paula Duque (Português/Música)e Conceição Marchã (Inglês), o café-concerto foi um sucesso de diversidade pedagógica e de abordagem interdisciplinar, a que não quis faltar o próprio Fernando Pessoa.
Que voltem sempre, ó Utilizadores, ó Leitores, ó Escritores desta biblioteca!
Dulce Sousa

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Escolhi este quadro do pintor Carlos Botelho, autor influenciado pelo modernismo, corrente artística marcada pela quebra dos padrões tradicionais.

Nesta obra está representado Fernando Pessoa. Observando o quadro, é notória a utilização de apenas três cores: vermelho, branco e preto. Por um lado, esta simplicidade cromática retrata a vida modesta e despojada do poeta. Por outro, contrasta com a complexidade da sua ideologia e reflexões.

Tendo esta obra sido produzida no Modernismo, é possível reconhecer algumas características representativas desse período, como é o caso da velocidade: as pinceladas rápidas e soltas dão uma sensação de movimento feroz. Este movimento poderá ser metafórico, estando associado à inquietação e desassossego do estado de espírito do próprio Fernando Pessoa.

A sensação de movimento foi também representada nesta obra pela pouca delimitação do rosto do poeta. Para além da ideia de movimento, o facto de o rosto não estar bem nítido, com linhas definidas, sugere a incerteza do poeta acerca da própria identidade. Fernando Pessoa não sabia quem era: Não sei quem sou, que alma tenho.[1]

O poeta sentia que era “vários” ao mesmo tempo, criando os tão conhecidos heterónimos (desdobramento da sua personalidade), levando-o a sentir o mundo e a poesia de diferentes modos, destacando-se Álvaro de Campos, engenheiro pessimista com o gosto pelo progresso, mas angustiado com o presente – Não sou nada./Nunca serei nada./Não posso querer ser nada [2]Alberto Caeiro, apaixonado pela Natureza – Além disso, fui o único poeta da Natureza [3] e Ricardo Reis, que gosta da simplicidade tradicional – Segue o teu destino,/Rega as tuas plantas,/Ama as tuas rosas.[4]

Assim, pode concluir-se que a imagem não representa um só indivíduo, mas antes, a reunião em si de todos os aspetos da extensa obra e da grande personalidade que foi Fernando Pessoa.

 

 Sara Boisseau, 12ºB

 

  • [1]  “Não sei quem sou, que alma tenho”, Fernando Pessoa
  • [2]Tabacaria”, Álvaro de Campos
  • [3]Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia”, Alberto Caeiro
  • [4] “Segue o teu destino”, Ricardo Reis

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A Multiplicidade em Fernando Pessoa

fpA imagem que escolhi é da autoria do artista português Rui Pimentel. Representa, de uma forma curiosa, o autor Fernando Pessoa e o seu processo de fragmentação do “Eu”, que remete para a multiplicidade do poeta.

Esta gravura mostra o poeta em frente a um espelho que reflete três diferentes personalidades que constituem o seu “todo”, representando alguns dos heterónimos que assumiu.

O espelho, podendo assumir inúmeros significados, pode aqui ser encarado como um símbolo da verdade e sinceridade, um instrumento de contemplação, sendo possível atingir, o pensamento em si mesmo.

Tal como acontece no mito de Narciso1, também Pessoa se olha ao espelho com a finalidade de se conhecer. As várias reflexões surgem então como fragmentos do pensamento do poeta.

Através da sua poesia expressa o desejo que tem de conhecer o seu verdadeiro “Eu”, “Não sei quantas almas tenho/ Cada momento mudei./ Continuamente me estranho./ Nunca me vi nem achei.”2.

Esta necessidade de se conhecer leva-o a fragmentar-se em outros, que apesar da mesma aparência têm personalidades completamente distintas, “Atento ao que sou e vejo,/Torno-me eles e não eu./ Cada meu sonho ou desejo/ É do que nasce e não meu.”2.

Tal como representado na figura, neste processo de despersonalização destacaram-se Alberto Caeiro, poeta bucólico, antimetafísico e mestre dos outros – “Pensar é estar doente dos olhos”3, Ricardo Reis poeta clássico, e Álvaro Campos, poeta engenheiro, amante da ‘força da máquina’ – “Ah poder exprimir-me todo como um motor se exprime!”4 -, cuja vida acaba por tomar um rumo semelhante à do seu criador -“Não: Não quero nada/Já disse que não quero nada”5.

Perante a imagem conclui-se que o espelho funciona de certo modo como uma ferramenta que permite o autoconhecimento do próprio poeta e uma consequente expressão e materialização do seu pensamento.

Sara Cardoso, 12ºB

  1.  – Mito grego no qual um belo jovem se apaixona pelo seu reflexo e este acontecimento acaba por conduzir à sua morte.
  2.  – Não sei quantas almas tenho”, Fernando Pessoa
  3.  “O Mundo não se Fez para Pensarmos Nele”, Alberto Caeiro
  4.  – “Ode Triunfal”, Álvaro de Campos
  5. “Lisboa Revisitada”, Álvaro de Campos

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Nasci exactamente no teu dia —fp

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir…

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

 

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Católico, apostólico e romano.

 

[…]

Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,st

Etcetera…

Mas qual de nós vai tomar isso à letra?

Que de hoje em diante quem o diz se digne

Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

[…]

 

(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm beleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? …

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

 

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António —

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?

 

Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro. Fernando Pessoa. (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986.

Imagens daqui e daqui 

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LdoD

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fp 80 anos

imagem editada daqui

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quinto impérioNa sequência de uma atividade realizada no âmbito do estudo da obra Mensagem de Fernando Pessoa, o aluno João Ribeiro, do 12ºF, associou a proposição inscrita na imagem ao lado, sobre o conceito de Quinto Império, à linguagem matemática, da forma que abaixo se apresenta, com o intuito de representar uma afirmação de cariz literário sob a forma de um raciocínio lógico-matemático.

Dulce Sousa (professora de Português do 12ºF)

  • Colaboração na revisão e edição de Fátima Delgado (professora de Matemática)
  • imagem editada daqui

joao_ribeiro

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Esta imagem simboliza nascimento, representando o criar algo inovador, como este escritor criou. O conjunto de todas essas criações é o universo “pessoano”. O centro desse universo é o ovo inteiro, é Fernando Pessoa, com tudo o que ele inclui e o assombra.

imagem original da autora do texto

imagem original da autora do texto

Porquê um ovo? Este ovo é invulgar, diferente de tantos outros, de todos os que habitualmente se vêm. Na realidade um ovo é a primeira célula de um novo ser, tendo, portanto, a capacidade de gerar todos os tipos de células de que esse ser será constituído, designando-se, portanto, célula totipotente. É uma célula que tem tudo, o que lhe tira a identidade própria, a especificidade, apesar de no fundo a ter.

Um ovo no qual surgiu mais do que apenas uma gema, um ser intrinsecamente diferente! Este ovo é uma metáfora de Fernando Pessoa, na medida em que dentro dele surgiu mais do que apenas uma personalidade, diferenciando-o dos restantes artistas. A heteronímia torna-o semelhante a uma célula totipotente e surgiu devido ao fingimento (construção), que ele considera ser a base da poesia e da arte.

Mas o que acontece ao ovo? O que acontece a Fernando Pessoa? O que são exatamente cada um desses poetas por ele criados? Ora, tudo o que surgiu com base no início já existia inicialmente, porém estava tudo junto e indiferenciado. Fernando Pessoa não desaparece, todavia, passa a ser uma entre as inúmeras células (isto é, poetas/personalidades) que dele surgiram. Ele passa então a designar-se por ortónimo e os restantes poetas que dele surgiram são os heterónimos. Este poeta, no seu ovo inicial sem identidade, dividiu-se em dois, e depois em muitos mais, já com especificidade. Assim, criou poetas únicos e distintos, à semelhança das distintas funções desempenhadas por cada tipo de células.

Exteriormente, parece uma pessoa comum, assim como este ovo antes de o quebrar. Porém, ao abrir-se, constata-se que o interior já não é assim tão comum. A quebra do ovo revela o seu interior e representa o momento de quebra da sua personalidade, isto é, quando a sua personalidade muda e passa a comportar-se e a escrever como um dos seus heterónimos. O serrilhado recorte da casca simboliza a sua instabilidade, que é causadora da rutura e também a sua dor. Por sua vez, a parte lisa da casca, que na realidade não é lisa, mas sim porosa, demonstra que mesmo o que à primeira vista parece bem, na realidade, ao observar mais detalhadamente, encontra-se também muita instabilidade.

Cada heterónimo novo que se desenvolve é representado por uma gema, enquanto que a clara é o seu ambiente, o que o alimenta e o faz crescer, ou seja, todas as vivências do escritor, incluindo todo o contexto artístico, cultural e social da sua época.

Este ovo está rodeado de sombras! O poeta está envolto em angústia existencial, dor e infelicidade! Estas sombras representam o conflito da sua alma, sendo o lado negro do universo “pessoano”. Mas mesmo na mais profunda escuridão existe luz, daí a existência de gradações de sombras com diferentes tons, sendo que as mais claras e praticamente inexistentes representam a luz que salva o ortónimo, o seu mestre Alberto Caeiro.

Sonhar com ovos de gema dupla simboliza a descoberta de objetos valiosos que estavam perdidos. Neste caso, representa a valiosa descoberta dos heterónimos de Fernando Pessoa que estavam perdidos dentro dele pois, se existe uma pessoa que tem várias pessoas dentro de si, essa pessoa é Fernando Pessoa!

Esta imagem simboliza nascimento, representando o criar algo inovador, como este escritor criou. O conjunto de todas essas criações é o universo “pessoano”. O centro desse universo é o ovo inteiro, é Fernando Pessoa, com tudo o que ele inclui e o assombra.

Miriam Colaço, 12ºA

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Nunca me vi nem achei

Fernando Pessoa
(in Não sei quantas almas tenho)

Este verso será, provavelmente, o que melhor ilustra a maneira como Fernando Pessoa via a sua identidade.

Fernando Pessoa era um poeta e, sobretudo, uma pessoa que tinha grandes dificuldades em definir-se enquanto identidade, ou seja, sentia-se “perdido” em si próprio. Encontrava-se constantemente em conflito interior, acabando por se questionar se realmente existia e, se existisse, quem era na realidade.

Esta incapacidade que sentia em autodefinir-se levou Fernando Pessoa a procurar uma solução, isto é, a encontrar uma identidade que o representasse. Deste modo, Pessoa chegou à conclusão que, em vez de criar uma identidade, porque não criar várias identidades que demonstrassem as suas diversas formas de olhar para o mundo, de interpretar o que o rodeava?

Mas até sobre a finalidade das identidades criadas, que se denominam heterónimos, Pessoa não tinha uma ideia definida. Os heterónimos criados serviam tanto para exprimir o que sentia o próprio, como também para exprimir emoções criadas/fingidas por ele, já que ele afirma (no poema Autopsicografia) que o “poeta é um fingidor”.

puzzleAssim, nascem vários heterónimos com estilos de escrita distintos, de entre os quais podemos destacar três que são bastante diferentes entre si: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Alberto Caeiro, o mestre, é um heterónimo bastante ligado à natureza e aos cinco sentidos. Para Caeiro, o que importa é o que os seus sentidos conseguem captar, acabando por contemplar o mundo que o rodeia de forma ingénua e objetiva. Assim, Caeiro não pensava no futuro nem no passado, acabando por não dar importância ao que pensava, mas só ao que captava com os seus sentidos.

Ricardo Reis é um heterónimo que vive o presente sem exageros e que tenta aproveitar o momento presente na sua totalidade. Ricardo Reis afirma que não vale a pena viver a vida com grandes exageros, nem ceder às paixões que sente, porque o fim será o mesmo para todas as pessoas, a morte. Deste modo, ao não ceder à paixão que sente, Reis considera que, quando chegar o seu fim, a pessoa amada não irá sentir a tristeza que sentiria caso fossem comprometidos. Tal como Caeiro, Ricardo Reis valoriza a natureza.

Por fim, Álvaro de Campos distingue-se dos outros exemplos por ser um heterónimo que valoriza o mundo contemporâneo e a agitação das cidades. Teve duas fases distintas: a fase futurista onde sente intensamente a agitação das novas invenções que o rodeiam, querendo “ser toda a gente em toda a parte”; e a fase intimista, onde acaba por cair numa angústia, tristeza e deceção, pois apercebe-se que não pode sentir tudo na sua totalidade (“Ah, não ser eu toda a gente em toda a parte!”).

Podemos assim associar Fernando Pessoa e as suas identidades criadas a um puzzle porque, se cada heterónimo criado representar uma peça, estas irão encaixar umas nas outras, pois complementam-se, acabando por formar uma única unidade que representa Fernando Pessoa.

Raquel Cardoso, 12ºA

imagem daqui

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Meus dias, mas que um passe e outro passe/ Ficando eu sempre quase o mesmo; indo/ Para a velhice como um dia entra no anoitecer

Ricardo Reis

RR

Ricardo Reis, crente no paganismo, nasceu no Porto a 19 de Setembro de 1887. Estudou num colégio jesuíta e formou-se em Medicina. O facto de ser monárquico obrigou-o a exilar-se no Brasil em 1919, na sequência da rebelião monárquica que se sucedeu no Porto.

Na sua obra, o heterónimo de Fernando Pessoa brinda-nos com um conjunto de máximas, que o próprio traça para a sua vida.

A consciência aguda da passagem inexorável do tempo e a impotência do ser humano para “lutar” contra essa inevitabilidade é um dos assuntos mais abordados na sua poesia.

Esta passagem inevitável do tempo remete-nos para o estoicismo, que é uma filosofia que nos obriga a aceitar e reger a nossa vida pelas leis gerais da natureza e do destino, tal é o caso deste heterónimo que teve a capacidade de perceber a necessidade de nos regermos por tais leis.

Desse modo, podemos considerar que na base da nossa ilha, que é a vida, temos o mar, o nosso destino, do qual não poderemos escapar – “Nem cuidados, porque se os tivesse o rio correria/ E sempre iria ter ao mar”.

Como isto acontece, ou seja, o passar dos nossos dias, o intercalar do dia e da noite, nos levam a rumar em direção à velhice, ao mar, ao destino e por isso à morte, devemos ser capazes de nos distanciar um pouco do destino. Isto é, fazer a nossa ilha pairar, para que assim possamos aproveitar a vida, mas sempre com tranquilidade face ao dia, às paixões, e às alegrias, para que quando a noite, as tristezas, as desilusões chegarem, ficarmos indiferentes a tudo o que nos poderia de alguma forma atormentar.

Assim, devemos ser a palmeira no centro da nossa ilha suspensa, tal como Ricardo Reis o era: o equilíbrio entre o dia e a noite, sermos acima de tudo o presente, mas nunca esquecendo que o futuro acabará por vir e, por fim, termos a sabedoria de gozar e aproveitar esse presente (carpe diem) “Colhe o dia, porque és ele.”

Estamos assim perante mais uma das máximas de Ricardo Reis, o epicurismo, que nos mostra a importância de termos um equilíbrio na nossa vida, sabermos procurar os simples prazeres da vida, mas sem excessos, aprendendo assim a viver cada instante como se fosse o último.

Por fim, podemos então considerar que devemos ser um equilíbrio entre o dia e a noite, isto porque tudo o que o dia nos possa trazer de bom, ao vivermos as coisas com intensidade, quando chega a noite, com ela veem certamente coisas menos boas causadas por essa vivência excessiva Por esse motivo, devemos distanciar-nos tanto das coisas boas como das más, para que possamos viver com tranquilidade a nossa vida efémera.

Rita Carvalha, 12ºA

Fonte da imagem – aqui

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M.C. Escher

M.C. Escher

“Quando olho para mim não me percebo…”! Este excerto (do poema “Quando olho para mim não me percebo”) define de uma forma geral, a complexa vida e experiência de Fernando Pessoa. Nascido num século marcado pela mudança, Pessoa foi alvo de vários obstáculos, através dos quais se fortaleceu, no entanto apenas em questões extrínsecas a si. Será que foi por esta razão, a preocupação pelo outro, que o levou a não encontrar-se, a não definir-se?

O “enigma do ser” tem então um forte peso na mente deste poeta, impossibilitando que este consiga viver a vida. Assim, num tom de ansiedade, como que numa necessidade de afeto, cria em si, para resolver este problema, várias entidades, os heterónimos, uma vez que “…Ser um é cadeia/Ser um é não ser…”[1]. Ter-se-ia acabado a incerteza da sua identidade?

Em um dos seus poemas, intitulado “Não sei quantas almas tenho”, existem excertos que nos transmitem a ideia da perduração da questão do “eu”, como por exemplo “Continuamente me estranho”, “Torno-me eles e não eu”. O primeiro mostra-nos que Pessoa apesar de se ter fragmentado, não conseguiu encontrar-se, tendo ficado preso num caminho sem retorno. O último verso é muito importante pois transmite a ideia de uma ciclicidade e de uma impossibilidade: É ele que se define, ou são os seus heterónimos?

O contínuo pensar desta ideia, fez com que Pessoa, continuasse “preso” em si. A conceptualização de heterónimos criou em Pessoa uma ciclicidade de criação: Pessoa enquanto criador dos heterónimos, mas estes enquanto moldadores da vida de Pessoa. Existe assim um influência mútua de ambas as partes, que consequentemente leva ao desenvolvimento do poeta.

Na imagem podemos encontrar retratado o que foi anteriormente referido. Podemos visualizar duas mãos, onde uma delas poderá representar Fernando Pessoa, e a outra, os heterónimos criados. Assim enquanto uma esboça os heterónimos, a outra complementa o criador. Para além disso podemos atribuir ao cinzento da imagem, o significado da restrição, do não avanço pessoal.

É irónico se pensarmos que apesar de Pessoa não conseguir saber quem é, este é capaz de, detalhadamente, criar uma vida para cada “vontade” sua, ou seja, para um Alberto Caeiro, um Ricardo Reis, um Álvaro de Campos, não se questionando sobre essas.

Chega-se assim à conclusão, que Pessoa ao procurar a sua identidade, perde-a, uma vez que este acaba por estilhaçar a sua alma, que nunca poderá ser recuperada, (“…Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,/E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim…”[2]).

Tiago Coelho, 12ºA

[1] Poema: Sou um evadido – Fernando Pessoa

[2] Poema: Lisbon Revisited  – Álvaro de Campos

Imagem daqui

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Na sequência do estudo do universo de Pessoa, os alunos do 12ºA realizaram uma atividade de escrita em que lhes era pedido que escolhessem uma imagem-metáfora de um tema selecionado por eles nesse universo fragmentário do poeta: um heterónimo, uma linha temática, um poema… associando a imagem, sem cair no nível meramente descritivo, ao tema escolhido.

Publicados todos os textos no Moodle da disciplina, os próprios alunos votaram anonimamente no que, pela criatividade, rigor e qualidade de expressão, gostaram mais. Depois de uma votação onde teve lugar uma segunda volta para o desempate, aqui fica o que ganhou o 1º lugar, com direito a um livro com a obra heterónima de Pessoa como prémio. Em breve, os outros textos premiados, assim como as menções honrosas, serão igualmente alvo de publicação aqui no Bibli.

Fernando Rebelo (professor de Português)

Ricardo Reis e a Inevitabilidade da Morte

skull and gondolaDos três heterónimos de Fernando Pessoa estudados, Ricardo Reis foi aquele que despertou em mim maior interesse, pelo facto de ambos recearmos a morte.

Este heterónimo de Pessoa admira a calma e serenidade com que Aberto Caeiro, o seu mestre, encara a vida e tenta alcançar essa paz de alma e equilíbrio através da autodisciplina e do Epicurismo e Estoicismo, duas doutrinas gregas.

Reis, admitindo que a morte é uma coisa inevitável e que é a única certeza que temos na vida, tenta levar uma vida o mais calma e equilibrada possível, evitando qualquer tipo de sofrimento, não cedendo aos impulsos dos seus instintos (epicurismo) e mostrando-se indiferente às paixões. Ele acredita que não vale a pena envolver-se demasiado e deixar-se levar pelas suas emoções, pois tudo terá um fim e será mais fácil lidar e aceitar a morte se não tiver nada a perder (estoicismo).

A vida de Reis segue assim o seu percurso, de uma forma tranquila, um remo de cada vez. No entanto, ele não testa a água, não salta nela e se atreve a nadar; ele não corre esses riscos, e continua sentado na sua embarcação, focando-se apenas nas paisagens a seu redor e disfrutando dos pequenos prazeres do momento.

Porém, a morte está sempre presente em todos os aspetos da nossa vida, em qualquer coisa que façamos, quer se pense nela, quer se a ignore. Não lhe podemos escapar e nunca sabemos quando se vai manifestar. Paira sobre nós como uma sombra: presença indesejável e incessante do destino.

A efemeridade da vida pode conduzir qualquer um à loucura, mas Reis conseguiu desenvolver uma estratégia que lhe permitiu aceitar e viver conforme as leis do destino.

A vida/ Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa / Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado / Mais longe que os deuses. […] Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. / Mais vale saber passar silenciosamente / E sem desassossegos grandes.

Apesar de eu não conseguir concordar plenamente com a sua filosofia, admiro a sua força de vontade necessária para não ceder aos seus instintos e não se envolver demasiado com o intuito de evitar o sofrimento.

Elena Ostrovan, 12ºA

Fonte da imagem – Skull and gondola: http://metamythic.com/metamorphic-skull-illusions/

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mensagem

imagem editada daqui

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o menino de sua mãeimagem editada daqui

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vasoEsta imagem relaciona-se com a obra de Fernando Pessoa e também com Pessoa como pessoa, na medida em que a sua alma se fragmentou  em mais pedaços do que a totalidade de barro que havia no vaso (identificando-se com o poema Apontamento de Álvaro de Campos). Não obstante o sofrimento da perda de identidade, Fernando Pessoa teve a capacidade de interligar os seus fragmentos e a partir deles dar vida à sua obra, quer como Pessoa ortónimo, quer com os seus heterónimos.

A alma de Pessoa partiu-se como um vaso vazio, mas ao longo do tempo reconstruiu-a próprios cacos: quer Pessoa quer o sujeito poético de Apontamento tinha mais sensações, quando a alma se encontrava fragmentada do que quando era um todo.

Mas, no fim de contas, a ‘imperfeição’ do não-todo de Pessoa, tornou-o único e versátil, capaz de deixar florescer diferentes tipos de pessoas dentro do mesmo vaso, da sua ‘’obra principal’’, e do próprio Fernando.

‘’Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. / Um caco brilha, /e os deuses olham-no especialmente / pois não sabem porque ficou ali.’’ Este caco reúne um conjunto de fragmentos aglomerados num só, que o levam a um todo, imperfeito, mas no fim de contas completo; por isso chamou a atenção dos deuses.

A dimensão simbólica da escada, composta pelos pequenos fragmentos do vaso na imagem simboliza a caminhada da vida, normalmente ascendente e progressiva. Mas em Campos e também em Pessoa (poeta) esta caminhada que se quer também ascendente, pois corresponde à procura de si mesmo e ao desejo do impossível, acaba por ser descendente, pelo custo de perda de unidade que comporta – uma perda desejada, mas ainda assim por se transformar em perda. No entanto, e paradoxalmente, no poema Apontamento, a escada conduz ao infinito, sugerido pelas estrelas que o atapetam e pelos astros entre os quais os fragmentos brilham.

E eu não poderia concordar mais com este ponto de vista, porque os fragmentos da alma de Pessoa acabaram por levá-lo a uma unidade que interliga todos os cacos entre si, ou seja, os vários cacos acabam por formar um todo, e esse todo é o grande vaso, é Pessoa, que comporta várias pessoas dentro de uma pessoa só.

Lisandra, 12º. C

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Sonhatorio

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