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Archive for Agosto, 2012

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invasão de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia, 21 de agosto de 1968

Foi há 44 anos que o sonho de uma liberalização do regime socialista de tipo estalinista que vigorava na Checoslováquia desde 1945 se desmoronou com a invasão do país pelas tropas do Pacto de Varsóvia. Terminou assim, de uma forma brutal, o que ficou conhecido pela Primavera de Praga, movimento reformista liderado por Alexander Dubček que tentou dar ao regime uma face mais democrática e humana, restabelecendo as liberdades civis, nomeadamente a liberdade de expressão.

Após a queda do Muro de Berlim, um acontecimento que já é parte da História do final do século passado, estamos perante uma Europa muito mais complexa e dividida do que a euforia que se lhe seguiu augurava. Os países ditos de Leste são porém hoje muito diferentes e, com mais ou menos integração, voltaram ao seio de uma Europa que pretendeu unir todos os seus pontos cardeiais.

Mas, independentemente do marco histórico, esta efeméride quarentona pode ser uma excelente oportunidade para (re)ler uma da obras mais conhecidas e interessantes do escritor checo Milan KunderaA Insustentável Leveza do Ser.

Milan Kundera

A obra, que tem como cenário esses dias de ocupação, exílio e regresso a um mundo de novo cinzento e opressivo da Praga de 1968, põe em contraste a liberdade do descomprometimento com a âncora do compromisso, transportada para o cenário do amor em que o protagonista Tomas vive com as mulheres uma aventura épica em que cada uma constitui uma uma descoberta, uma individualidade, mas que não é mais do que uma etapa, um passo na vida como um caminho. Por contraste, Teresa, por quem Tomas, no fim, abdica dessa liberdade existencial, encara o amor como um compromisso, uma condição de sofrimento e de constância.

Kundera desloca a dualidade do peso e da leveza para uma perspectiva existencial, mesclando-a ao problema da liberdade humana em uma perspectiva próxima à problemática do existencialismo. Para Kundera, a leveza decorre de uma vida levada sob o teto da liberdade descomprometida. A leveza segue-se de um não-engajamento, um não-comprometimento com situações quaisquer, aproximando-se, nesse sentido, das ideias de Jean-Paul Sartre sobre a condição humana. O personagem Tomas é a metáfora através da qual Kundera ilustra as consequências existenciais do comprometimento da liberdade para com uma situação qualquer – no caso, o vínculo afetivo com Teresa. A partir de então Tomas experimenta o peso do comprometimento, peso opressivo de um engajamento qualquer, uma situação qualquer.

A leveza, porém, despe a vida de seu sentido. O peso do comprometimento é uma âncora que finca a vida a uma razão de ser, qualquer, que se constrói – sob uma perspectiva existencialista, evidentemente.

Sob a perspectiva da filosofia nietzscheana, porém, Tomas levava uma vida autêntica, construindo os próprios valores sob os quais conduzia sua vida. Teresa ilustra a problemática da moralidade de escravos: incapaz de realizar um empreendimento como o de Tomas, amarra-o pela força de sua impotência, chegando ao final à admissão do fato de ter “destruído sua vida”, no final do livro. Tomás, encarnando metaforicamente a noção nietzscheana de amor fati, revela que não se arrepende de nada, remetendo à doutrina do Eterno Retorno, mencionada no início do livro.

adaptado da Wikipédia

Enfim, uma obra que já ganhou o seu estatuto de clássico e até o direito (para o melhor e para o pior) a adaptação cinematográfica –  definitivamente uma boa (re) leitura para estes finais de agosto, 44 anos depois do fim dessa primavera utópica, antepassado longínquo da democratização da Europa de Leste.

Fernando Rebelo

imagens daqui e daqui

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Jorge Amado*

Num ano de tantas efemérides, particularmente nestes primeiros dias de agosto, não podíamos deixar de referir também aqui no Bibli esse Jorge (tão) Amado, assim nomeado por muitos dos seus leitores e conterrâneos. Jorge Amado nasceu há exatamente 100 anos neste 10 de agosto, no estado da Baía, cenário, tema e muitas vezes quase personagem de muitos dos seus romances. Mesmo quem não lhe conhece a biografia, o seu percurso de ativista político, de exilado, mesmo quem não faz parte da lista dos seus inúmeros leitores em todo o mundo, em particular, como é evidente, na comunidade da lusofonia, já ouviu seguramente falar (ou viu na TV) de Gabrila, Cravo e Canela, Dona Flor e seus dois maridos, Tieta do Agreste, entre tantos outros. Muitos dos nossos alunos do Ensino Básico guardaram na sua memória de jovens leitores a história do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá.

Jorge Amado é talvez o escritor mais traduzido da língua portuguesa no século XX, as suas obras foram igualmente as que mais adaptações tiveram para cinema e televisão. A sua notoriedade é tão grande e o seu centenário tão recheado de eventos que seria algo redundante aqui no Bibli, alongarmo-nos mais sobre a obra e o homem, aconselhando os nossos leitores vivamente a visitarem o site do seu centenário, que disponibiliza  uma série de elementos biográficos, bibliográficos e materiais  para quem o quiser conhecer melhor, como leitor ou académico. Podem ainda participar na festa pública em sua homenagem patrocinada pela Fundação Saramago, em Lisboa, hoje, a partir das 18 horas.

*caricatura de Tiaggo Gomes acedida aqui

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Hermann Hesse 2.7.1877 – 9.8.1962

Depois de uma longa existência de 85 anos, em que atravessou a mudança do século, duas guerras mundiais, Herman Hesse morreu, faz hoje 50 anos. Apesar do reconhecimento em vida (foi Prémio Nobel da Literatura em 1946), não tem talvez a projeção mediática de outras figuras literárias do séc. XX. No entanto, quem o leu admirou-lhe a intemporalidade e profundidade das questões suscitadas através das personagens dos seus romances, escritos muitas vezes sob a forma de histórias simples, quase parábolas.

São evidentes as influências da cultura e espiritualidade orientais, em particular da India (que havia de glosar em Siddaharta), país que conheceu na juventude, assim como da psicanálise de Gustav Jung, seu contemporâneo, cujas teorias sobre os arquétipos humanos têm reflexo em muitas das suas obras.

Os leitores de Hesse terão com certeza distintas inclinações – uns preferirão Demian (1917), outros sugerirão O Lobo das estepes (1927), ou talvez O Jogo das Contas de vidro (1943), contudo, se houve obras que me marcaram como jovem leitor e ser humano, foram sem dúvida  Siddaharta (1922) mas, ainda mais, Narciso e Goldmundo (1930). Apesar das diferenças entre ambos, quer de cenário narrativo, geográfico e temporal, nos dois encontramos a eterna demanda do homem da sua identidade enquanto tal, o significado da sua existência, que em muitos momentos se lhe afigura como um deambular aleatório e absurdo, sem propósito nem felicidade.

Siddaharta, inspirado na tradição narrativa indiana de Siddhartha Gautama (Buda),  procura o seu Nirvana através da contínua mudança vivencial – uma viagem que vai desenvolvendo tanto deambulando pelo mundo como pelo interior de si próprio. Observamos assim o protagonista a transmutar-se sucessivamente do asceta que tenta alcançar uma verdade mais profunda através da renúncia, num comerciante hedonista que posteriormente, já embriagado pelos prazeres mundanos, os abandona completamente para vir a substituir um sábio barqueiro que resumiu o mistério da existência à observação da água do rio que, placidamente, corre todos os dias, como a vida.

Uma bela e curta narrativa, acessível a qualquer leitor, mas eventualmente ainda mais apetecível para as mentes inquietas dos jovens para quem a questão da sua identidade e a consequente descoberta do seu papel na vida têm ainda uma intensidade quotidiana.

Narciso e Goldmundo evoca a mesma demanda mas, desde o princípio, a narrativa assume uma via dual em que dois pólos humanos opostos encontram caminhos diferentes para responder à sua existência. Nessa via dual encontramos reflexos  da dicotomia da tragédia clássica grega – o apolíneo e o dionísiaco  – que pode igualmente ser evocada sob outras formas simples de muitas dualidades da condição humana: o caos e a ordem, a racionalidade e a emoção, o pensamento e a sensualidade, a busca da verdade através da renúncia e do método por oposição à experiência dos sentidos. Ao fim e ao cabo, um conflito identitário que acompanha todo o percurso de vida de muitos de nós.

A história tem início num mosteiro medieval da Europa Central onde os dois noviços se conhecem e se tornam amigos. Enquanto Narciso é um jovem de inteligência brilhante, precoce nos estudos, descodificando os mistérios do mundo e estruturando-o de uma forma que lhe grangeia a admiração de Goldmundo, este último é uma alma incompleta e inquieta, que não encontra na vida ascética e reflexiva  da condição monástica a satisfação e a resposta à mesma pergunta de sempre: quem sou eu?

A lucidez de Narciso leva-o a aconselhar o amigo, depois deste descobrir a sua paixão pelo sexo feminino, a abandonar o convento e seguir o seu caminho cá fora, “no mundo”. Desta forma, a vida traça-lhes destinos completamente diferentes.  Goldmundo ama um sem número de mulheres, aventura-se nos caminhos de mil perigos, até encontrar o talento táctil da sua mão de artista-escultor e dessa forma representar o mundo que viveu com todos os sentidos. Narciso, por sua vez, continua a tentar percebê-lo através do estudo, da reflexão e torna-se o sábio abade do mosteiro. No final da narrativa, os dois amigos voltam a encontrar-se nos últimos anos de vida de um Goldmundo já sem forças para voltar a caminhar. Para Goldmundo, que conhecera o amor, a Mulher, e assim revivera o amor primordial – a grande Mãe – a morte assumia a forma de um regresso ao seu ventre. No entanto, para o racional Narciso, sem qualquer memória ou vivência dessa experiência, as últimas palavras do amigo constituem um forte abalo nas suas certezas existenciais:

O moribundo tornou a abrir os olhos e permaneceu durante um longo período de tempo fitando o semblante do seu amigo. Com os olhos despediu-se dele. E, esboçando um movimento, como se quisera mover a cabeça, murmurou:

– Como poderás morrer um dia, Narciso, se não tens mãe? Sem mãe não é possível amar. Sem mãe não é possível morrer.

O que sussurrou em seguida foi já incompreensível. Nos últimos dois dias, Narciso nem por um momento, de dia ou de noite, abandonou a cabeceira do amigo. Observava como aquela vida se ia extinguindo. As últimas palavras de Goldmundo queimavam como fogo o seu coração.

(Narciso e Goldmundo – últimos parágrafos)

Herman Hesse morreu então há 50 anos e as obras referidas foram escritas há já 90, 80 anos – porém, ao revisitar as suas palavras, não posso deixar de sentir que ele nos aproximou um pouco mais de uma certa eternidade da condição humana, na demanda da nossa identidade primordial.

Fernando Rebelo

imagem de Herman Hesse daqui

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1.6.1926 – 5.8.1962

your candle burnt out long before

your legend ever did*

Bernie Taupin (Candle in the Wind)

*a tua vela extingiu-se bem mais cedo do que a tua lenda

 

 

 

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Foi em 2 de agosto de 1962 que a canção Garota de Ipanema, com letra de Vinicius de Morais e música de Tom Jobim, foi tocada pela primeira vez em público num bar do Rio de Janeiro. Originalmente chamada Menina que passa, foi, como admitiu mais tarde Vinicius, inspirada numa então adolescente, Heloísa Pinheiro, que frequentava o Bar do Veloso na Praia de Ipanema onde os dois artistas eram clientes habituais das mesas da esplanada.

A canção ganhou nos anos subsquentes uma popularidade mundial tendo sido alvo de inúmeras versões, entre as quais se contam as de Frank Sinatra, que a globalizou em inglês, e, muito mais recentemente,  Amy Winehouse. Ainda hoje é talvez uma dos maiores símbolos da Bossa Nova evocando uma doce melancolia sensual e poética de verão que, não obstante ter vindo à luz em pleno “inverno” tropical no hemisfério sul, não podia ter um aniversário mais adequado para quem a revive aqui neste agosto português.

Imagem daqui

Fernando Rebelo

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