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Archive for the ‘O Mundo nas Trincheiras’ Category

Assinatura do Tratado de Versailles

Assinatura do Tratado de Versalhes

Ao cabo de quatro anos e três meses do conflito que ficou conhecido como a Grande Guerra, quando a Alemanha assina o armistício em 11 novembro de 1918, as consequências não se contabilizaram só pelos dez milhões de mortos e cinco milhões de feridos. A mentalidade confiante e racionalista da sociedade burguesa de inícios do século XX sofreu um corte devido ao choque causado pelo conflito, avizinhando-se uma nova ordem internacional com as democracias vitoriosas a iniciarem o processo de reordenamento do espaço europeu e do Médio Oriente. O fim do conflito marcou, assim, a vitória das democracias liberais do ocidente europeu sobre os velhos impérios autocráticos da Europa central e do leste e do Império Otomano. O Império Russo foi o primeiro a desaparecer quando Lenine, após a revolução socialista de 1917, assinou, em março de 1918, a paz com a Alemanha em Brest-Litovsky, embora com inúmeras perdas territoriais nomeadamente para a Polónia, Ucrânia e independência da Estónia, Letónia, Lituânia e Finlândia.

Sátira da época ao Tratado de Versalhes

Sátira da época ao Tratado de Versalhes

Para os vencidos, as perdas foram violentas, sendo os seus impérios desmembrados em consequência dos acordos de paz de 1919. A Alemanha foi considerada a responsável pelo conflito e o seu império, dominado pelos Hohenzolern, desapareceu: além de instaurar a república, perdeu 1/10 da população e 1/7 do seu território, nomeadamente, as regiões da Alsácia-Lorena para a França, territórios para a Polónia, Bélgica, Dinamarca e Checoslováquia. A estes factos, juntam-se outras penalizações como a perda das colónias, desmilitarização de zonas fronteiriças, redução do exército e da marinha mercantil, além das reparações financeiras que ascenderam a centenas de milhões de marcos. O Império Austro-húngaro foi totalmente desmembrado, surgindo os novos estados da Áustria, reduzida aos Alpes Orientais e a uma pequena planície junto ao Danúbio, da Hungria e da Checoslováquia, tendo sido ainda alguns territórios desse antigo império integrados na Itália, Roménia, Grécia, Polónia e Jugoslávia, que se tornou independente. A Bulgária deixou de ter acesso ao mar Mediterrâneo. O vasto Império Otomano do sultão Maomé VI foi dos mais penalizados, ficando reduzido às dimensões da atual Turquia e perdendo todos os territórios do Médio Oriente, originando novos estados como o Iraque, sob influência britânica, Síria e Líbia, protetorados da França, Transjordânia, Palestina e Egito sob tutela britânica, o reino independente da Arábia Saudita, enquanto o Curdistão e a Arménia alcançam a autonomia.

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Esta nova ordem internacional, saída da Conferência de Paz iniciada em janeiro de 1919, não vaticinava resultados duradouros pois os vários tratados, nomeadamente o emblemático Tratado de Versalhes, foram impostos pelos países vencedores aos países vencidos, que nem sequer colaboraram na elaboração dos textos. Esta humilhação e prepotência virá a ser um dos pretextos apresentados pelos nacionalistas alemães para vingar o seu orgulho ferido. Mas, mesmo entre os vencedores, as ambições hegemónicas e a distribuição das reparações de guerra geraram grande descontentamento, nomeadamente em Portugal e Itália, sendo que este último também demonstrou o seu desagrado por não lhe ter sido atribuído alguns territórios anteriormente prometidos. Nesta redefinição das fronteiras, as minorias nacionais não foram consideradas e, sem respeito pela identidade étnica e cultural, foram espalhadas por vários países. Deslocaram-se assim milhões de pessoas, sendo o caso mais grave a fixação na região checa dos Sudetas de milhares de alemães facto que servirá, nos anos 30, de argumento a Hitler para reclamar a integração desse território na Alemanha.

Reunião da Sociedade das Nações, Genebra 1920

Reunião da Sociedade das Nações, Genebra 1920

Porém, enquanto decorria a Conferência de Paz, apesar das divergências, havia a esperança que este conflito acabaria com todas as guerras. E foi pensando nisso que o presidente americano Woodrow Wilson propôs a criação de uma “organização geral das nações” para “desenvolver a cooperação entre nações e garantir paz e segurança”, constando essa pretensão num dos pontos do Tratado de Versalhes. A Sociedade das Nações, com sede em Genebra, tornou-se assim um instrumento de esperança que, em breve, se mostrou ineficaz pois os erros cometidos na Conferência de Paz vieram demonstrar que eram bastante ambiciosos os objetivos da SDN e difíceis de concretizar. Para complicar o sucesso político da SDN, os EUA, responsáveis pela sua formação, decidem não a integrar, descontentes com as atitudes hegemónicas dos países europeus e com as asfixiantes indemnizações exigidas aos países vencidos.8 - charges sobre a Primeira Guerra Mundial - Revista A Cigarra - 1917 - Blog do IBA MENDES...

Como em todos os grandes conflitos, às alterações geopolíticas juntam-se as transformações demográficas, económicas e financeiras. Assistiu-se ao envelhecimento da população, excedentes de população feminina, diminuição de mão-de-obra pois os mortos e feridos eram adultos do sexo masculino. Sobretudo a Europa central tornou-se um território em ruínas, com campos agrícolas devastados, fábricas destruídas e vias de transporte e comunicações desorganizadas. Os preços aumentaram sem que houvesse a devida correspondência no aumento dos salários, tornando-se habitual o racionamento dos bens essenciais. A Europa torna-se dependente dos EUA quanto aos empréstimos e fornecimento de bens, acentuando o seu endividamento e decadência.

8 - charges sobre a Primeira Guerra Mundial - Revista A Cigarra - 1917 - Blog do IBA MENDES....Futuros líderes políticos como Hitler, Churchill, De Gaulle e chefes militares como Rommel, Montgomery e Jukov participaram no conflito, cujo final representaria o triunfo da justiça e da igualdade e um futuro risonho para a Humanidade. Tal não veio a acontecer pois os erros cometidos por políticos ambiciosos abriram caminho ao autoritarismo e fizeram com que duas décadas mais tarde o mundo vivesse a uma catástrofe ainda maior. Como tal, é natural que se diga que a Grande Guerra foi a antecâmara da 2ª Guerra Mundial.

Luísa Oliveira

imagens: daqui, daqui, daqui e daqui

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O 1º conflito mundial, dadas as proporções inéditas de destruição que atingiu, inspirou escritores e cineastas e muitas das obras são autênticas aulas de História. Não pretendendo fazer uma lista exaustiva, começo por salientar alguns filmes que serão sempre identificados como clássicos de guerra: A oeste nada de novo de Lewis Milestone, a obra–prima do talentoso Stanley Kubrik Glória feita de sangue e Asas de William A. Wellman .

O primeiro foi lançado no período entre as duas guerras mundiais e baseou-se no notável livro homónimo de Erich Maria Remarque. A obra, vencedora do Óscar de melhor filme de 1930, conta como um jovem soldado idealista se transforma, desiludido e traumatizado com os horrores da guerra. O segundo, baseado no romance de Humphrey Cobb, é uma crítica ao abuso do poder e da hierarquia social quando soldados são condenados, servindo de bodes expiatórios da inadequada estratégia de ataque de um comandante francês. Kirk Douglas interpreta, de forma emocionante, um sensível e humano comandante que rapidamente percebe a inutilidade da guerra. Embora realizado em 1957, é um filme que merece ser revisto pela atualidade do argumento ao apresentar os jogos de poder, as injustiças cometidas e a desumanização. Asas, realizado em 1927, foi a primeira obra a ganhar o Óscar de melhor produção, o que corresponde ao de melhor filme, sendo ainda considerado o último épico do cinema mudo. Misturando aventura com romance, as cenas de batalhas aéreas apresentam um impressionante realismo com os próprios atores a pilotarem os aviões.

Contudo, além destes filmes, muitos outros merecem referência com temas recorrentes em que a guerra, drama e romance aparecem interligados. O quase centenário Shoulder Arms, uma curta metragem muda, escrita, produzida, realizada e protagonizada por Charlie Chaplin pouco antes do fim da guerra, não podia faltar nesta lista.  Adeus às armas de Charles Vidor, último filme produzido por David O. Selznick, a partir da obra homónima de Ernest Hemingway, com Rock Hudson e Jennifer Jones nos papéis principais, relata uma trágica história de amor em tempo de guerra. O Sargento York, de Howard Hawks, foi baseado no diário de Alvin C. York, soldado americano com inúmeras condecorações, e representado por Gary Cooper, numa fabulosa interpretação que lhe valeu um Óscar. Com cenas que ficam na memória, é uma obra de 1941 quando era importante valorizar quem demonstrou coragem e determinação na luta contra os alemães. O triste e angustiante Johnny vai à guerra, único filme realizado pelo escritor e argumentista Dalton Trumbo, uma das vítimas da perseguição do período macarthista, constitui por sua vez um grito contra todas a guerras.

Crepúsculo das Águias de John Guillermin apresenta-nos a visão do lado alemão da guerra onde, no meio de espetaculares batalhas aéreas, a honra e o preconceito social estão omnipresentes. Flyboys de Tony Bill narra, por seu turno, a história dos americanos que, antes dos EUA entrarem no conflito, se apresentaram como voluntários e que, após um treino rigoroso por parte dos franceses, integraram a Esquadrilha Lafayette, o primeiro esquadrão de pilotos americanos. O último batalhão, de Russell Mulcahy, é um remake de uma obra de 1919, que relata a coragem e o heroísmo de um grupo de americanos cercados pelos alemães na floresta de Argonne, salvos quando tudo parecia perdido, graças à ação do Major Charles Whittlessey, condecorado como um herói pelo Congresso americano.

Um longo domingo de noivado, do conceituado realizador Jean-Pierre Jeunet e baseado no livro homónimo de Sébastien Japrisot, é uma belíssima obra cinematográfica com cenários de guerra e paisagens deslumbrantes, além da excelente fotografia a que se junta a doce Audrey Tatou que, contra tudo e contra todos, nunca perde a esperança  de encontrar o seu noivo perdido nas trincheiras. Feliz Natal de Christian Carion baseia-se em factos verídicos para nos dar uma visão mais humanizada da guerra quando franceses, escoceses e  alemães fazem uma trégua e confraternizam na primeira época natalícia após o início do conflito, mostrando a ânsia de paz partilhada por todos. My boy Jack de Brian Kirk, numa comovente adaptação de uma peça de teatro homónima, descreve o  sofrimento do poeta inglês Rudyard Kipling e da sua mulher pela busca do seu jovem filho Jack, desaparecido durante o conflito, personagem interpretada por Daniel Radcliff. O título do filme baseia-se no poema que dedicou ao filho desaparecido e que descreve de forma emotiva o desespero de quem perdeu os familiares.

Cavalo de Guerra, uma aventura épica de Steven Spielberg, sobre o livro homónimo de Michael Morpurgo. é um conto sobre a lealdade, a esperança e a tenacidade – acompanhando a jornada de um cavalo separado do seu dono, vai alterando e inspirando a vida daqueles com quem se cruza, nomeadamente a cavalaria britânica, os soldados alemães e até um agricultor francês e sua neta. Dando-nos uma visão completamente diferente do conflito, pois a ação decorre no Médio Oriente, Lawrence da Arábia de David Lean aborda a biografia de T. E. Lawrence, militar britânico que teve importante papel na revolta árabe contra o domínio turco-otomano e acabou por tornar-se num dos filmes mais conhecidos e apreciados de todos os tempos, tendo sendo distinguido com sete Óscares. Finalmente, uma referência incontornável, ao que é considerado um dos melhores filmes de sempre: a adaptação, em 1951, da obra de C. S. Forester, Africa Queen, realizado pelo genial John Huston, com interpretações de dois gigantes do cinema, os atores Katharine Hepburn e Humphrey Bogart, que ganhou o Óscar pela sua interpretação de um aventureiro dono de um barco que é persuadido, no início do conflito, a destruir um navio alemão no antigo Congo Belga num enredo que combina a aventura, com o romance e a vingança.

Com estes e muitos outros filmes a produção cinematográfica também contribuiu para que a memória de um acontecimento tão atroz para a humanidade não se apague.

Luísa Oliveira

Shoulder Arms (Charlot nas Trincheiras), realizado ainda durante a 1ª Guerra

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Os acontecimentos mundiais estão sempre associados a determinadas personagens e o primeiro conflito mundial não foi exceção destacando-se as figuras de Mata-Hari e do Barão Vermelho.

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Margarette Zelle com o marido antes de se tornar Mata-Hari

A enigmática bailarina exótica, cortesã e espia Mata-Hari ou Margarette Zelle, cuja vida de mistério e fantasia inspirou cineastas e escritores ainda é uma referência para os nostálgicos da espionagem. No início do século XX apresentava-se nos famosos cabarés europeus como filha de uma bailarina de um templo da Malásia terminando as suas atuações com orações a Xiva, deus hindu da destruição. Durante um certo tempo rejeitou as suas origens europeias pois, na realidade, era filha de mãe holandesa e de um abastado comerciante de origem javanesa e tinha sido vítima de violência doméstica quando viveu em Java e Sumatra casada com o oficial holandês Macleod.

bailarina, Paris 1910

bailarina, Paris 1910

Nestas regiões, além de aprender as religiões orientais iniciou o domínio de algumas técnicas de danças locais que pôs em prática nas suas atuações em que se apresentava envolta num sari hindu com um soutien de lantejoulas e véus transparentes sobre os ombros, sendo descrita como “Grande, esbelta, ela exibe sobre seu maravilhoso pescoço, flexível e cor de âmbar, uma face fascinante, perfeitamente ovalada, cuja expressão sibilina e tentadora impressiona. A boca, vigorosamente desenhada, traça uma linha móvel, desdenhosa, muito carnuda, sob um nariz reto e fino cujas asas palpitam sobre duas covinhas sombreadas nos limites de seus lábios. Os magníficos olhos, ligeiramente puxados, aveludados e melancólicos, são envoltos por longos cílios encurvados e têm qualquer coisa de hindu. Seu olhar é enigmático: perde-se no vazio. Os cabelos, muito pretos, repartidos ao meio, montam em sua face um quadro de impenetráveis ondulações”.

Mata-Hari na prisão

Mata-Hari na prisão

O seu poder de sedução fez com que fosse disputada por indivíduos de várias nacionalidades ligados ao poder económico, político e militar. O relacionamento com ricos e poderosos e as frequentes viagens que fazia pelas capitais europeias marcou o seu destino quando foi denunciada pelos ingleses e julgada e condenada pelos franceses acusada de agente dupla ao serviço da espionagem alemã que a tinha recrutado em 1916. O julgamento por um conselho de guerra, em Paris, iniciou-se em 24 julho de 1917 e nele defendeu-se, convictamente, das acusações de que era vítima baseadas em declarações, não comprovadas, dos agentes dos serviços secretos e da polícia. Mas a decisão há muito que estava tomada pois as orientações do governo eram no sentido da condenação à morte o que aconteceu após dez minutos de deliberações. Perante o pelotão de fuzilamento, na cidade francesa de Vincennes, em 15 outubro de 1917, apresentou-se vestida de negro com um chapéu de abas largas e botas altas acompanhada pela freira Leónide para quem acenou antes da execução. Ninguém reclamaria seu corpo que foi entregue à faculdade de medicina.

Mata-Hari diante do pelotão de fuzilamento

Mata-Hari diante do pelotão de fuzilamento

As autoridades francesas responsabilizaram-na por mais de 50.000 mortos devido aos supostos segredos que transmitiu aos alemães mas a sua condenação continua envolta em mistério e, apesar das informações dos serviços de espionagem inglesa estarem disponíveis desde janeiro de 1999, há muitas dúvidas sobre o seu efetivo papel como espia e a justeza da acusação, e se não terá sido mais uma vítima do ambiente bélico em que viveu.

Manfred von Richthofen

Manfred von Richthofen

Num percurso de vida diferente, mas igualmente caraterístico da época pelo seu patriotismo, idealismo e heroísmo, destaca-se igualmente o famoso Barão Vermelho, aliás Barão Manfred von Richthofen,  considerado o maior piloto de caças militares de sempre.

Pertencia a uma rica família da nobreza prussiana e, como era habitual neste estrato social, ingressou no corpo de cadetes imperiais aos dez anos de idade com o objetivo de se tornar oficial de cavalaria.

Com o início da 1ª guerra mundial a recém- criada Força Aérea começa a ter um papel cada vez mais preponderante devido aos voos de reconhecimento e acções de bombardeamento.

Ansioso por participar nestas ações, solicitou a transferência do exército pois como escreveu ao seu superior “Eu não vim para a guerra para apanhar queijos e ovos” sendo enviado para uma unidade aérea em maio de 1915, iniciando assim a formação como piloto de caça, que viria a terminar meses depois.

Fokker DR 1 do Barão Vermelho (reconstituição)

Fokker DR 1 do Barão Vermelho (reconstituição)

Destacou-se, de imediato, pela forma agressiva como combatia e derrubava caças ingleses e franceses. Como tal, não é de admirar que lhe fosse concedida a Medalha Pour Le Mérite, maior condecoração militar do Império Alemão, e o posto de capitão de esquadra. Era temido, respeitado e admirado pelos inimigos pois, numa época em que os aparelhos aéreos apresentavam grandes fragilidades de construção, derrubou sozinho, num breve espaço de tempo, oitenta aviões inimigos em combates aéreos tripulando os modelos Albatros  D. II e o triplano Fokker DR 1, devendo a eterna alcunha aos ingleses pelo facto de pintar de vermelho os aviões da sua esquadrilha demonstrando que não temia os ataques.

o Barão Vermelho com o seu esquadrão

o Barão Vermelho com o seu esquadrão

Após a primeira vitória num combate aéreo, iniciou o seu costume de guardar alguns pedaços do avião que abatera além de encomendar uma pequena taça de prata gravada com o tipo de avião abatido e a data. Vaidoso e orgulhoso dos seus feitos, Manfred von Richthofen publicou, em 1917, o livro “O piloto de combate vermelho”, que ajudou a criar o mito de um grande herói de guerra.

Na manhã de 21 abril 1918, na região de Somme, norte da França, participava num combate que envolvia mais de trinta aeronaves, quando, ao contrário do que defendia, se afastou da esquadrilha para perseguir um caça inglês e acabou sozinho em território inimigo, sob fogo duplo, vindo do ar e da terra. Na área controlada por tropas australianas, o avião de Richthofen mergulhou e pousou no chão, quase sem sofrer danos tendo sido encontrado morto dentro do cockpit.

Iniciou-se então uma polémica que ainda dura, sobre quem efetivamente abateu Richtofen mas, segundo uma reconstituição feita em 1998, a derradeira causa da morte foi uma bala vinda das trincheiras sendo o autor do tiro fatal  o australiano Cedri Popkin.

Destroços do avião abatido do Barão Vermelho

Destroços do avião abatido do Barão Vermelho

Os britânicos, após confirmarem a identidade de Richthofen, efetuarem uma breve autópsia e decidiram enterrar o famoso inimigo com honras militares. Escoltado por soldados australianos e conduzido por seis capitães da RAF, foi sepultado no cemitério de Fricourt em vinte e dois de abril, dez dias antes de seu 26º aniversário. No final, a guarda de honra disparou uma salva de 21 tiros em sua homenagem.

As fotografias tiradas durante o funeral foram lançadas, pelos aviões britânicos, sobre a base aérea alemã em Cappy, com a seguinte mensagem: “Para o Corpo Aéreo Alemão: Rittmeister Manfred Freiherr von Richthofen foi morto em combate aéreo em 21 de abril de 1918. Ele foi enterrado com todas as honras militares.  Assinado: British Royal Air Force.”.

Uma salva de tiros de homenagem dos seus inimigos no seu funeral

Uma salva de tiros de homenagem dos seus inimigos no seu funeral

Os destroços do seu avião foram levados por muitos combatentes e estão espalhados por museus e coleccionadores particulares enquanto o motor permanece no Imperial War Museum em Londres.

Sete anos mais tarde, o cadáver foi exumado, a pedido da família, e sepultado em Berlim, novamente com honras militares e grande participação popular.

Tanto Mata-Hari como o Barão Vermelho continuam a fazer parte do imaginário popular permanecendo como símbolos de uma época de segredos e de grandes conflitos que marcaram o declínio crescente da Europa.

Luísa Oliveira

(imagens daqui, daqui e daqui)

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NOVEMBROAZUL24001Quando, no verão de 1914, se iniciou o primeiro conflito mundial, Portugal vivia os tempos conturbados do regime republicano implantado em 1910, pelo que a discussão sobre a eventual participação nacional foi mais um dos motivos para as infindáveis lutas político-partidárias. Com a crise generalizada em todos os setores, o Partido Democrático no poder aproveitou essa controvérsia para criar um consenso nacional mobilizando o país num desígnio que, neste caso, seria a defesa das colónias africanas.

Apesar de alguma resistência à incorporação militar, esse objetivo mobilizou os portugueses e o facto é que desde finais de 1914, muito antes de existir oficialmente um estado de guerraMicrosoft Word - Document1 entre Portugal e a Alemanha, os militares destes países defrontavam-se no sul de Angola e no norte de Moçambique. A declaração oficial de guerra só aconteceu em 9 março de 1916, após a apreensão em 23 fevereiro, por solicitação da Inglaterra, de setenta navios mercantis alemães e dois austrohúngaros ancorados nos portos nacionais. Subjacente a este motivo, havia o medo de que, num cenário pós-guerra, as ambicionadas colónias servissem de moeda de troca entre as potências em conflito, nomeadamente a Inglaterra e a Alemanha, receio justificado pelo facto de anteriores acordos entre estas potências preverem a partilha dos territórios africanos. Por outro lado, o fragilizado poder republicano contava que a participação traria não só prestígio internacional ao regime como compensação nas negociações de paz, reforçando a velha aliança com a Inglaterra que dominava o maior império na época. O Partido Democrático jogou igualmente com o temor de anexação pela Espanha neutral e da eventual restauração da monarquia, pelo que a defesa das colónias e da soberania nacional, e a necessidade de legitimação internacional do regime republicano fazem o país responder às solicitações tardias da aliada Inglaterra e da França.

Instrução militar em Tancos

Instrução militar em Tancos

Mas a questão da participação chocava com a realidade dos escassos efetivos militares nacionais, dado que só em 25 maio de 1911 se criou o serviço militar obrigatório e o sistema de oficias milicianos, que até então tinha esbarrado na oposição dos oficiais do quadro permanente. O ministro de Guerra, Norton de Matos, dirige a preparação e organização dos futuros combatentes criando a Divisão de Instrução em Tancos que irá dar origem ao Corpo Expedicionário Português (C.E.P), num treino feito com tal rapidez que ficou conhecido como “o milagre de Tancos”. 

embarque para a Flandres em St. Apolónia - 1917

embarque para a Flandres em St. Apolónia

Em finais de janeiro de 1917, parte para a Frente Ocidental, em França, o inexperiente contingente militar sob o comando do general Gomes da Costa, integrado no XI Corpo do Exército Britânico, autonomizando-se posteriormente para, em janeiro de 1918, com o governo de Sidónio Pais, voltar a estar dependente do comando britânico.

Foi nesta posição que ocorreu a traumática Batalha de La Lys, na frente de Ypres, na Flandres, em que as tropas portuguesas foram esmagadas pelos alemães, melhor equipados e em número bastante superior. Na madrugada de 9 abril, quando se iniciava a operação de substituição da extenuada 2ª divisão do C.E.P. por tropas britânicas, o setor português foi apanhado de surpresa pelos intensos bombardeamentos da operação alemã Georgette que pretendia separar as forças aliadas, atravessando o rio Lys e tomando as cidades de Calais e Bolougne–sur–Mer.

Batalha de La Lys

Batalha de La Lys

Os serviços de espionagem tinham informado os alemães que as tropas portuguesas estavam mal equipadas e desmoralizadas pois sentiam-se abandonadas pelo poder nacional, e esgotadas devido à estadia prolongada em combate, ao contrário de outros exércitos que regularmente eram substituídos, e sem oficiais experientes pois estes tinham sido chamados por Sidónio Pais a Portugal. O ataque alemão foi levado a cabo por oito divisões com cerca de cem mil homens e mais de mil peças de artilharia e, apesar da 1ª divisão do C.E.P. se juntar ao combate, as forças portuguesas perfaziam cerca de vinte mil homens, pelo que era uma derrota anunciada.

Após a batalha

Após a batalha

Apesar do trágico desfecho, os nacionais resistiram heroicamente, contribuindo para reter o avanço alemão, registando-se inúmeros atos de heroísmo e de coragem, com destaque para o famoso “Soldado Milhões” que salvou inúmeras vidas e que se tornou o único soldado português deste conflito condecorado com o Colar da Ordem de Torre e Espada. No saldo final, as tropas portuguesas ficaram reduzidas a uma divisão, registando-se 1300 mortos (praticamente metade dos mortos em toda a campanha da Flandres), 4600 feridos 2000 desaparecidos e 7000 prisioneiros.

A participação de Portugal neste conflito ficará sempre ligada ao desastre de La Lys mas é injusto esquecer a participação dos nacionais em outros campos de batalhas europeus integrados nos exércitos inglês e francês, nomeadamente com o Corpo de Artilharia Pesada Independente, assim como nas colónias africanas onde se envolveram milhares de combatentes em que as terríveis condições que enfrentaram eram idênticas às do espaço europeu.

campas portuguesas em França

campas portuguesas em França

Os portugueses viveram os horrores caraterísticos deste conflito tendo sido elogiados pelo general Gomes da Costa nas suas memórias: lançado, inesperadamente, numa Guerra que estava longe de prever, o país viu-se em dificuldades, com um exército desprovido de organização apropriada, sem uniformes, sem armamento, sem munições , sem transportes e sem dinheiro.  A participação a guerra saldou-se em cerca de sete mil mortos, muitos dos quais sepultados no Cemitério Militar Português de Richebourg, em França, assim como em milhares de feridos e desaparecidos.

desfile português na Parada da Vitória

desfile português na Parada da Vitória

Portugal fará parte da Conferência de Paz, pertencerá à Sociedade das Nações e, embora quatrocentos militares portugueses tenham desfilado na Parada da Vitória sob o Arco do Triunfo, em Paris, os resultados da participação nacional não foram auspiciosos para o país. A conjuntura de guerra agudizou as dificuldades económicas e sociais, a instabilidade política e governativa, abrindo caminho à instauração da ditadura militar em 28 maio de 1926 e posteriormente às décadas de regime autoritário e repressivo do Estado Novo, sendo que a liberdade só seria restaurada em 25 abril de 1974.

 Luísa Oliveira

(imagens daquidaqui, daqui daqui)

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Oh! Que bela guerra!: canções de entusiasmo bélico

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soldados neo-zelandeses marchando alegremente para a frente de combate

Quando a 1ª Guerra Mundial eclodiu, no verão de 1914, o orgulho, entusiasmo e emoção norteavam os combatentes mobilizados. No espírito da época o desejo de guerra pairava como uma necessidade, uma escola de homens e os soldados partiam confiando numa rápida vitória, saudados e aplaudidos pela população. Os exacerbados discursos nacionalistas utilizados, eficazmente, pelo poder político-militar como estímulo à participação popular refletiram-se nas cartas enviadas pelos soldados, no início do conflito, e demonstram essa visão romântica e heróica da guerra.

Mas as cartas dos combatentes, depois do entusiamo inicial, rapidamente transmitem o choque causado pela realidade do conflito, nomeadamente, nas trincheiras que, mais que uma simples estratégia militar, representam intensamente os horrores vividos neste período. O escritor alemão Ernst J.Junger  que participou neste conflito descreveu em Tempestades de aço  o seu fascínio e horror:

postal onde militares húngaros ostentam palavras jocosas sobre ingleses, franceses e sérvios

Militares húngaros ostentam o “menu da guerra”:  pequeno-almoço – 2 russos; almoço – rosbife inglês com salada francesa;  jantar – carne à sérvia com arroz

“A guerra parecia-nos um desafio viril, um alegre concurso de tiro disputado sobre pradarias em flor onde o sangue era o orvalho.” Numa época de nacionalismos extremos a guerra era vista, desta forma, como um ideal, uma busca de heroísmo que levou milhões de jovens idealistas aos campos de batalha, transformando a europa num extenso cemitério e ceifando milhões de vidas. O início do conflito foi marcado por algumas conquistas territoriais no que foi denominado “ guerra de movimentos”.

a nova tecnologia militar

a nova tecnologia militar

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as cartas  transmitem o choque causado pela realidade do conflito

No entanto este período não foi significativo pois a tecnologia militar utilizada, pela primeira vez, como submarinos, tanques de guerra, aviões, metralhadoras, armas químicas combinadas com as estratégias militares inadequadas e conservadoras dos comandos, que não se adaptaram a novas realidades, vieram demonstrar que, em breve, se entraria num impasse e os avanços só aconteceriam à custo de milhares de vidas. A maior parte do conflito foi, desta forma, marcado pela “ guerra das posições ou trincheiras” a cuja imagem estará sempre associado. Nos 760 km da Linha da Frente Ocidental desde o mar do norte à fronteira suiça edificaram-se as linhas de trincheiras mais famosas, com as forças alemãs e aliadas frente a frente, onde se desenrolaram infindáveis e sangrentos combates como em Verdun e na região de Somme que se saldaram por mais de um milhão de mortos. Estudos indicam que quase 35% de todas as baixas sofridas na Frente Ocidental foram de soldados mortos ou feridos quando estavam numa trincheira. Na frente oriental devido às condições geográficas os combates não tiveram a mesma amplitude embora os avanços fossem, igualmente, insignificantes.

esquema da trincheira

esquema da trincheira

As descrições da forma como viviam não traduzem a real dimensão do seu quotidiano pois os soldados estavam submetidos a vivências extremas não só durante as batalhas mas no ambiente da própria trincheira. Ratos, piolhos e insetos proliferavam sem controlo nas construções, em linha reta e a céu aberto, com cerca de 2,30 metros de profundidade e 2 metros de largura que deveriam servir para atacarem, com sacos de areia e arame farpado na zona mais elevada que, supostamente, protegeriam os soldados das balas e dos estilhaços das bombas. Para observar o inimigo um degrau interno chamado “fire step” servia como ponto de vigia e de defesa. A chuva e o facto de algumas serem construídas abaixo do nível do mar fazia com que estivessem quase sempre enlameadas. Estima-se que 10% dos soldados contraíram a” febre das trincheiras” marcada por dores no corpo e febre alta e o” pé da trincheira” que poderia causar gangrena e amputação. Falar de higiene é redutor pois para as necessidades fisiológicas eram utilizados buracos no chão e, quando estavam cheios, outros eram escavados por soldados castigados. A alimentação tinha como base a comida enlatada e a água utilizada era a da chuva. Havia também trincheiras que eram espécie de abrigos subterrâneos de madeira usados como hospitais, postos de comando ou depósitos.

na trincheira

soldado no fire step

Entre as trincheiras inimigas ficava a perigosíssima “terra de ninguém”, onde crateras, corpos em decomposição e

"Terra de ninguém"

“Terra de ninguém”

arame farpado eram recorrentes sendo estes destruídos por soldados com bastões de explosivos na ponta que ao detonarem abriam caminho para os combatentes. Durante as ofensivas, este espaço, que variava entre 100 metros e 1 km,  era percorrido pelos soldados em ziguezague que não estavam autorizados a auxiliar os combatentes atingidos. Esse trabalho ingrato e arriscado cabia aos que retiravam os feridos em macas.

Nestas incursões era suposto os soldados terem o apoio da artilharia que ficava na retaguarda a cerca de 10 kms da linha da frente e cujos canhões disparavam antes do início da ofensiva. No entanto, devido às deficiências nas comunicações e à confusão gerada durante o combate muitos eram atingidos pelo denominado “ fogo amigo”, calculando-se que,

a vida nas trincheiras

a vida nas trincheiras

no exército britânico, 75 mil soldados foram mortos pela própria artilharia. O equipamento pessoal e o armamento dos soldados pesavam cerca de 30 kg o que atrapalhava a movimentação tendo sido reduzidos, por isso, ao longo da guerra. Quando não havia batalhas o soldado ficava oito dias nas trincheiras da linha da frente e de seguida quatro dias nas da retaguarda seguidos de quatro dias de folga em acampamentos militares onde aguardavam pelas ordens dos comandos.

Este conflito está, igualmente, associado à utilização de produtos químicos que espalharam o terror e o pânico entre os

sequelas do gás mostarda

sequelas do gás mostarda

combatentes calculando-se que perto de 100 mil soldados foram vítimas deste instrumento de morte. A partir de 1916 a paisagem de guerra foi marcada pela presença dos vapores dos gases venenosos de cloro e de mostarda utilizados em larga escala tanto pelos alemães como pelos franceses e ingleses que desenvolveram pesquisas no sentido de aumentarem o seu efeito mortífero. Inicialmente utilizava-se cilindros para despejar o gás conforme a direcção do vento utilizando-se, mais tarde, um dispositivo próprio que lançava as cápsulas a maiores distâncias. O uso destes produtos tóxicos que provocavam cegueira, problemas de pele e mortes por asfixia era tão generalizado que chegou a constituir um quarto dos lançamentos da artilharia.

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uma geração de jovens desiludidos e perdidos

Neste período terrível há relatos de tréguas ocasionais entre as tropas inimigas nomeadamente no natal de 1914 em que alemães e aliados confraternizaram como forma de amenizarem as saudades de casa. A morte banalizou-se tanto nos campos de batalha como na insuportável vida das trincheiras e muitos combatentes enlouqueceram no que seria identificado, atualmente, como vítimas de stress pós-traumático. Mas na época assim não entendiam e muitos deles foram vítimas de fuzilamentos e execuções sumárias pelo facto dos seus superiores considerarem que desertavam ou desonravam a pátria. Pela primeira vez a capacidade dos homens matarem atingiu níveis que abalaram a prosperidade e otimismo do princípio do século transformando em desiludidos e perdidos uma geração de jovens que começou a sua vida adulta no espaço da guerra.

Luísa Oliveira

(imagens daqui, daqui, daqui, daquidaqui, daqui , daqui e daqui)

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No ano em que se cumpre o centenário da 1ª Guerra Mundial, na qual infelizmente Portugal participou,  a nossa colaboradora habitual das Fitas do Mês, Luísa Oliveira, inicia hoje a publicação de um rubrica que pretende ao longo deste ano letivo tratar vários episódios que abordarão diversas fases desse período negro que só teve o seu epílogo em novembro de 1918.

O centenário do primeiro conflito global não deve ser encarado como uma comemoração mas como uma memória de um tempo sombrio que se saldou em milhões de mortos e feridos e provocou significativas alterações políticas, económicas e sociais e que, devido à sua dimensão, será sempre identificado como a Grande Guerra.

A Europa em 1914

A Europa em 1914

No início do século XX a Europa vivia um período de intensas rivalidades políticas, corrida ao armamento, disputa de novas áreas de influência, nomeadamente, na fervilhante Península Balcânica onde os nacionalismos se intensificavam. A geopolítica europeia era dominada pelas rivalidades económicas imperialistas pela posse das colónias africanas e asiáticas. Embora a crença geral fosse a de que a humanidade atingira a maturidade necessária à resolução pacífica dos conflitos internacionais a grande quantidade de armamento e soldados fazia a Europa viver numa autêntica “ paz armada” que a política de alianças como a Tríplice Aliança e Tríplice Entente veio sancionar.

Os Arquiduques (Franz Ferdinand e Sophie)

Os Arquiduques (Franz Ferdinand e Sophie)

A última das muitas causas para despoletar este conflito armado, o episódio decisivo, foi o assassinato do herdeiro do império Austro-Húngaro, arquiduque Francisco Fernando, pelo jovem bósnio de origem sérvia Gavrilo  Princip, em Sarajevo, actual capital da Bósnia e Herzegovina e, à época, província da Áustria-Hungria. Dirigentes políticos e militares, espiões são personagens secundárias deste sangrento conflito que os meios tecnológicos nunca antes utilizados como aviões, produtos químicos, tanques de guerra e submarinos provocaram um grau de destruição até então desconhecido. Os protagonistas contabilizam-se pelos números terríveis dos mortos e feridos e são um pálido reflexo do sofrimento que este conflito causou. Os 10 milhões de mortos e, especialmente, os não identificados são relembrados e homenageados nos “Monumento ao soldado desconhecido” aos quais se juntam mais de 30 milhões de feridos e inválidos.

Oskar Potiorek

Oskar Potiorek

Os factos ocorridos em 28 de junho 1914 são sobejamente conhecidos e bem documentados mas nunca é demais relembrá-los. A Sérvia fervia com os movimentos nacionalistas pretendendo formar a Grande Sérvia a partir da união dos eslavos das Balcãs e, desde 1903, tinha uma monarquia de forte caráter nacionalista que desejava reestabelecer as fronteiras do antigo Império Sérvio do século XIV e, sobretudo ter acesso ao Mar Adriático. A Bósnia e Herzegovina tinha sido anexada pela Aústria-Hungria, mas estava ligada etnicamente (1/3 dos seus habitantes era de origem sérvia) e culturalmente ao reino independente da Sérvia. O governador da Bósnia, Oskar Potiorek como forma de afirmar a presença e força do império austríaco convida os herdeiros do trono, Francisco Fernando (Franz Ferdinand) e sua esposa Sofia (Sophie), duquesa de Hohenb, a visitarem o território. O sobrinho do imperador Aústro-Húngaro, Francisco José, devido a uma sucessão de mortes na família Habsburgo, tornou-se herdeiro do trono em 1896 e pretendia reformar o Império Austro-Húngaro o que limitaria os ideais expansionistas da monarquia sérvia. Como também superentendia os assuntos

carimbo do grupo "Mão Negra"

carimbo do grupo “Mão Negra”

militares, foi nesse âmbito que se deslocou à Bósnia para assistir a manobras militares e para inaugurar as obras de um novo museu em Sarajevo. Quando a visita foi conhecida o chefe de segurança da Sérvia, coronel Dragutin Drimitijevic, começou a planear um atentado que demonstrasse o repúdio pelo império dos Habsburgos tendo escolhido, para a execução de tal plano, jovens militantes do grupo nacionalista radical Mão Negra que era contra a presença austro-húngara e defendia a união territorial da Bósnia e Herzegovina com a Sérvia. Os nacionalistas receberam revólveres, granadas e doses de cianeto, pois caso falhassem ou fossem capturados deveriam cometer suicídio para não denunciarem os intervenientes na operação.

Sarajevo, 1914

Sarajevo, 1914

Assim, num ambiente de grande tensão, a visita dos herdeiros iniciou-se na parte de manhã do dia fatídico e logo foi visível a desorganização, em termos de segurança, pois aquando do cortejo pelas ruas de Sarajevo dos seis veículos que compunham a comitiva o casal estava completamente exposto e sem elementos de escolta por perto. Também desorganizados estavam os terroristas dado que, dos sete elementos que se espalharam pela cidade, só um lançou uma granada que falhou o alvo mas fez alguns feridos. Perante este facto o Arquiduque cancelou a agenda da visita e fez questão de visitar os feridos no hospital, para onde se dirigiu, na parte da tarde.

ilustração do assassinato

ilustração do assassinato

Devido a um engano do motorista no trajeto, este parou em frente ao café Schiller onde se encontrava um dos jovens nacionalistas, Gavrilo Princip, que, de imediato, disparou uma sequência de tiros que provocaram a morte dos herdeiros reais. Assim, quase por acaso, o jovem bósnio de origem sérvia que tinha nascido na cidade de Obljaj, Bósnia, tornou-se um herói para os seus conterrâneos. Preso e acusado de traição declarou que não pretendia matar a duquesa mas o governador da Bósnia. Foi condenado a vinte anos de prisão pois a leis aústro-húngaras defendiam que a pena de morte não podia ser aplicada a menores de vinte anos. Faleceu de tuberculose na prisão de Theresienstadt, na república Checa, em 28 abril de 1918.

Gavrilo Princip

Gavrilo Princip

Fotografia da captura de Gravilo Princep

Fotografia da captura de Gravilo Princip

De imediato, soube-se que militares sérvios (três deles acabaram condenados à morte) tinham organizado o atentado que gerou uma crise entre a Áustria-Hungria e a Sérvia, culminando com a entrega de um ultimato a esta última, a 23 de julho de 1914. No ultimato, a Áustria-Hungria fazia exigências que, caso não fossem aceites, dariam início a uma ofensiva militar austríaca. Na verdade, parece credível que a Áustria-Hungria teria redigido o documento calculando a reação sérvia, para causar um conflito que lhe desse pretexto para anexar o pequeno reino eslavo.

Num autêntico efeito de dominó este ultimato pôs em movimento a guerra, um mês após o histórico atentado, pois com a recusa sérvia em aceitar as exigências austríacas, a Rússia põe-se ao lado da Sérvia, aliada da França, a Alemanha declara guerra a estes países, invade a Bélgica e a Inglaterra intervém de seguida contra os impérios da Alemanha, Austro-Húngaro e Otomano. As nações europeias e de outros continentes como E.U.A. e Japão envolvem-se não só no território central europeu como nas colónias invocando-se as alianças formadas nas décadas anteriores e iniciando-se um conflito que todos os intervenientes julgavam que seria de curta duração. Um terrível engano pois o cessar-fogo e vitória da Tríplice Entente verificou-se só em 11 de novembro de 1918, conhecido como o Dia do Armistício

(imagens daquidaquidaquidaqui e daqui)

Luísa Oliveira

 

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