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Archive for the ‘Grande Lisboa’ Category

A nossa bibliblogueira residente quase desde o início, Cristina Teixeira (professora), autora já da rubrica “A Morte da Estética”, propõe-nos agora uma nova série de artigos, que se iniciam com o que hoje se publica, sob o título “Grande Lisboa” – grande porque pretende abranger uma grande diversidade de temas, grande porque pretende também celebrar a grandeza (e talvez também a miséria) da nossa capital, mas grande, finalmente, porque abrangerá a literalmente conhecida área metropolitana com a mesma designação. Aqui se inaugura então esta nova rubrica com um texto sobre o “Bairro Alto” quando acaba de cumprir 500 anos.

bairro altoCompletaram-se no passado mês de dezembro 500 anos sobre o arranque da urbanização do Bairro Alto. Verdadeiro palco iniciático da vida boémia da cidade, foi este bairro, ao longo destes séculos, palco de vivências diversificadas, intensas e sobrepostas, que têm marcado indelevelmente o sítio. Do fado aos bordéis, do jornalismo à moda, à arte, à música e à restauração, é um bairro que se tem ”reinventado”, nunca perdendo dinamismo e vibração.

Foi quando, nos anos 80, Manuel Reis abriu o bar Frágil, que a vida noturna explodiu na cidade e se polarizou neste atlbairro. A partir de então tornou-se território de eleição de todas as tribos urbanas que à noite o invadem, infelizmente cada vez mais indiferenciadas, do género adolescente de litrosa de cerveja na mão, deixando como despojos da sua passagem garrafas espalhadas pelo chão, paredes grafitadas e esquinas transformadas em urinóis, prejudicando gravemente a vida dos seus pacatos residentes e afastando frequentadores. Ainda que outras zonas da cidade surjam, esporadicamente, como locais de eleição para a noite, o Bairro (como familiarmente é conhecido) nunca perdeu o seu protagonismo e permanece, para a vida noturna, a verdadeira referência. Para além de sítio de copos e divertimento, ali surgiu, nos anos que seguiram ao 25 de Abril, a geração que havia de ensaiar tipos de cultura urbana, trazida de outras latitudes, proporcionando uma revolução de mentalidades. O Bairro apresenta características que tal favorecem: é IMG_01251muito central, mas simultaneamente é protegido por “fronteiras” bem definidas (a Norte pela Rua D. Pedro V, a sul pelo Largo de Camões e pela Calçada do Combro, a Oeste pela Rua do Século e a Este pela Rua da Misericórdia e a Igreja de São Roque), o que o tornam um recinto quase privado dentro da cidade. As ruas estreitas e empedradas, e algo labirínticas (para o que concorre a ausência de uma praça ou largo central) tornaram-no ideal para acolitar as vivências mais extravagantes, alternativas e criativas, que ao longo do tempo têm convergido neste espaço.

A Lisboa do tempo de D. Manuel era uma das capitais europeias mais dinâmicas e cosmopolitas da época. Do Oriente chegavam ao Tejo todo o tipo de produtos, riquezas e exotismos. A cidade muralhada tornou-se incomportável para tanta gente. O rei D. Manuel adquiriu os terrenos na colina contígua às portas de Santa Catarina às famílias Andrade e Atouguia para aí construir um novo bairro, de acordo com um plano urbano moderno, alternativo à velha urbe, de malha ainda medieval, e de matriz árabe. Foram aí implementados os preceitos racionalistas do Renascimento: um bairro ortogonal, de ruas direitas, grande-panorama-de-lisboa_santa-catarina-sao-bento_sec-xviiparalelas e perpendiculares (rua principal e travessa), organizadas pela lógica do quarteirão. A este bairro foi dado o nome de Vila Nova de Andrade e deveria albergar funcionários ligados ao comércio e faina marítima, entre eles, os estrangeiros que nessa altura se estabeleceram em Lisboa, como cosmógrafos e comerciantes, também ligados à mesma atividade, e que procuraram esta zona de Santa Catarina para construir os seus palacetes. Quando os jesuítas se instalaram na ermida de São Roque, naquela colina ocidental de Lisboa, e posteriormente aí construíram o seu convento, no que hoje é a Igreja de são Roque e o complexo da Misericórdia, nobilitaram a zona, e alguma aristocracia, sobretudo a de toga, e também o clero, subiram da Ribeira e ali construíram os seus palácios e conventos, na zona extra-muros da cidade.

planta de lxTodo o bairro foi construído de acordo com normas construtivas de grande simplicidade. A Provedoria de Obras Reais era o organismo que definia e assegurava que as construções seguissem as normas: a “aplicação de métricas proporcionais, a estandardização de elementos arquitetónicos e a uniformização de acabamentos” (Helder Carita). O material utilizado era a alvenaria de pedra e cal, com vãos e cantos reforçados a pedra de lioz; os planos de fachada deveriam ser lisos e contínuos, tendo como saliência máxima um palmo e meio para a sacada, e seguir um determinado padrão para a sequência de janelas de sacada e peitoril, as escadas teriam que ser interiores e toda uma pauta a que os próprios mosteiros e palácios tiveram que se submeter. No século XVIII tornou-se um bairro aristocrático e cultural, com um teatro e academias. Quando o terramoto de 1755 destruiu Lisboa, o Bairro Alto foi, de certa forma, poupado, sobretudo a parte mais alta da Vila Nova de Andrade, isto é, o Bairro Alto, designação que então se divulga. Os edifícios que foram construídos em substituição dos arruinados, delimitam o bairro e a simplicidade das fachadas vai ser reforçada pelo rigoroso programa pombalino, embora algumas alterações vão então ser permitidas, como algumas notas barrocas no próprio palácio do Marquês de Pombal, construído na fronteira oeste do bairro, na Rua da Século.

A malha urbana densifica-se e os prédios sobem uns pisos. No século XIX impera a burguesia, e na segunda metade de oitocentos muitos nobres vendem os seus DSC_0185_149palacetes na zona (embora ainda sobrevivam alguns habitados pelos descendentes das famílias fundadoras), sobretudo aos jornais e às tipografias, dada a enorme expansão da imprensa nessa altura. Esta apropriação do bairro pelos mais importantes jornais do país, deram o cariz boémio ao bairro, uma vez que jornalistas e tipógrafos trabalhavam pela noite dentro, servindo-se das tascas e casas de pasto a altas horas da noite. Hoje em dia, apenas aí subsiste teimosamente o jornal desportivo “A Bola”. Aos jornalistas juntaram-se a partir do último quartel do 704Adega Machado, Bairro Altoséculo XX, os estudantes, os artistas e os escritores. E ultimamente todos os turistas e estrangeiros residentes, que procuram Lisboa e o seu bairro de eleição. A sua frequência é transversal a várias gerações e a diferentes culturas, até porque alberga alguns dos restaurantes mais sofisticados da cidade, como o Pap’ Açorda, o Casa Nostra ou o Decadente, que existem a paredes meias com casas de pasto e tascas abarracadas. O mesmo se passa com as lojas, como por exemplo a de design premium,  Loja da Atalia e outros estúdios de estilistas de renome, que se acotovelam com as tradicionais capelistas e as mercearias de esquina. Ainda a mesma lógica “promíscua” e democrática nas habitações, – vetustos casebres avizinham-secinema_terraco1 com condomínios de luxo, como os do Convento dos Inglesinhos. O mesmo também se verifica nos espaços culturais: O Conservatório Nacional, instalado no antigo Convento dos Caetanos, e a alternativa galeria ZDB, convivem bem com as associações recreativas populares do bairro.

É tudo isto que torna o Bairro Alto, desde 2010 classificado com Conjunto de Interesse Público (CIP), num pequeno mundo muito particular dentro da cidade.

Nota da autora: Este artigo foi escrito a partir de notas recolhidas numa visita de estudo organizada pelo arquiteto Hélder Carita ao Bairro Alto, no âmbito da comemoração dos seus 500 anos, assim como em documentos fornecidos pela organização “Eu amo Lisboa” que a programou, e na separata do jornal Expresso (Revista, 23 NOV/13) “BAIRRO ALTO, 500 aos de vida na colina”.
Cristina Teixeira

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