Podemos dizer que o retrato nasceu por amor.
Plínio, o Velho, conta-nos que um ceramista, Butades de Sición, tinha uma filha que namorava com um rapaz que estava prestes a ir para o estrangeiro. Quando ele lhe vem dar a notícia da partida, ela repara que a luz, vinda de uma lanterna, projeta a sua sombra na parede, então, apressa-se em traçar uma linha de contorno dessa sombra.
Mais tarde, a partir desse desenho, o seu pai modelaria, em argila, o rosto do jovem, eternizando-o, preenchendo o vazio da ausência.
Num outro contexto, também o retrato foi usado para fixar e prolongar a imagem do ausente, daquele que morreu, como é o caso das máscaras em cera, tiradas diretamente do morto e que posteriormente eram conservadas em altares de culto doméstico. Este culto dos antepassados era uma prática de muitos povos da Antiguidade.
Outro exemplo da eternidade no retrato é o conjunto de retratos de Al Fayum, pintados nos sarcófagos, e cuja presença parece fazer a transição entre a vida e a morte.
Estas figuras, cujo olhar prende o nosso, obrigam-nos a fixá-las, a perscrutá-las, a não nos esquecermos delas.
O olhar é determinante, quer pelo silêncio do que pode acolher, quer pelo muito do que pode devolver, quer até pelo quanto nos pode intimidar. Perante um retrato, olhamos e somos olhados, há a noção do eu e do outro mas, ao mesmo tempo, há uma circulação de algo que perpassa e nos iguala, diferente do que acontece com os restantes elementos do rosto. Estes não têm o mesmo movimento e mobilidade, com exceção da boca, mas mesmo esta não deixa, como aquele, ver no íntimo do outro.
Por isso, o pintor deve trazer à superfície o ser interior que se oculta para além do plano da face.
Os gregos, por exemplo, preocupados com a perfeição clássica, não viram o realismo que os romanos souberam imprimir nos seus retratados. As características fisionómicas, as deformações, o sofrimento humano, tudo foi impiedosamente destacado nos muitos retratos psicológicos que produziram.
Com a ascensão do Cristianismo, o retrato romano sofreu também as suas influências, e os olhos grandes do imperador Constantino, apontados para o céu, sugerem já um outro olhar.
Não só no cristianismo a espiritualidade é acentuada com o tamanho dos olhos, como a tradição hindu estabelece uma correspondência entre a forma dos olhos e o mundo sobrenatural. Assim, estes, podem corresponder à forma de um pássaro, de um peixe ou de um nenúfar, estes últimos, muito apreciados pela calma repousante das suas pálpebras caídas, conforme cita o autor do livro El Rostro Humano.
O retrato, enquanto género temático no campo da arte, sempre atraiu muitos pintores e por isso foi alvo de reflexões, de estudos, de experimentações.
Em sala de aula, os alunos aprendem primeiro a proporção e a relação entre os diversos elementos. Depois, a observação do posicionamento dos olhos e o seu lugar no meio da cabeça, fá-los duvidar da veracidade dessa medida, num primeiro momento.
- fig. 7
A seguir, atentam para a relação entre as partes – por exemplo, o espaço entre os olhos é igual ao tamanho de um olho, as orelhas começam mais ou menos na linha dos olhos e vêm até abaixo do nariz, conforme se pode observar na imagem. Obviamente que estas medidas não são exatas e há sempre exceções.
- fig. 8
Após este treino das partes no todo e a compreensão da geometria da cabeça, experimentam outros exercícios mais livres, com utilização de uma caneta para não poderem apagar aquilo que consideram estar errado, que mais não é do que percursos, tentativas, aproximações às formas.
E, por fim, realizam alguns retratos de figuras do 25 de abril, em que o rosto é composto por manchas de luz e sombra.
Mais tarde, se quiserem progredir no desenho de retrato, terão que praticar muito, ultrapassar várias camadas, até conseguirem ver para lá da superfície. Porque o retratado foge, esconde-se. Há até uma crença chinesa em que alguns pintores evitam pintar os olhos para que os retratados não escapem ao seu controle.
“Quando desenho um rosto, qualquer rosto, é como se cortina após cortina, máscara após máscara, fosse caindo até que resta uma máscara final que já não pode ser removida nem reduzida.
Quando termino o desenho, sei muita coisa a respeito desse rosto, pois nenhum rosto pode esconder-se durante muito tempo (…)”
Frederick Franck
Ana Guerreiro




































