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  • versão original e integral do poema aqui
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A Ponte sobre o Tejo fez cinquenta anos. É uma construção incontornável, ligada à última metade do séc. XX português. Ironia do destino: a maior obra do outro regime foi rebatizada como Ponte 25 de Abril onze anos após a sua inauguração, em 6 de agosto de 1966. Para muitos será sempre A Ponte – quer pelas suas dimensões, quer por ter unido o Norte com o Sul do país, tornando obsoleta grande parte do tráfico fluvial e da vida ribeirinha da margem sul do Tejo., mas acima de tudo, porque, para o melhor ou o pior, não há cá outra como ela.

A Ponte do buzinão, das filas intermináveis; a Ponte que por vezes odiamos, especialmente quando temos de a atravessar todos os dias em hora de ponta, não deixa porém de ser fascinante – deve haver poucos locais com uma entrada tão grandiosa, com tal vista sobre o rio e a cidade, que se vai aproximando, que até nos faz esquecer a recente fúria da confusão do “garrafão”.

Hoje em dia, não é preciso vir de fora para nos confundirmos com tantas vias: Via Verde, Via Card, Via Bus e até algumas vias normais. É portanto difícil imaginar que nos primeiros tempos de funcionamento se tinha de estacionar o carro e deslocar-se a uma cabine para fazer o pagamento dos 20 escudos da portagem. Pois é uma das muitas coisas que nos conta Raul Solnado num artigo em que relata a primeira vez que a atravessou. E a PIDE gostou tanto dele que conservou um recorte numa das pastas que possuía sobre o ator.

RaulSolnadoPonteOutro dia fui atravessar a ponte. Era para não ir porque eu não me posso estar a meter em cavalarias altas, mas tanto me disseram tanto me falaram tanto me gabaram a ponte que eu assim que recebi a gratificação de Natal, fui. E não se pode dizer que eu ficasse desapontado, mas afinal aquilo não é o que eu pensava. Em primeiro lugar eu ouvi dizer que eles estavam todos muito contentes porque só levaram três anos a fazer a ponte, e que portanto tinham feito um recorde. Recorde uma bolota! Levam 3 anos a pôr uns ferrinhos para cima, dizem que é recorde e ficam todos vaidosos. E ainda por cima é mentira, porque inauguraram a ponte sem estar a obra acabada. Deixaram-lhe uns buraquinhos no chão, que ainda não taparam e uns buracos de lado que se calhar nunca mais tapam e nem tecto puseram. Quer dizer: além da corrente do rio, aquilo está cheio de corrente de ar. Enfim, isso é lá com eles, eu não sou engenheiro e muito menos americano, portanto eles que se entendam lá uns com os outros porque eu não tenho obrigação de lhes estar a lembrar coisas que a gente está mesmo a ver.

Bem, o que interessa é que eu fui então por uma estrada toda aos caracóis que se chama estrada dos sucessos da ponte e andei ali, mais de meia hora às voltas, que até senti tonturas: isto foi para começar! Depois lá consegui chegar à entrada da ponte onde há uma casinha que tem lá dentro um senhor fardado que está ali a pedir dinheiro para as obras da ponte. O que eu achei esquisito é que aquilo tem um letreiro que diz “portagem”, o que eu acho que está errado porque “portagem” devia ser na ponte do Porto. Ali devia ser “almagem”, porque a casinha fica em Almada, ou “pagagem” porque é onde se paga, ou então “garagem” já que é para automóveis! Bem então lá dei os 20$00 e fiquei na espera, porque pensei que por aquele dinheiro eles forneciam os automóveis e, claro, embora mesmo assim não fosse barato, a gente sempre ficava com o carro e dava ela por ela.

 

Mas não. A gente paga aquele dinheiro todo e eles não dão nada. Nem há música nem um filme, nem ao menos uma cerveja. Nada! Nem recibo! Por aquela exorbitância, ao menos podiam ter feito uma escada de caracol para as pessoas virem cá abaixo chapinhar na água! E o pior é que mal se apanham com o dinheiro na mão e passamos a casinha para entrar na ponte fica logo tudo proibido. É proibido buzinar, é proibido cuspir, não se podem atirar fora as pontas de cigarros e temos que engolir as “beatas”, é proibido guinar para a esquerda, mas para a direita também é,eduardo gageiro não se pode andar devagar mas depressa também não, e nem sequer se pode olhar para os barquinhos! Parece um convento! Calculem que nem se pode parar no caso da gente precisar fazer qualquer coisa… enfim… resolver qualquer aperto! E se fizermos alguma coisa que os policiais da ponte não achem graça, eles multam e ainda pontificam! Eu acho que quando só havia barcos era muito melhor. A gente pagava muito mais barato e punha as “beatas” onde a gente queria, cuspia-se que até dava gosto e ao menos sempre era um passeio de barco que se dava! E ainda por cima com uma vantagem muito grande! O tempo que se esperava na bicha para entrar no barco era um tempo que se podia aproveitar para ir passando férias. Pois!

Mas eu é que já descobri como é que hei-de ir a Cacilhas de borla. Vou pela ponte de Santarém, que já não se paga, gasto os vinte escudos em melões de Almeirim, venho por ali abaixo e posso chegar a Cacilhas a muito boas horas de apanhar o barco para Lisboa. Não estou para que me aconteça o que aconteceu a um rapaz que eu conheço. Passou a ponte para lá e agora, coitadinho, está há mais de um mês a lavar pratos num restaurante a ver se consegue dinheiro para voltar para Lisboa. Livra! A mim é que já não me apanham!

(publicado originalmente na Semana Portuguesa nº 180, de 4 a 10 de Março de 1967, acedido aqui)

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ilustração de Nuno Saraiva

outras imagens: daqui, daqui e daqui 

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Antes da inauguração do Centro Cultural de Belém, ou da Fundação de Serralves, a “Gulbenkian” era O Centro Cultural – não havia paralelo em Portugal em termos museológicos, artísticos e culturais. Ir à “Gulbenkian” soava sempre a algo a um tempo culto e prazenteiro – mesmo que tal se limitasse a ficar horas perdido num recanto do magnífico jardim da sua sede, a fingir que se estudava com a namorada da altura para uma qualquer cadeira da faculdade.

Gulbenkian é  não só o apelido do milionário filantropo que a sorte fez ficar em Portugal e deixar-lhe a sua riquíssima coleção de obras de arte, mas também o nome de muitos outros que promoveram e financiaram milhares de atividades de divulgação e apoio às artes e às ciências, ao longo destes 60 anos. Calouste era um homem muito rico, mas sem o seu legado Portugal teria sido nestas últimas 6 décadas definitivamente muito mais pobre.

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Fernando Rebelo

040f29f56ecfb6002f015f304c09da04.jpgFoi entre 17 e 18 de julho de 1936 que o levantamento militar de Francisco Franco contra a Frente  Popular, que governava a então II República espanhola, deu início a um período sangrento de guerra civil que se estendeu por quase três longos anos e que teve como desfecho uma ditadura que duraria até 1975.

A “transição”, que fez evoluir, após a morte de Franco, a ditadura para uma democracia ocidental, não sarou porém completamente as profundas divisões e feridas abertas na sociedade espanhola e que estão ainda bem patentes nos dias de hoje.

Se há elementos iconográficos que melhor representam os dois lados da barricada eles são sem dúvida Guernica de Picasso – uma representação do bombardeamento da pequena localidade basca homónima pelos alemães -, e o monumento chamado  Vale dos Caídos, perto de San Lorenzo del Escorial (Madrid), erguido aos seus mortos pelos falangistas vitoriosos  e no qual repousam os restos mortais do ideólogo do regime franquista, Primo de Rivera, e do próprio Franco.

Enquanto o primeiro é uma obra de arte de reconhecido mérito universal – talvez o mais importante quadro do pintor e o mais iconográfico do séc.XX como manifesto antiguerra – o Vale dos Caídos tem um mérito bem mais duvidoso pois representa um nacionalismo católico e reacionário de má memória para muitos espanhóis, cuja própria manutenção nestes moldes é alvo de grande controvérsia na sociedade espanhola de hoje, tendo em conta que a sua construção resultou do trabalho forçado de muitos prisioneiros do lado derrotado.

O que dividiu (e divide) a sociedade espanhola de então não se limitou a uma fratura entre uma esquerda republicana, laica (mesmo anticlerical) e uma direita fascista e católica conservadora – nos dois lados cruzaram-se interesses e paradigmas múltiplos, visões do estado e da própria identidade de Espanha como nação: se da parte republicana derrotada tínhamos uma frente laica, do outro lado surgia uma frente militar-religiosa (bem diferente do fascismo de Mussolini e do Nazismo de Hitler, neste aspeto), que encarou a guerra como uma cruzada contra os ímpios ateus, os comunistas, sindicalistas e defensores das identidades e autonomias regionais.

Assim, o que opôs os dois lados pode ser resumido nas dicotomias ainda hoje presentes de uma forma mitigada: esquerda-direita, laicismo-religião, identidades regionais-centralismo, república-monarquia. Como se podem ver pelos cartazes da frente popular republicana (los rojos, como lhe chamavam os falangistas), as autonomias nacionais-regionais tinham ampla expressão identitária, tanto em termos de organizações políticas e sociais, como no uso de outras línguas nacionais,  como o catalão.

Do lado esquerdo da barricada, a Frente Popular federava todas as esquerdas, incluindo comunistas, socialistas (PSOE), anarquistas, sindicalistas, e  contava com o apoio de brigadas de voluntários internacionais, provenientes de muitas partes do globo mas com predominância dos comunistas internacionalistas (apoiados pela então URSS) . Nestas brigadas participaram  figuras célebres como o romancista americano Ernest Hemingway, o escritor inglês George Orwell, o poeta também inglês W. H. Auden, os escritores franceses André Malraux e Saint-Exupéry e a ativista política, também francesa, Simone Weil.

Do lado dos falangistas-franquistas, houve o apoio aberto e ativo do estado alemão hitleriano, da Itália de Mussolini e da ditadura de Salazar que, sem se envolver diretamente no conflito, manifestou-se a favor do anticomunismo de Franco e deu um secreto apoio à brigada portuguesa autodenominada  Os Viriatos.

80 anos é já muito tempo, mas a História ensinou-nos que o passado é essencial para compreender o presente e decidir o futuro – desta forma, esperemos que os nossos às vezes irmãos mas sempre vizinhos ibéricos mantenham vivos na memória esses quase três anos de sangue, para que possam encontrar uma fórmula que os faça finalmente reconciliar-se com a(s) sua(s) identidade(s) e ultrapassar tão fortes e antigos antagonismos. O que só nos beneficiaria a nós, mesmo aqui ao lado.

Fernando Rebelo

fontes: Wikipédia e Pinterest