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Archive for Junho, 2016

mafraHá uns tempos, mais especificamente no dia 2 de Maio de 2016, fui fazer uma visita de estudo ao Convento de Mafra, com os meus colegas e professores.

Cheguei e fiquei logo abismado com a grandiosidade, a monumentalidade do monumento que é o convento de Mafra, cada detalhe, cada ornamento, cada peça era uma obra de arte, e a soma de todos estes pequenos pormenores resultava na representação física da obra, portanto refletiam assim a verdadeira natureza exterior do convento. Mas será que é a mesmo a “verdadeira”? Será realmente a verdadeira essência do convento – toda a majestosidade e elegância que as peças físicas exibem?

Na minha opinião, e a partir de tudo o que estudei e sei do livro, e principalmente das minhas vivências, a alma do convento, a essência desta magnifica obra de arte não se centra nem nas extravagâncias, nem nas decorações, nos exageros, nos carrilhões, nas fachadas, nas técnicas de construção avançadas para a altura. O segredo simplesmente não está no exterior, no físico, no concreto. Para poder compreender uma das maiores lições que eu, pessoalmente, retirei da visita ao convento tive de me transportar para a realidade do séc. XVIII.

Com esse propósito imaginei: para a obra ser edificada alguém teve de ter o trabalho de a construir. Depois de todas as explicações dadas, tanto pela guia, como pelo livro, consciencializei-me de que a verdadeira essência do convento figura no esforço, no trabalho exaustivo e no cansaço dos trabalhadores, que passaram dias a fio submetidos a condições deploráveis para realizar um monumento que apenas servia como moeda de troca para um rei ocioso, inconsciente e megalómano.  Desde a edificação do convento, até ao transporte da pedra Benedictione de Pero Pinheiro até à vila de Mafra, tudo se deveu à vida e ao sacrifício de pobres vidas humanas.

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José Santa-Bárbara

Após perceber o quão grave foi o modo da construção do convento e o que ele representou , comecei a olhá-lo de outra maneira: em cada peça que observa via, não o ouro, não a prata, não a pintura, mas sim o homem suado e magoado que a criara. Esta alteração de perspetiva sobre o monumento fez-me também observar a nosso quotidiano de outro ponto de vista.

Seguindo esta linha de pensamento, compreendo agora que todos os aspetos negativos que se possam retirar do livro podemos transpô-los para o  dia-a-dia. Não como reforço dos pecados, dos defeitos mas sim como corretor de vícios. Até porque a maior parte das criticas feitas à sociedade na obra podem ser aplicados à sociedade atual, com ligeiras alterações.

Em suma , penso que a visita foi bastante enriquecedora, tanto em termos pedagógicos como em termos socioculturais. Consegui retirar uma lição, um ensinamento, para a vida da visita e da obra – este foi conseguido através de uma associação entre 2 elementos: a pedra e… a palavra.

Luís Leston, 12ºA

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fotoMais uma vez, se entregaram os prémios aos melhores Portefólios de Leituras, um projeto que tem vindo a ser desenvolvido, já há vários anos, entre a BE e o grupo de Português, sendo a prof.ª Rosa Silva a mais persistente (e crente na sua mais valia para os alunos) ao continuar a integrar este projeto na sua prática letiva.

Mário Sá Nogueira (1º), Inês Domingues (2º) e Sara Boisseau (3º), todos do 8ºC, foram os distinguidos neste ano letivo, recebendo cada um um livro do seu gosto, como distinção pelo seu trabalho – parabéns aos três!

Aqui ficam alguns pequenos excertos dos portefólios dos nossos vencedores:

mandela-livroO Livro da Minha Vida

Esta autobiografia que relata a extraordinária história de vida de Nelson Mandela. Todo o percurso de luta e de esperança até ao triunfo final, em que se transforma numa figura incontornável da África do Sul e do mundo. Foi o maior livro que li até hoje e que me marcou por toda a história vivida, por toda a dor e sofrimento passados.

Mário Sá Nogueira, 8ºC

Duas sugestões de leitura

downloadOs dois livros que eu sugiro, que não os do contrato de leitura, são “ A culpa é das estrelas”, de John Green e “Pai nosso”, de Clara Ferreira Alves.

Sugiro estas duas leituras porque, no caso de “A culpa é das estrelas”, é uma história que explora, de maneira brilhante, a aventura divertida, empolgante e simultaneamente trágica que é estar-se vivo e apaixonado. No caso de “Pai nosso”, porque, neste livro, se testemunham os conflitos download (1)religiosos, com maior incidência no Médio Oriente, que assolam o mundo há mais de vinte anos, e como foi possível  cruzarem-se os projetos religiosos dos diferentes países. Esta é uma história que retrata uma realidade com a qual não contactamos e que, ao tomarmos consciência da sua existência, nos sensibiliza. A mim, por exemplo, toca-me particularmente aquilo que está a acontecer atualmente com os refugiados da Síria e o quanto deve ser difícil sair do seu país sem saberem o destino final.

Inês Domingues, 8ºC

O meu perfil de leitor

escuela-lectura_-philippe-behc3a1Eu sou uma pessoa aberta a novas experiências e estou sempre pronta para novos desafios. Considero-me uma apaixonada pela leitura.

Os livros são os nossos segundos pais. Ajudam-nos a crescer e dão-nos ferramentas para podermos orientar a nossa vida presente e futura. Ao ler, formamos uma ideia própria e madura acerca de variadíssimos assuntos. Lendo, falamos e escrevemos melhor e mais rápido, com um vocabulário muito mais rico do que aquele que não tem essa prática. Ler enriquece os nossos sonhos, permite-nos ver a imensidão da nossa ignorância, transporta-nos a mundos desconhecidos. Ler educa a mente, a memória e a imaginação.

Em suma, ler é receber muito em troca de quase nada.

Sara Boisseau, 8ºC

Aceda aos portefólios integrais:

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dias de verão

imagem editada daqui

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a tfNum quadro do século XV em que se encontra representada uma partida de xadrez entre o duque de Ostenburgo e o seu cavaleiro, sob o olhar atento de uma misteriosa dama, um velho mestre flamengo escondeu uma mensagem, em latim, com a interrogação “Quem matou o cavaleiro?”.

 Quinhentos anos depois, Julia, uma restauradora de arte, descobre a mensagem escondida, o que a compele a resolver esse enigma, auxiliada por um antiquário e por um peculiar jogador de xadrez. Apesar de o resolverem, o mistério não termina, pois Julia recebe a proposta anónima de continuar o jogo de xadrez representado no quadro. À medida que se vai desenrolando, o perfil do misterioso adversário vai sendo descoberto, o que vai culminar na surpreendente mas simultaneamente previsível revelação da sua identidade. Reconheço que me agradou a leitura desta obra de Pérez-Reverte, especialmente devido à mistura de mistério com táticas de xadrez. A junção de factos com ficção também foi uma característica que apreciei, nomeadamente no que concerne o pintor e o quadro referidos no texto.

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“A partida de xadrez”, Peter Van Huys

A linguagem é simples, sem recurso a vocabulário específico da área da arte ou do xadrez, o que permite ao público da minha faixa etária compreender facilmente o fio condutor da história.

 Por fim, devo referir que a obra peca um pouco pelo seu final ligeiramente previsível, devido a certos detalhes presentes no texto que não escapam ao olhar do leitor mais atento. Contudo, isto não impediu o livro de me surpreender, chegando a fazer-me temer pela vida da protagonista. Acrescento ainda que a reviravolta no final me fez lembrar (merecidamente ou não) dos livros de Agatha Christie.

Tomás Noválio, 10ºB

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3ª edição, 1831

Foi numa madrugada de tempestade à beira do Lago Leman, num ano em que não houve Verão, que Mary Shelley concebeu a história que viria a tornar-se um clássico da literatura mundial.

Encontrando-se na companhia do seu marido, o poeta romântico inglês Percy Shelley, Lord Byron e a companheira deste, Mary tentou responder ao desafiou lançado por Byron aos presentes de se surpreenderem mutuamente inventando histórias de terror. Mary só teve a sua visão já de madrugada, na solidão do seu quarto.

A novela que daí resultou acabaria por ter a sua 1ª edição em 1818, Mary Shellytornando-se um êxito no séc. XIX, ampliado, já no séc. XX, pelas sucessivas adaptações ao cinema.

Mas esta fama cinematográfica acabaria por contribuir para o empobrecimento  da sua mensagem, conduzindo a leituras superficiais, chegando-se ao ponto de identificar o criador com a criatura – Frankenstein passou a designar o monstro para a maioria das pessoas, em vez de nomear aquele que, Moderno Prometeu, desafiou a natureza e Deus com a sua obsessão em criar vida a partir da morte. Assim, a a leitura sugerida pelo subtítulo foi-se de certa forma perdendo na espuma da popularidade.

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Prometeu

De facto, o Moderno Prometeu retoma o mito clássico do ser mortal que rouba o fogo (o conhecimento) aos deuses e que, à semelhança do herói mitológico grego e de Adão e Eva – que tão pouco resistiram à tentação da maçã proibida -, é terrivelmente castigado pelo seu desafio (hybris).

À parte das suas qualidades como novela clássica de terror, Frankenstein, o Prometeu-cientista, é uma riquíssima metáfora intemporal de alguns dos grandes dilemas do homem, tão atual hoje como o foi no tempo da Grécia Clássica – não é difícil encontrar nessa fantasia de madrugada tempestuosa,  já velha de 200 anos, o eco precoce de muitas questões de bioética que se discutem nestes dias: a clonagem humana, a eutanásia, a maternidade de substituição, e outras com as quais ainda nem sonhamos. Embora com muito mais ciência e cautela, continuamos a roubar o fogo aos deuses.

Fernando Rebelo 

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Foi realizada mais uma edição do concurso de escrita A Pedra e a Palavra, que propunha aos alunos do 12ºAno que visitaram o Convento de Mafra, no passado mês de maio, que associassem essa experiência física, sensorial e igualmente factual e histórica, à ficção da palavra de Saramago na obra que tinham lido – O Memorial do Convento.

Selecionados os melhores textos desta edição, os vencedores foram premiados com três obras de Saramago. Como sempre, inciamos aqui a divulgação do texto classificado em 1º lugar, da Maria Carolina Santos, 12ºC.

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os vencedores, da esq. para a dir.: 1º Mª. Carolina Santos (12ºC), 2º Luís Leston e 3º Catarina Gouveia (12ºA)

Texto classificado em 1º lugar

Através da leitura de Memorial do Convento é-nos transmitida apenas uma pequena ideia da dimensão do monumento, bem como do seu caráter fictício. Será que a experiência física se assemelha à obtida através da leitura? Será que basta a fantasia da ficção para entender a materialidade deste fragmento de património português?

Aconselho, portanto, a leitura prévia desta obra saramaguiana. Com ela, deparamo-nos com um gritante contraste entre o esplendor barroco de igrejas e palácios e o despojamento das casas, assim como das condições asquerosas e humilhantes em que o povo português vivia; Com ela vamos ao encontro de um passado sombrio caracterizado pelo medo e opressão, em que as palavras pronunciadas pelo narrador e algumas personagens dão conta disso mesmo. Algumas são “pedras” atiradas ao acaso, com a intenção de “ferir” as suscetibilidades dos leitores. E continua a ser esse o verdadeiro propósito da obra.

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José de Santa-Bárbara

Muitas vezes, ao longo das suas páginas, deparamo-nos com alusões feitas à pedra que, no entender do narrador, é uma ínfima parte do monumento descomunal que estava a ser construído. É uma das grandes epopeias da obra de José Saramago, uma verdadeira odisseia carregada de sacrifício só para a transportar. As suas palavras transmitem claramente essa ideia – o transporte de Pêro Pinheiro a Mafra, um dos muitos episódios que ocorreram aquando da construção do convento, exemplificando efetivamente a escravidão humana, o absurdo do sacrifício transmitido muitas vezes em expressões monossilábicas, que constituem gritos de dor, como se àqueles trabalhadores fossem atiradas inúmeras pedras! Quase que se consegue ouvir o gemido de quem a carrega mas não são ouvidas palavras capazes de refletir tudo isso.

Olhemos bem para o tamanho gigantesco do monumento: Quantas palavras foram trocadas por todos aqueles quarenta mil trabalhadores só para transportar esta e outras tantas pedras? Tão grande que aquela era para ser usada numa varanda infinitamente pequena! Foi assim a materialização do convento? Terá sido esse episódio do seu transporte que o narrador utilizou para falar do tamanho gigantesco da pedra?

É importante não esquecer que tudo teve início num simples frase pronunciada pelo rei D. João V, cujas palavras passo a citar: “(…) Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano (…)”. Poucas palavras para tantas toneladas de pedra. Estas representam a dor física e a experiência sensorial de todos os trabalhadores e a nossa também, como leitores e visitantes. Parece que sentimos as “palavras afiadas” daquele rei, bem como as “feridas” que causaram em tanta gente inocente. A fantasia, o sonho de um só homem deu lugar a um voto bem real, escrito sobre a pedra mármore, que milhares de homens epicamente e heroicamente transportaram.

Na verdade, “A Pedra e a Palavra” constituem um verdadeiro desafio literário, “No fundo… temos necessidade de dizer quem somos e a necessidade de deixar algo feito”. De que forma? Usando a palavra com o intuito de descrever pedras imensas que fazem parte das grandes obras de arquitetura deste país, destacando, claramente, o Convento de Mafra.

Maria Carolina Santos,  12ºC.

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Portugal,

Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta. Tinha 19 anos e estava na Inglaterra. De repente, deixei de me sentir um homem do mundo e percebi, com tristeza, que era apenas mais um dos teus desesperados pretendentes.

Apaixonaste-me sem que eu desse por isso. Deve ter sido durante os meus primeiros 18 anos de vida, quando estava em Portugal e só queria sair de ti. Insinuaste-te. Não fui eu que te escolhi. Quando descobri que te amava, já era tarde de mais.

Eu não queria ficar preso a ti; queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude.

Teria preferido chegar à conclusão que te amava por uma lenta acumulação de razões, emoções e vantagens. Mas foi ao contrário. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer espécie de aviso, e desde esse dia, que remédio, lá fui acumulando, lentamente, as razões por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras razões, para não te amar, ou não querer saber de ti.

Custou-me justificar o meu amor por ti. És difícil. És muito bonito e és doce mas és pouco dado a retribuir o amor de quem te ama. Até dás a impressão que tanto te faz seres odiado como amado; que gostas de fingir que estás acima disso, olhando para os portugueses de agora como o céu olha para os passageiros nos aviões.

Já que estava apaixonado, sem maneira de me livrar – nem sequer voltando para ti e vivendo contigo mais trinta anos – que remédio tinha eu senão começar a convencer-me que havia razões para te amar.

Encontram-se sempre. E, a partir de certa altura, quando já são seis ou sete razões que se foram arranjando ao longo dos anos, deixamos de amaldiçoar este amor que nos prende a ti e, inevitavelmente, começamos a sentir-nos, muito estúpida e secretamente, vaidosos por te amarmos. Como se fôssemos nós que tivéssemos sido escolhidos.

Digo nós mas falo por mim. Digo eu sabendo que não sou só eu, que nós somos muitos. Possivelmente todos. Tragicamente todos, um bocadinho. Se calhar estamos todos, de vez em quando, um bocadinho apaixonados por ti.

A tua pergunta bocejada, de país farto de ser amado, amado de mais, aborrecido com tanto amor, apesar da merda que tens feito e da maneira como nos pagas, é sempre a mesma: «Diz-me lá, então, porque é que me amas…»

Pois hoje vou-te dizer. Não me interessa nada a tua reação. Estás a ver? Já comecei a mentir. É sinal que a minha carta de amor já começou.

Amo-te, primeiro, por não seres outro país. Amo-te por seres Portugal e estares cheio de portugueses a falar português. Não há nenhum outro país, por muito bom ou bonito, onde isso aconteça.

Mesmo que não achasse em ti senão defeitos e razões para deixar de te amar, preferia isso, mesmo deixando de te amar, a que não existisses.

Se deixasses de existir, o meu olhar ficava de luto e nunca mais podia olhar para o resto do mundo com os olhos inteiramente abertos ou secos ou interessados.

Para que continuasses a existir, mesmo fazendo cada vez mais merda, trocava imediatamente ir-me embora de ti e nunca mais poder voltar e nunca mais poder ver-te, e nunca mais encontrar um português ou uma portuguesa, e nunca mais poder ler ou ouvir a língua portuguesa.

E olha que este é um desejo que muitas vezes tenho.

Esta é a única verdadeira prova de amor: fazer tudo para que sobreviva quem se ama. Mesmo que nunca mais te víssemos, Portugal, saberíamos que continuavas a existir, que as nossas saudades teriam onde se agarrar. Por muito que mudasses, mal te deixássemos e nunca mais te víssemos, já não mudavas mais.

Mesmo que não houvesse em ti um único pormenor que não houvesse nos restantes países do mundo, que são muitos; mesmo que houvesse um país escondido que fosse igualzinho a Portugal em todos os pormenores; mesmo assim eu amar-te-ia como se fosses o único país do mundo, diferente em tudo.

Portanto, já viste, ó Portugal: não preciso de nenhuma razão para te amar. Amo-te sem razão. Amo-te às cegas, antes sequer de olhar para ti. Podes ser o pior país do mundo, ou o melhor, ou o mais monotonamente assim-assim. Não me interessa. Amo-te. Amo-te à mesma. Amo-te antes de falarmos nisso.

Amo-te tanto que, quando perguntas porque é que eu te amo, não fico nervoso nem irritado. Não preciso de tentar dar uma razão convincente. Amo-te à mesma, fiques ou não convencido.

E, mesmo que te aborreças de ouvir todas as razões que tenho para te amar, eu continuarei a dizê-las, porque gosto de dizê-las e porque, que diabo, também eu preciso, às vezes, de me lembrar e de me convencer do quanto eu te amo.

Amo-te mesmo que sejas impossível de conhecer ou de descrever. Isto é muito importante. O Portugal que eu conheço e descrevo é apenas o Portugal que eu julgo, se calhar, conhecer (pouco) e descrever (mal).

Cada pessoa apaixonada por ti está apaixonada por um Portugal diferente do meu. Até o meu Portugal é, conforme os climas, bastante diferente do meu – para não dizer estrangeiro.

Por exemplo, uma das razões por que te amo é o teu clima. Acho que tens um bom clima. Mas não julgues que há muitos portugueses apaixonados por ti que concordam comigo. Esses julgam o teu clima dia a dia e hora a hora e gostam dele, quando muito, vinte por cento do ano. Em cada cinco horas do teu clima, gostam de uma e odeiam quatro.

Pois eu amo-te sem saber sequer se o teu clima é bom ou mau. Não tenho a certeza, mas não interessa: amo-te mesmo ignorando tudo a teu respeito. Amo-te mesmo estando completamente enganado. A pessoa convencida sou eu. Quem está convencido que ama, quando fala do seu amor, não quer convencer ninguém. Quer declarar que ama. Se é bom ou mau nem secundário é. Fica noutro mundo, onde vivemos.

Como vês, não preciso de razões para te amar. Mas tenho muitas. E boas. A primeira delas é secreta e embaraça-me confessá-la: amo-te, Portugal porque, não sei como e contra todas as provas e possibilidades, acho que és o melhor país do mundo.

Pronto. Está dito. É uma vergonha pôr as coisas de uma maneira tão simples. Mas era isto que eu estava há que séculos para te dizer: amo-te, Portugal, por seres o melhor país do mundo.

Como vês não sou o romântico que estava a fingir ser, que te ama sem precisar de razões para isso. Tenho uma razão muito interesseira para te amar: acho que és o melhor país do mundo. Por muito relativista que eu seja noutras coisas, acho mesmo que tive sorte de nascer aqui. Em ti. Aqui, entre nós.

Desculpa.

Mesmo assim, insistes em perguntar: que tens tu de tão especial, que os outros países não têm?

Essa íntima vaidade, por exemplo. Tu não és orgulhoso. Mas, muito bem disfarçada, tens uma vaidade sem fim. Dizes-te feio e vestes-te mal mas, quando passas por um espelho, espreitas e achas-te giro. E se alguém te diz que és feio e estás mal vestido, não ficas ofendido – achas que aquela pessoa é obviamente estúpida e não tem olhos na cara.

Ou, pelo menos, não tem o discernimento e o bom gosto necessários para apreciar a tua oblíqua mas inegável formosura. A tua beleza, estás convencido, está reservada para os apreciadores. A ralé passa ao lado e não vê: deixá-la passar.

A tua vaidade é tanta que até te permites um grande desleixo. Sabes que, na terra onde nada plantaste, há de crescer um jardim preguiçoso que um dia será selvagem e bonito, sem qualquer esforço teu. Deus e o tempo trabalham por tua conta.

Sabes que a tinta fresca salta muito à vista e que é cansativa. Esperas, despreocupado, pela beleza que há de vir com a passagem dos tempos. E a vaidade que sussurra, preguiçosamente, a quem insista em aproximar-se: «Sim, eu sei que sou uma casa bonita e não, não me lembro da última vez que fui pintada. Eu cá não preciso de me abonecar.»

Graças ao desleixo que a tua vaidade consente, mudas menos do que os outros países. As pessoas acham que és conservador, que és contra a mudança. Mas não é isso. És vaidoso e preguiçoso porque achas que não precisas de grandes esforços ou mudanças: sabes que continuas encantador.

O teu desleixo também é causa de muito sofrimento mas não é numa carta de amor que vou falar dele. Também tem consequências agradáveis.

Por exemplo, dizes que queres ser um país de primeira categoria. Mas sabemos todos que não queres. Gostas de ser de segunda, como gostas de não ser de terceira. Gostas de ter países melhores do que tu, para visitar ou invocar, quando fazes aquela fita de lamentar que não seja possível teres tudo o que tens de bom, menos tudo o que tens de mau, trocado pelo melhor que houver nos outros países.

Tu não queres nada a não ser que gostem de ti. E não estás disposto a fazer nada por isso. Nem é preciso serem muitos a gostar. Se calhar, até te bastava um. Aposto que é essa a impressão que consegues dar a cada um dos desgraçados, como eu, que estão apaixonados por ti.

Eu poderia perder anos a fazer um cuidadoso retrato de ti. Por muito verosímil que fosse, davas uma olhadela e dizias com desdém, a fazer-te caro ao mesmo tempo: «Isso não sou eu. Isso é outro país qualquer que inventaste…»

É a tua maneira, Portugal amado, de garantir que continuaremos a tentar retratar-te. Tanto te faz que o retrato seja feio ou bonito, desde que seja de ti.

Quanto mais variados forem, mais gostas. Até tu, nas tuas paisagens, varias e hesitas tanto e recusas-te a decidir, como quem não tem pressa e, no fundo, não escolhe nem decide, porque quer tudo.

Preferias ser amado por quem tem razões para te odiar? Isso sei eu. Paciência. Eu amo-te porque mereces. Eu amo-te pelas tuas qualidades. Preferias não tê-las. Para que o amor fosse mais puro, mais contraditório, mais injustificável. Mas tens qualidades.
Desculpa lá dizer-te isto, Portugal, mas amar-te é uma coisa simples.

Amo-te, aconteça o que acontecer. Amo-te por causa de ti. Não é apesar de ti. É por causa de ti. Não há outra razão. Nem podia haver uma razão mais simples.

Por muito que te custe ouvir (apesar de eu saber que não só não te custa nada como gostas de ouvir), digo-te: é tão grande o meu amor por ti que até consigo amar-te sem dar por isso.

Já viste?

Miguel

Miguel Esteves Cardoso, in Público (10.06.11)

imagem daqui

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