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Posts Tagged ‘Cinema’

No dia vinte e  três de março, no Centro Cultural de Belém,  foram entregues os Prémios Sophia, da Academia Portuguesa de Cinema, que  contemplou o filme Cartas de Guerra de Ivo Ferreira com 9 das 21 estatuetas distribuídas,  entre as quais as de Melhor Filme e Melhor Realização. Esta obra que tinha 11 nomeações foi feita a partir da correspondência entre o escritor António Lobo Antunes e a primeira mulher, Maria José, quando esteve destacado em Angola, durante a Guerra Colonial: “Cartas da Guerra” deixa um retrato sobre “a maior tragédia portuguesa do século XX”, como o realizador disse à Lusa, quando a longa-metragem teve estreia em sala, em setembro do ano passado.

A memória da Guerra Colonial passa igualmente por “Estilhaços”, de José Miguel Ribeiro, que juntou o Prémio de Melhor Curta-Metragem de Animação, ao seu rol de distinções enquanto Balada de um Batráquio de Leonor Teles recebeu o Sophia de Melhor Documentário em Curta-Metragem. A Academia Portuguesa de Cinema distinguiu ainda o ator Ruy de Carvalho com o Prémio Mérito e Excelência, assinalando os seus 90 anos de vida e 75 de carreira assim como atribuiu os prémios Sophia Carreira à atriz Adelaide João e ao diretor de fotografia Elso Roque.

Quanto a estreias, começo com filmes de ficção científica com o interessante O Espaço Que Nos Une de Peter Chelsom, uma forma diferente e curiosa de abordar este género numa história de amor e de perda a partir da primeira missão de colonização do planeta Marte e das dúvidas e interrogações do primeiro humano nascido no planeta vermelho. Igualmente de ficção científica, o thriller espacial Vida inteligente de Daniel Espinosa remete-nos para a série de culto Alien e, por isso, aguarda-se a sequela desta obra claustrofóbica. A recolha de uma amostra do solo de Marte por um grupo de cientistas da estação espacial internacional conduz não só à primeira prova de existência de vida extraterrestre como também é o ponto de partida para momentos de tensão e um conjunto de acções violentas e sangrentas que levam a classificar esta obra também de terror.

Para os apreciadores de argumentos românticos e baseados em factos verídicos Um  Reino Unido de Amma Asante  a partir de factos ocorridos no final da década de 40 do século XX envolvendo  o casamento  do  príncipe herdeiro do Botswana, Seretse Khama  e  Ruth  Williams, britânica e branca. Um amor que causou grande polémica pois o casal embora exilado do Botswana  resistiu às  pressões  familiares e políticas,   numa época em que o colonialismo  e o apartheid sul africano dominavam, causando também solidariedade internacional. Quando o território se torna independente em setembro de 1966 Seretse Khama torna-se Presidente, cargo que ocupará até à sua morte em 1980.

Igualmente sobre relações amorosas e  desejo feminino  o filme  francês  Um Instante de Amor de Nicole Garcia baseado na obra homónima de Milena Agus com Marion Cotillard a brilhar no papel de uma mulher em conflito  e na  busca do amor  numa sociedade conservadora no  pós 2ª guerra Mundial. A Warner Bros. Pictures e Legendary Pictures e os japoneses da Toho recriam a origem do mítico King Kong  em  Kong: Ilha da Caveira numa emocionante e original aventura do realizador Jordan Vogt-Roberts . Neste filme a equipa de exploradores integra elementos ligados a departamentos governamentais e militares de que fazem parte os  protagonistas Brie Larson como fotógrafa, Tom Hiddleston  Samuel L. Jackson e John Goodman, nesta   nova versão de exploração numa ilha desconhecida do Pacífico. A aventura original envolvendo esta figura clássica data de 1933 e, embora ao longo dos tempos tenha tido várias  versões, o argumento baseia-se  sempre na oposição entre o avanço tecnológico e os seres de um mundo primitivo.

Outra adaptação, mas neste caso do clássico de animação de 1991, A Bela e o Monstro de Bill Condon é uma versão com modernos efeitos especiais digitais que partilham com os atores a composição das cenas. Sem caráter lúdico, o horror do Holocausto serve de base a uma obra cinematográfica em Negação de Mick Jackson a partir de factos reais sobre a disputa judicial envolvendo uma historiadora do Holocausto e um negacionista do mesmo.  Baseado no famoso livro “Denial: Holocaust History on Trial” que a historiadora norte-americana Deborah Lipstadt escreveu como ré no processo de difamação movido por David Irving que nega a existência do Holocausto. Com um excelente elenco é uma obra actual numa época em que vivemos com conflitos entre crenças religiosas e ideológicas esquecendo-se muitos factos históricos.

Também sobre memórias e resistência, temos a interessante obra do realizador brasileiro Kleber Mendonça Filho Aquarius, em que a veterana Sónia Braga interpreta uma viúva aposentada que recusa vender o seu apartamento lutando contra as pressões de que é vítima. Por fim, um divertido e comovente filme sueco nomeado para os Óscares de Melhor filme estrangeiro e de Melhor maquilhagem Um homem chamado Ove de Hannes Holm  a partir do best seller homónimo de Fredrik Backman.  Esta obra agradável consegue equilibrar situações de humor negro com os bons sentimentos de uma personagem que mantém as mesmas rotinas, zangas com os vizinhos e paixão pela mulher morta. É uma obra que enfatiza a importância da tolerância e da entreajuda na comunidade como forma das pessoas demonstrarem os valores e caráter que têm.

Luísa Oliveira

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Embora o tema principal do mês seja a cerimónia dos Óscares de Hollywood, é de destacar, por um lado, a atribuição do Urso de melhor filme na Berlinale Short a Diogo Costa Amarante  com Cidade Pequena, um filme estreado no Curtas Vila do Conde. Por outro lado, Gabriel Abrantes viu o seu Os Humores Artificiais nomeado para o prémio de melhor curta-metragem dos Prémios do Cinema Europeu de 2017, os chamados Óscares da Academia europeia. Quanto ao Cineclube Impala, a funcionar no centro comercial O Pescador na Costa de Caparica, inicia, no mês de março, o ciclo dedicado a Woody Allen com projeção, às 5ª feiras de cinco obras deste emblemático realizador.

No que respeita à 89ª edição dos Óscares da Academia de Hollywood, ela será sempre lembrada pelo momento insólito causado pela troca de envelopes aquando da indicação de melhor filme inicialmente atribuído a La La Land mas que momentos depois foi retificada, sendo o vencedor o excelente drama Moonlight de Barry Jenkins. Um embaraço histórico de uma cerimónia marcada pelas críticas a Trump mas que foram ofuscadas pela situação vivida no final.

Moonlight foi uma das estreias de fevereiro e das oito nomeações recebeu três, pois também foi distinguido com os prémios de melhor argumento original e de ator secundário atribuído a Mahershala Ali. Inspirado num  projecto, nunca apresentado, do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, “In Moonlight Black Boys Look Blue” apresenta três momentos distintos da vida de Chiron, um jovem afro americano introvertido e solitário vivendo num bairro problemático de Miami enquanto faz o seu percurso em busca da identidade própria apoiado na figura de um traficante local e de sua mãe, uma enfermeira viciada em crack. É uma história densa e violenta, típica da periferia de Miami, onde McCraney e Jenkins cresceram.

Mas o vencedor da noite foi, sem dúvida, La La Land  de Damien Chazelle que  se tornou no mais jovem realizador a ganhar o prémio de melhor realização que se veio juntar a outros cinco entre os quais o  da fabulosa banda sonora.

Entre os inúmeros prémios realce para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro do filme The Salesman, de Asghar Farhadi, do Irão pois tanto o realizador como os atores não compareceram à cerimónia como protesto contra as medidas xenofóbas de Trump, tendo sido  representados por duas figuras iranianas de grande relevância nos Estados Unidos: a engenheira Anousheh Ansari, primeira mulher a fazer turismo espacial, e Firouz Naderi, antigo diretor de explorações solares da NASA.

Outra estreia de fevereiro foi Vedações de Denzel Washington que valeu, o merecido reconhecimento, a Viola Davis com o Óscar de melhor atriz secundária tornando-se na primeira atriz afro-americana a acumular  este prémio com o Tony e Emmy. Baseia-se na premiada peça teatral homónima de August Wilson e retrata, com diálogos intensos e comoventes, uma história familiar na década de 1950, época de descriminação racial.

Também sobre a descriminação racial, Elementos secretos de Ted Melfi apresenta a história desconhecida e valiosa do importante contributo para a corrida espacial da NASA de brilhantes mulheres afro-americanas.

Igualmente sobre momentos históricos americanos, tivemos Jackie de Pablo Larraín, com Natalie Portman a interpretar a  bela e misteriosa Jacqueline Kennedy, mulher do presidente americano John Kennedy assassinado em  22 de novembro de 1963.

Outra obra didática e quando estamos a viver uma época em que sopram, novamente, os ventos da intolerância, Stefan Zweig – adeus Europa de Maria Schrader relata episódios  da vida  do escritor e pacifista judeu austríaco perseguido pelos nazis, que previu o declínio da Europa. Exibido, anteriormente, na Mostra de Cinema de Expressão Alemã é apresentado como um documentário histórico sobre uma das grandes personagens do século XX durante o seu exílio no continente americano até ao suicídio em Petropólis, Brasil, em 1942.

Outra obra com enredo no século passado, Mulheres do século XX de Mike Mills é uma agradável comédia dramática autobiográfica sobre as memórias do realizador relacionadas com o papel que as figuras femininas tiveram no seu percurso de vida .

Por seu turno, Toni Erdmann de Mare Ade é um premiado filme que, além de distinguido com inúmeros galardões pela Academia europeia de cinema e de nomeações para vários festivais, foi o representante da Alemanha ao Óscar de melhor filme estrangeiro. Apesar de longo é uma obra divertida que tem como base a relação familiar conturbada entre pai e filha e a forma como vai evoluir de maneira a criarem laços afectivos.

Os que consideram Trainspotting de 1996 de Danny Boyle um filme de culto devem aprovar a sequela com o mesmo elenco. Este segundo filme, baseado no livro de Irvine Welsh intitulado Porno, passa-se nove anos depois dos eventos da primeira longa-metragem com o tema habitual relacionado com a autodestruição, a heroína, a vingança e a amizade.

Por fim, da longínqua Nova Zelândia, chega-nos O Patriarca de Lee Tamahori,  baseado no livro de Witi Ihimaera  Bublibasha: King of the Gypsies. Com ação na década de 1960, apresenta um drama familiar centrado na disputa entre duas famílias mahori envolvidas na indústria de lã. Embora o enredo não seja original, o filme vale pela banda sonora e pelas belíssimas paisagens da Nova Zelândia rural além de que é sempre enriquecedor ver cinematografia de outros países além das produções europeias e norte-americanas.

Termino com uma referência especial à 16 ª edição da Monstra Festival de Animação de Lisboa, a decorrer de 16 a 26 março, com a Itália como país convidado, exibindo uma programação aliciante e diversificada, abrangendo obras de várias proveniências que, certamente, irão agradar aos cinéfilos.

Luísa Oliveira

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No mês das nomeações para os Óscares não é demais relembrar que bem perto de nós há iniciativas que valorizam as obras cinematográficas. É o caso do Cineclube Impala  no Auditório da Costa de Caparica  localizado no Centro comercial O Pescador  que, todas as quintas feiras, apresenta filmes enquadrados em ciclos sendo o de fevereiro  dedicado ao  excelente cinema francês.

Quanto às nomeações para a 89ª edição dos Óscares, o anúncio para as vinte e quatro categorias  foi feito apenas via Internet estando a cerimónia marcada para 26 de fevereiro em Los Angeles, com apresentação de Jimmy Kimmel.

Não foi surpresa o facto da obra LA LA Land de Damien Chazelle ter sido a mais nomeada  pois tem arrecadado prémios em vários festivais e  com 14 nomeações  em treze categorias (duas canções para o prémio de melhor canção original) iguala recordes anteriormente atingidos. É um filme bastante agradável e apesar de representar o regresso do musical, um género com poucos apreciadores, não deixa de ser uma história de amor sem final feliz entre uma pretendente a atriz e um pianista, papéis desempenhados por Emma Stone e Ryan Gosling num argumento que também salienta importância de cada um nunca desistir dos seus sonhos.

Outro filme premiado com seis nomeações é o excelente drama Manchester By the Sea de  Kenneth Lonergan, com um elenco de grande qualidade encabeçado por Casey Affleck  que, de forma simples e subtil, apresenta uma personagem que  carrega o fardo da culpa e a dor de uma tragédia pessoal. Este ator tem uma interpretação soberba nesta obra comovente e intimista sobre situações pessoais e familiares de dor e perda, no presente e no passado mas também apresenta momentos divertidos a partir de situações do quotidiano.

Num género diferente, A Morte de Luís XIV, do realizador catalão Albert Serra, é mais indicado para os que apreciam enredos mais ou menos credíveis envolvendo figuras históricas, neste caso, o poderoso Rei Sol nos seus momentos finais. O filme de Albert Serra teve grande êxito em Cannes, tendo o seu protagonista, Jean-Pierre Léaud, recebido a Palma de Ouro pelo conjunto da sua carreira.

Um filme oportuno, já que a política americana está na ordem do dia, Miss Sloane – Uma Mulher de Armas, do conceituado John Madden, é um interessante thriller  sobre os meandros do poder político americano,com Jessica Chastein  no papel de uma lobista profissional.

Uma estreia aguardada, pois envolve situações vividas por portugueses, Silêncio, do prestigiado Martin Scorsese, adapta o romance homónimo de Shusaku Endo sobre a violenta história do cristianismo no Japão nomeadamente no século XVII. Liam Neeson interpreta o padre jesuíta português Cristóvão Ferreira cuja informação de que tinha renunciado a Deus leva dois jovens jesuítas àquele território distante.  É um filme que provoca reações e análises diversas sobre o martírio e os limites da fé face à tortura e agonia e de como é interpretado o silêncio de Deus face os mártires.

Por fim, A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas de S. Craig Zahler, apesar de classificado como um western, faz lembrar filmes de terror pela crueza e violência  apresentada na busca por uma mulher raptada por canibais, caracterizando de uma forma autêntica  o velho oeste americano.

Luísa Oliveira

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Em dezembro foram atribuídos os prémios do cinema europeu numa cerimónia realizada na cidade polaca de Wroclaw, sendo o grande vencedor a obra Toni Erdmann da realizadora Maren Ade, considerado o Melhor Filme Europeu de 2016, que acumulou com os prémios de melhor realização, argumento e atores. Esta co-produção entre Alemanha, Áustria e Roménia, que explora a complexa relação entre uma rica empresária e o seu excêntrico pai, teve a antestreia mundial no Festival de Cannes, onde recebeu o prémio FIPRESCI e, desde então, tem acumulado várias nomeações e galardões. É o candidato da Alemanha ao Óscar de Melhor Filme Estrangeira.
No que respeita às estreias nacionais na época natalícia, a comédia Festa de Natal da Empresa de Josh Gordon e Will Speck apresenta a fórmula habitual para o sucesso: elenco com atores credíveis, como Jennifer Aniston, e situações cómicas e diversificadas que oferecem momentos de boa disposição.
Mas também estrearam dramas que levam muitos espectadores às lágrimas, destacando-se entre estes Lion – a longa estrada para casa de Garth Davis. A história do menino indiano, Saroo Brierley, perdido da família e adotado por um casal australiano e que, através do Google Earth, encontra a sua aldeia Kwanda e a sua família biológica passados 25 anos. É um filme emocionante baseado na obra autobiográfica “ a long day home” e já se perfila como um forte candidato aos Óscares 2017. Referência especial ao papel desempenhado por Sunny Pawar, com cinco anos transmite a angústia de uma criança sozinha a enfrentar o mundo, realidade cruel do abandono infantil com milhares de crianças que desaparecem nas ruas de cidades e em que a grande maioria não teve a sorte da personagem do filme.
Outra obra que é um autêntico melodrama é Luz entre oceanos de Derek Cianfrance, baseado num romance da escritora australiana ML Steadman . Apresenta uma cuidadosa recriação da época pós 1ª guerra mundial, com uma paisagem idílica e campestre como pano de fundo e um enredo sobre as consequência de decisões emotivas.
Num género diferente, A dançarina de Stéphanie Di Giusto é uma adaptação da obra do crítico de arte Giovanni Lista sobre a bailarina e coreógrafa de finais do século XIX e princípios do século XX, Loie Fuller, que revolucionou a dança contemporânea. É uma agradável película sobre a sua relação de amizade e rivalidade com outro ícone da dança, Isadora Duncan.
A 2ª guerra mundial continua a servir de base a argumentos cinematográficos, como é o caso de Aliados de Robert Zemeckis, com Brad Pitt e Marion Cotillard interpretando um par amoroso no meio de espionagem e suspense, e de O número de Atom Egoyan com Christopher Plummer no papel de um antigo prisioneiro do campo de concentração de Auschwitz que, com um amigo, deseja encontrar o responsável pelo massacre das suas famílias.
Os fãs das aventuras de ficção científica têm contribuído para os recordes de bilheteira de Rogue One: uma história de Star Wars de Gareth Edwards , spin-off produzido pela Disney com base na saga Guerra das Estrelas com a eterna luta entre as forças do bem e do mal e muitos efeitos especiais a completar uma obra interessante. Igualmente de ficção científica, mas que pode ser classificado como uma comédia romântica no espaço, com Jennifer Lawrence a brilhar, Passageiros do norueguês Morten Tyldum demonstra que, apesar da evolução científica/tecnológica com naves espaciais a voarem perto da velocidade de luz e a possibilidade de sobreviver em hibernação durante centenas de anos, os homens continuam dominados por sentimentos como o amor e a compaixão.
O veterano realizador Ken Loach continua com um olhar crítico e acusador sobre o Estado britânico em Eu, Daniel Blake, vencedor da Palma de Ouro da 69ª edição do festival de Cannes 2016, além de outros prémios em vários festivais. Com atores profissionais e não profissionais, é uma excelente obra sobre a dignidade humana e o direito de lutar contra as injustiças sociais a partir do caso de um operário que sobrevive a um ataque cardíaco mas não à burocracia do Estado social.
Por fim, na produção nacional, estreou-se A mãe é que sabe de Nuno Rocha, uma comédia curiosa sobre uma família disfuncional, com passagens em épocas diferentes e sendo, por isso, as mesmas personagens interpretadas por distintos actores. Esta mescla de fantasia, viagens no tempo e universos paralelos proporciona momentos divertidos além de ser sempre gratificante ver bons atores portugueses.

Luísa Oliveira

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As primeiras décadas do século XX e, principalmente, a 2ª guerra mundial são fontes inesgotáveis de argumentos cinematográficos e as estreias do mês de novembro demonstram isso mesmo.

Começo com duas obras recomendáveis em que sobressai a esperança no futuro mesmo em momentos de desespero sendo que uma delas, As inocentes de Anne Fontaine, venceu o Prémio do Público na Festa do cinema francês e é considerado um dos melhores filmes do ano. A partir da história verídica de uma médica comunista da Cruz Vermelha francesa que auxilia as freiras de um convento da Polónia, violadas por soldados soviéticos no final da 2ª guerra mundial, assistimos a um turbilhão emocional, psicológico e espiritual envolvendo as protagonistas e as angústias e interrogações desencadeadas pelo momento em que vivem.

Um olhar diferente sobre as tropas soviéticas, a partir da inocência e imaginação de uma criança, é apresentado no filme A primavera de Christine de Mirjam Unger. Com ação em Viena, baseia-se na obra autobiográfica de Christine Nöstlinger, a autora mais famosa de livros infantis na Alemanha e na Áustria e que viveu os terríveis acontecimentos como uma aventura.

Em sentido contrário a emergência do mal surge em A Infância de um Líder, a estreia como realizador de Brady Corbert vencedor do Prémio “Revelação TAP 2015” do Lisbon and Estoril Film Festival (LEFFEST), e dos Prémios “Melhor Primeiro Filme” e “Melhor Realizador” (Orizzonti Award) no 72º Festival de Cinema de Veneza. Baseado no conto homónimo de Jean-Paul Sartre (1939), o filme tem a função de um documentário pois é uma visão assustadora sobre a ascensão do fascismo no Século XX.

Mas há sempre chance de dizer não e de resistir-se ao mal e a película Sózinhos em Berlim de Vincent Pérez, adaptação da obra homónima de Hans Fallada, dá conta disso, com a verdadeira história de coragem  dos resistentes ao nazismo, Otto e Elise Hampel, executados pelo regime por terem apelado à desobediência  aos nazis.

Igualmente sobre factos deste período, O herói de Hacksaw Ridge de Mel Gibson é um relato verídico e violento sobre o único soldado americano, Desmond Doss, que participou na batalha de Okinawa sem estar armado pois era objector de consciência. Médico do exército, consegue salvar 75 pessoas tendo sido condecorado com a medalha de honra do Congresso americano.

Num registo diferente mas igualmente do género drama, Chocolate de Roschdy Zem apresenta o primeiro palhaço negro nos palcos franceses, Rafael Padilla, um ex-escravo de origem cubana que fugiu para a França no final do século XIX e tornou-se uma estrela em Paris com a ajuda de seu parceiro Tony Grice, conhecido como o palhaço Footit. Chocolat usou o riso para lutar contra o preconceito e o ator Omar Sy tem uma interpretação perfeita como protagonista, mostrando  a ambivalência  de  um homem que deseja ser rico e livre mas que reconhece que  ainda  é controlado e manipulado por outros.

Ewan McGregor estreou-se na realização com American Pastoral baseado no notável romance homónimo de Philip Roth que valeu a este escritor o Prémio Pullitzer . Um filme inquietante sobre o sonho americano e as contradições de ser americano entre os que consideram, orgulhosamente, a América a terra das oportunidades e os que a vêem como símbolo do mal.

Num registo diferente dos anteriores a aventura e divertimento de Monstros fantásticos e onde encontrá-los de David Yates. A famosa escritora J.K. Rowling estreou-se como argumentista numa obra com personagens mágicas em que sobressai o expressivo Eddie Redmayne como um herói atrapalhado mas muito decidido em lutar pelo que considerava justo e correto. Esta obra é um bom regresso ao universo mágico “Harry Potter” aguardando-se com expetativa os quatro filmes que se seguirão.

Luísa Oliveira

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Como é do conhecimento geral, grande parte dos filmes exibidos são adaptações  de obras literárias  apresentando, por vezes, algumas alterações em relação ao original. Foi o caso de A rapariga no comboio  de Tate Taylor adaptação do mundialmente famoso livro homónimo de Paula Hawkins. Quem conhece esta surpreendente obra talvez fique dececionado com o filme não reconhecendo algumas partes pois as diferenças não são só a nível do suspense e mistério mas também geográficas, dado que no filme a ação  decorre em Nova Iorque e no livro nos arredores de Londres. Mas a escolha das personagens tanto femininas como masculinos e sobretudo de Emily Blunt como protagonista apresenta alguns momentos intensos o que torna interessante este thriller  de cariz psicológico.

Pelo contrário, Inferno de Ron Howard, terceiro filme adaptado dos livros de Dan Brown  depois de O código da Vinci em 2006 e Anjos e demónios em 2009, segue  a obra original  com os enigmas habituais e várias reviravoltas no enredo. Tom Hanks continua como protagonista no papel do professor especialista em simbologia religiosa. Woody Allen apresenta os seus habituais diálogos criativos em Café Society, uma comédia dramática romântica sobre relações amorosas frustradas na América dos anos 30/40 do século XX . A ação alterna entre a radiosa Hollywood e as suas festas luxuosas e o ambiente faustoso da cinzenta Nova Iorque, misturando-se mafiosos e políticos que frequentam os mesmos locais de divertimento e lazer.

Em moldes diferentes,  Doutor Estranho, com realização e argumento de Scott Derrickson, apresenta mais um super-herói, neste caso, de força mental, que combate as forças do mal que pretendem destruir o planeta. Esta adaptação da banda desenhada de Steve Ditko apresenta  Benedict Cumberbatch  interpretando um brilhante e arrogante neurocirurgião que perde o uso das mãos após um desastre de automóvel  e que no Tibete descobre em si poderes sobrenaturais e dimensões do universo nunca sonhadas; aprende artes marciais mágicas e enfrenta as forças mais negras do universo.

Os que apreciam filmes de terror com muita violência e tensão têm à disposição o thriller Green Room  de Jeremy Saulnier que fez parte da programação da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Patrick Stewart surge no papel de um líder de neonazis assassinos que pretende eliminar todos os elementos de uma banda punk, testemunhas de um ato de violência praticado por aqueles.

Por fim, para passar momentos descontraídos, a comédia francesa  Bem-Vindos… mas não muito  de Alexandra Leclère,  já exibido na Festa do cinema francês cujas obras continuam a percorrer o país . Os grupos sociais franceses são apresentados de forma estereotipada como pretexto para o tratamento de questões polémicas atuais como sejam o acolhimento de emigrantes /refugiados, a pobreza e as diferenças sociais. Resulta numa obra agradável, mesmo para os que não apreciam cinema francês sendo que o final é mais otimista do que a realidade, infelizmente.

De 4 a 13 novembro, decorre um dos maiores eventos culturais em Portugal, a 10ª edição do Lisbon & Estoril Film Festival, apresentando o que de melhor se faz não só no mundo da Sétima Arte como também noutras áreas culturais, nomeadamente  literatura, música e artes plásticas. Utilizando vários espaços em Lisboa e Cascais e com a presença de nomes célebres das várias áreas culturais continua a apresentar-se como um acontecimento propício à discussão e reflexão de temas que marcam a atualidade internacional.

Termino relembrando que o Cine-clube Impala, na Costa de Caparica, continua com os seus ciclos de cinema. Assim, em novembro,  propõe um Ciclo de Cinema de Taiwan e do Japão, começando no dia 3, pelas 21:30 horas, com o filme de Taiwan Yi-Yi, realizado por Edward Yang, sobre o difícil equilíbrio que cada família chinesa de Taipé tem de fazer entre o passado e o presente e a complexidade das relações ao longo do tempo. Este Ciclo de cinema, que abrange obras raramente exibidas nas salas nacionais, continua nos dias 10, 17 e 24 de novembro o que constitui uma boa oportunidade para conhecer esta filmografia oriental.

Luísa Oliveira

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As Fitas regressam com uma análise de alguns dos filmes estreados no mês de setembro. O realce vai para o filme de produção portuguesa realizado por Ivo Ferreira Cartas da guerra baseado no livro de António Lobo Antunes “D’este viver aqui neste papel descripto”. Esta obra é realizada a partir de cartas que o autor escreveu à sua primeira mulher quando, em 1971, foi incorporado no exército português, para servir como médico numa das piores zonas da guerra colonial, o leste de Angola, onde o anseio pelo regresso à metrópole marca o dia a dia da vida militar. As cartas tornam-se uma ajuda preciosa para sobreviver no meio de grande violência, ao mesmo tempo que o autor desperta a paixão por África e  vai formando a sua consciência política.

É o único filme português dos 50 nomeados para os prémios da Academia Europeia de Cinema, com a 29.ª cerimónia, a decorrer a 10 de dezembro, na cidade polaca de Wroclaw, Capital Europeia da Cultura 2016. Os membros da Academia Portuguesa de Cinema também escolheram esta obra para representar Portugal na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, nos Óscares da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas. Anteriormente teve algum reconhecimento pois foi finalista ao Urso de Ouro de Berlim e representou Portugal na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano, nos Prémios Goya, da Academia Espanhola de Cinema.

Quanto às restantes estreias, os apreciadores de épicos históricos rejubilam com Ben–Hur do realizador russo de origem cazaque Timur Bekmambetov. Mas, apesar dos excelentes efeitos visuais, esta nova versão não faz esquecer o filme de 1959, dirigido por William Wyler que arrecadou um número recorde de 11 estatuetas nos Óscares de 1960. Enquanto esta versão de 1959 é focada na vingança, o atual centra-se nas relações familiares, no poder da fé, da reconciliação e compaixão incorporando cenas da vida de Cristo.

Para momentos bem divertidos Florence, Uma diva fora de tom de Stephen Frears é uma simpática comédia biográfica sobre a desafinada cantora lírica, a milionária novaiorquina Florence Foster Jenkins, representada de forma brilhante, como sempre, por Meryl Streep. A milionária vivia na ilusão de ser uma diva lírica, sendo que os que a rodeavam, por consideração e por interesse, ocultavam a verdade sobre a sua competência vocal mas, ao cantar tão mal, torna-se uma figura de culto devido aos espetáculos públicos hilariantes que proporcionava.

Uma excelente obra sobre a China atual – Se as montanhas se afastam – do realizador chinês Jia Zhangke, realizado a partir de metáforas e imagens deslumbrantes, em que os personagens de Liangzi, mineiro pobre mas honesto e afável representa as virtudes da velha China e a força da tradição, enquanto o rico Zhang simboliza a corrupção do capitalismo selvagem e a irresistível sedução pelo Ocidente. Ao longo do enredo demonstra-se como a nova geração, fruto do capitalismo desregrado, vai perdendo a identidade pois o feroz desenvolvimento económico tem um elevado preço humano.

Pedro Almodovar retoma o tema da perda no universo feminino com Julieta, a partir do conto escrito pela vencedora do Prémio Nobel de Literatura de 2013, Alice Munro. É uma obra dramática e silenciosa, como que a partilhar com o espetador o vazio de vida e angústia da protagonista pelo desaparecimento voluntário da filha, mostrando também como uma pessoa consegue recompor-se e seguir em frente apesar da ferida aberta. As sempre presentes cores do filme acompanham as várias fases da vida de Julieta e a sua queda física e psicológica.

A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares de Tim Burton, com a habitual fantasia gótica, suge a partir da adaptação do bestseller de 2001 de Ramson Riggs sobre crianças com poderes bizarros e viagens no tempo; apresenta  interessantes efeitos visuais, alguns na técnica de animação stop-motion. É mais uma obra extravagante, típica deste realizador com temas que defendem o reconhecimento e o direito à diferença.

Finalmente, a salientar que a Festa do Cinema Francês regressa a partir do próximo dia 6 de Outubro e, mais uma vez, o evento organizado pelo Instituto Francês viajará por todo o país durante cinco semanas. Para esta 17ª edição, para além das já habituais ante-estreias (ao todo 25 filmes de produção recente entre títulos já adquiridos para Portugal e outros que procuram ainda distribuição), a Festa propõe uma “viagem através do cinema francês” inspirada pelo documentário do mesmo nome do realizador Bertrand Tavernier e um ciclo programado pela associação de produtores e distribuidores independentes ACID, que dá a conhecer as novas abordagens do cinema francês. Este evento constitui, mais uma vez, um bom motivo para a deslocação ao cinema.

Luísa Oliveira

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