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Posts Tagged ‘Fotografia’

Desde que a fotografia surgiu, a comparação e a relação com a pintura foi inevitável. Contudo, a oposição de críticos que consideravam a fotografia fria e sem alma também foi imediata, de tal maneira não a aceitavam que a questão da fotografia ser ou não ser arte durou muito tempo.

Apontavam-se razões estéticas para a recusa, ao contrário da pintura, que tinha as tintas, a fotografia era uma arte sem matéria, e defendiam, os românticos, a incompatibilidade da arte com a máquina.

Aos poucos, foi-se tornando um registo, um documento que testemunha uma situação e contribui para a compreensão dos acontecimentos, um testemunho que relata o desconhecido, o exótico e que guarda cronologicamente imagens, permitindo viajar mentalmente entre o passado e o presente.

A imprensa passaria a fazer uso desta informação visual.

Mas a fotografia pretendia ser mais do que relatar situações e, sob um olhar atento, descortinavam-se outros aspetos como a criatividade, a maneira como a luz é orientada e esculpida e também a compreensão de que uma imagem pode revelar tanto o mundo exterior como o mundo interior do fotógrafo.

Atualmente, não há dúvida quanto à sua categoria de obra de arte e ao lugar que ocupa em museus e galerias, junto de outras formas artísticas.

A pintura existiu desde sempre, mas a fotografia, antes de Nicéphore Nièpce (1765/1833) ter descoberto a possibilidade de fixar uma imagem numa superfície com sais de prata e se terem realizado as primeiras fotografias, em 1826, já muito antes se conheciam alguns princípios científicos e técnicos que contribuíram para o seu aparecimento, nomeadamente a câmara escura. Considerada, no séc. XVIII, como um importante meio auxiliar para desenhar, na Antiguidade tinha sido referida por Aristóteles e, no Renascimento, por Leonardo da Vinci e Durer,  entre outros.

Mas se Nicéphore Nièpce descobre a maneira de fixar uma imagem, Louis Jacques Mandé Daguerre (1789/1851) aperfeiçoa a invenção e regista-a como daguerreótipo.

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Fig. 1 Nicéphore Nièpce (Considerada a 1ª fotografia no mundo)

No início só é possível fixar uma imagem, tratando-se portanto de um processo dispendioso mas, mais tarde, irá contribuir para a democratização de um dos géneros mais caros à pintura: o retrato.

Tradicionalmente, a pintura é classificada em diferentes géneros –retrato, paisagem, natureza morta, nu- classificação esta, que surgiria também na fotografia, embora as fronteiras se tenham esbatido e, atualmente, ser difícil classificar o género de algumas imagens.

Outra semelhança é o facto de ambas se pendurarem nas paredes como refere Gabriel Bauret, no seu livro “A Fotografia”.

Na segunda metade do séc. XIX, alguns fotógrafos, entre eles, Félix Nadar, exercem a

Fig 2

Fig. 2 Peter Henry Emerson

profissão de retratistas, mas é com Peter Henry Emerson (1856) que se estabelece uma ponte com a pintura. Pretendendo ser reconhecido como artista da mesma maneira que o era o pintor, Emerson tornar-se-ia famoso pelas fotografias naturalistas à maneira do pintor John Constable, trabalhando a imagem no momento da impressão, adotando processos que a aproximem da pintura.

 

São vários os fotógrafos que desenvolvem o seu trabalho nesta proximidade com os géneros da pintura.

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Fig. 3 Gustave le Gray

Gustave le Gray, (1820- 1884) segue a fotografia de paisagem e apresenta-nos paisagens marinhas que o próprio manipula.

Julia Margareth Cameron, (1815-1879) e Gertrude Käsebier (1852-1934) são duas fotógrafas que se destacam no mundo da fotografia, em primeiro lugar por serem mulheres e, depois, pela maneira como trabalham as imagens. A primeira, com fotografias que remetem para a obra de Leonardo da Vinci e, a segunda, empenhada em fotografar a maternidade, querendo mostrar que esta era uma carreira válida para mulheres. O retrato de nativos americanos foi outro tema pelo qual se interessou.

 

Mas não foram só os fotógrafos que se aproximaram da pintura, o contrário também aconteceu. O pintor Edgar Degas (1834- 1917), um entusiasta por tudo o que era efémero e desmaterializado como são as suas imagens de ballet, as luzes, os tecidos, etc., vai interessar-se pela imagem fotográfica e pintar composições descentralizadas, imagens cortadas, provavelmente, por ter fotografado uma imagem que, acidentalmente, teria ficado cortada e isso pode ter desencadeado uma nova tendência de fazer pintura. Esta forma diferente de pintar, em que as figuras aparecem “cortadas”, originou uma mudança na designação do que até aí se chamava composição para uma nova maneira mais livre e inesperada, o enquadramento.

Também o pintor Édouard Manet (1832-1883) pintará influenciado pela fotografia, ou

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Fig. 10 “La serveuse de bocks”, Édouard Manet

seja, cortando as figuras, como é exemplo a obra “La serveuse de bocks” em que a mulher está com o braço incompleto.

Esta maneira de apresentar imagens fragmentadas é, segundo alguns autores, uma metáfora da modernidade na medida em que o corpo clássico já não existe, o homem deixa de ser o centro e a fragmentação da consciência desencadeia a fragmentação do corpo.

Neste contexto, o pintor Andy Wharol, (1928-1987) banalizou a figura humana, apresentando repetições de estrelas de cinema e da música transformadas em imagens, esvaziadas da pessoa.

A partir dos anos 60 do séc. XX, a pintura tal como era praticada vai deixando de servir aos pintores, outras questões se sobrepõem como os processos criativos e expressivos e o que conta é a ideia, o pensamento do objeto, a reflexão sobre a obra.

Nesta linha, a artista portuguesa Helena Almeida (1934-2018) ao fotografar-se com uma tela à frente do peito, vestindo-se de tela branca em oposição ao lugar das telas penduradas à parede, questiona o limite espacial da pintura.

Outras práticas artísticas, efémeras,  nomeadamente  o happening, performance, land art – esta última,  com preocupações ambientais – , esgotam-se após a sua apresentação, pelo que a utilização da fotografia como registo constitui o único testemunho.

Ana Guerreiro

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Foram entregues na biblioteca, no Dia da Escola, pelos professores de Português do 11º Ano, os Diplomas de Mérito Photográphico Queirozeano, que distinguiram as 8 melhores fotos realizadas durante o roteiro em Sintra, já divulgadas em artigo anterior.

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No passado mês de março, o departamento de português organizou uma ida a Sintra, no âmbito do estudo de “Os Maias”, no 11ºAno, que incluiu, da parte da tarde, um roteiro fotográfico.

Os alunos, divididos em 26 equipas de 6-7 elementos,   tinham que realizar um percurso, sugerido pela ida de Carlos e Cruges a Sintra (cap.VIII), tirando fotografias indicadas no roteiro-guião.

O que se apresenta em seguida é o roteiro seguido pelos alunos e as 8 fotografias vencedoras.

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Ponto de Partida  — Palácio da Vila (P. Nacional de Sintra)

Deixando o Terreiro da Rainha D. Amélia, com a serra pelas costas, seguimos para onde foi o famoso Hotel Nunes, que em 1980 deu lugar ao Hotel Tivoli.

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1ª FOTOGRAFIA — Cenário da Serra , visto do antigo Hotel Nunes.

Agora, andando de frente para a serra, passando o Paço à esquerda, o Central e o Paris à direita, saímos para a Praça da República seguindo em frente.

Continuamos a subir pela Rua Consiglieri Pedroso até ao famoso Hotel Lawrence, onde Carlos supunha que Maria Eduarda estivesse alojada.

«Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges.

– Tem o ar mais simpático, disse o maestro.»

«Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam daquela fachada banal, onde só uma janela estava aberta com um par de botinas de duraque secando ao ar. À porta, dois rapazes ingleses, ambos de knicker-bokers, cachimbavam em silêncio; e defronte, sentados sobre um banco de pedra, dois burriqueiros ao lado dos burros, não lhes tiravam o olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.»

 « – Isto é sublime! exclamou do lado o Cruges, comovido. “Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas…Sintra é isto, um pouco de água, um bocado de musgo… Isto é um paraíso.»

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2ª FOTOGRAFIA —  Uma janela do Lawrence’s onde se imagina que as botinas estivessem a secar.

Seguindo os sinais e passando o Largo Carlos França, vamos pela Av. Garrett. Respirem fundo que é a subir! O destino é Seteais, mas a meio caminho vai aparecer, à esquerda, uma romântica cascata e a famosa Quinta da Regaleira.

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3ª FOTOGRAFIA —  A romântica cascata

A Quinta ainda não existia no tempo de Carlos da Maia, mas a sua beleza arquitetónica e paisagística é irresistível.

A Quinta da Regaleira foi mandada construir por António Monteiro, conhecido por “Monteiro dos Milhões”, que  chamou o arquiteto Luigi Manini para edificar esta singular Quinta, cheia de beleza e mistério, isto já no século XX.

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4ª FOTOGRAFIA — Quinta da Regaleira

 «Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!… E vocês, que diabo? Para onde vão vocês com essas flores nas lapelas?

– A Seteais… Vou mostrar Seteais ao maestro.»

«Quantos luares eu lá vi!

Que doces manhãs d’abril!

E os ais que soltei ali

Não foram sete, mas mil!»

Cruges, porém, não teve a mesma sorte que nós, pois o Palácio teve obras recentemente.

«Mas, ao chegar a chegar a Seteais, Cruges teve uma desilusão diante daquele vasto reino coberto de erva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, de vidraças partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno céu, o seu grande escudo de armas. »

«Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planície de lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em quadros verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um pano feito de remendos (…) O mar estava lá ao fundo, numa linha unida, esbatida na tenuidade difusa da bruma azulada.»

«No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejante, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem num relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura, coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro…»

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5ª FOTOGRAFIA — «No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso…»

«Declarando que realmente era tarde para subirem à Pena.»

«- Agora o que tu deves ver, Cruges, é o palácio. Isso é que tem originalidade e cachet! Não é verdade, Alencar?…

Depois de tanta beleza, há que voltar ao Largo Carlos França, ao Palácio da Vila. Temos de fazer o  percurso inverso, mas, tal como Carlos da Maia, também nós iremos seguir agora pelas ruas tortuosas. Assim, após a Cascata, tomamos o sentido obrigatório, em direção à Rua da Fonte da Pipa. Sempre a descer continuamos pela Rua das Padarias até ao Palácio da Vila.

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6ª FOTOGRAFIA – Ruas tortuosas

«Olha não te esqueçam as queijadas!» (…)

«- E eu tenho de comprar as queijadas—murmurou Cruges.»

– Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintenário.

O break parara, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:

– Esqueceram-me as queijadas!»

Não esqueçam, como o Cruges, as inigualáveis queijadas da Piriquita. No tempo de Carlos da Maia e de Cruges esta hoje famosa pastelaria não passava de uma simples padaria, mas a fama das queijadas de Sintra vai longe.

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7ª FOTOGRAFIA – Pelo caminho, documentar uma expressão de alegria

«…Voltava do palácio com um ar murcho, fatigado daquele vasto casarão histórico, da voz monótona do cicerone mostrando a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha, «melhores que as de Mafra,» o tira-botas de S. A; e trazia de lá uma pouca dessa melancolia que erra, como uma atmosfera própria, nas residências reais.»

«E foi o que mais lhe agradou – este maciço e silencioso palácio, sem florões e sem torres, patriarcalmente assentado entre o casario da vila, com as suas belas janelas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o vale aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas chaminés colossais, disformes, resumindo tudo, como se essa residência fosse toda ela uma cozinha talhada às proporções de uma gula de Rei que cada dia come todo um reino…»

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8ª FOTOGRAFIA – «Este maciço e silencioso palácio, sem florões e sem torres[…] e no alto as duas chaminés colossais»

autor do texto: Dulce Sousa

autores das fotografias:

  • 1ª fotografia – Mariana, Bárbara, Jéssica, Beatriz Nabais, Gonçalo e André, 11ºC
  • 2ª fotografia – Beatriz Coutinho, Raquel Pereira, Marta Peres, Afonso Salgado, André Lopes, João Sousa, 11ºG
  • 4ª fotografia – Catarina Abreu, Madalena Monteiro, Ana Margarida Rodrigues, Sara Nascimento, Sofia Correia, 11ºG
  • 6ª fotografia – João, Tiago Batista, Frederico, Bernardo e Sofia, 11ºC
  • 7ª fotografia – Ana Rita Mariano, Margarida Pires, Margarida Fonseca, Sofia Oliveira, Maria Inês Garcia, Telma Caneca e Rafael Ribeiro, 11ºA

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Pela lente da câmara do telemóvel, os alunos foram observando o mundo exterior e os seus objetos e detendo-se em alguns, apurando a acuidade visual em determinados pormenores e procurando uma imagem sobre a qual pudessem intervir, retirando uma parte ao todo e recriando um outro todo descontextualizado e fragmentado. Uma fotografia abstrata era o que se pretendia.

Embora a arte abstrata não contenha imagens da realidade exterior, neste caso, ela é o ponto de partida para a criação de uma imagem que, decomposta, invertida, ampliada, alterada, intervencionada de alguma maneira, possa constituir uma outra realidade e figurar como uma foto abstrata.

Ana Guerreiro

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Perante as figuras, sem rosto, de Giorgio de Chirico ou de Malevitch, há uma falta que impede o reconhecimento e a identificação do outro enquanto ser.

A inexistência dos elementos que constituem a face, olhos, nariz e boca, não permite descortinar nenhuma entrada, nenhum sinal de alma.

As figuras permanecem incomunicáveis, sem essas aberturas por onde a vida passa, as ligações entre o interior e o exterior não acontecem, e os movimentos e expressões que espelham no exterior a interioridade, não existem.

Toda a face se revela no sentir, quer através de micro-expressões, quer através de alteração da cor, como se o interior pudesse a qualquer momento revelar-se na sua nudez.

Os olhos e, sobretudo, o olhar são os mais reveladores, permitem ver, perscrutar, atravessar espessuras e desmoronar falsas imagens.

Esta projeção do “eu”, no rosto, levou à necessidade de o proteger, ocultando-o de diferentes maneiras, quer com máscaras, simples acessórios que permitem fantasiar o que não se é, através da ocultação da face, interditando o olhar alheio de micro-expressões que se formam, quer com a construção de máscaras “naturais”que reproduzem tiques e algumas expressões estudadas, aprende-se a ter um rosto, a disfarçar o que verdadeiramente se é.

Mas, se as máscaras ocultam, os espelhos revelam. E, se por um lado, há a necessidade de esconder, por outro, há também a necessidade e o fascínio de olhar-se.

Restritos no início, devido à raridade e ao elevado preço, os espelhos tornam-se mais comuns com a revolução industrial. Mas é com a história da Branca de Neve e da Bruxa Má, ao consultar o seu espelho mágico (“Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu”) que, este, incrivelmente sincero, aterroriza a bruxa ao responder-lhe que já existe outra mais bela, da mesma maneira que, diariamente, nos confronta com a verdade de nós próprios.

O espelho é o objeto que satisfaz a vaidade, mas é o objeto que mostra também o que está para além da superfície da imagem.

Esta verdade, cristalizada numa chapa fotográfica e, posteriormente, reproduzida, rapidamente chega à maioria das pessoas, constituindo uma mudança radical na sociedade.

Felix Nadar, 1860

Felix Nadar, 1860

Gaspar Félix Nadar (fotógrafo francês, 1820-1910) contava que as pessoas, quando tiveram oportunidade de se verem retratadas, ficavam tão deslumbradas com a veracidade da imagem que, por vezes, ao saírem do seu estúdio, nem se davam conta de que levavam consigo o retrato trocado. As pessoas queriam simplesmente ver-se, saber como eram, não importava, ainda, o que estava por detrás da imagem.

Mas muitos ficavam zangados e furiosos quando descobriam que o seu retrato não estava à altura da sua auto-imagem.

Alguns fotógrafos, à semelhança de alguns pintores de retrato, recorreram ao uso de artifícios e acessórios, que davam aos traços do rosto a valorização que, por vezes, não tinham.

Esta procura de perfeição e valorização do rosto foi o objeto de estudo de fotógrafos e pintores de retrato que, rapidamente, perceberam o impacto que este “aperfeiçoamento” causava junto das pessoas.

A procura não mais cessou, bem como as diferentes técnicas utilizadas para tornar mais belos os rostos. Apagaram-se rugas, limparam-se manchas, diminuíram-se defeitos, alteraram-se escalas –  esta capacidade de apagar registos emocionais e psicológicos dificultou assim a leitura interior.

Os rostos aparentam ser, hoje, muito felizes e perfeitos, e mesmo, quando a sós perante o espelho “espelho, espelho meu…”, este terá provavelmente dificuldade em atravessar essa estranha camada superficial como uma máscara colada à pele, e nada lhe conseguirá responder.

Um dos artistas que vem alterar toda esta encenação é Francis Bacon. A deformação e a estética do feio rompem com as imagens que se pretendem belas.

Bacon mostra a deformação, acentua-a, contrapõe à imagem manipulada e perfeita, o exagero da deformação, revela outro lado, e se o rosto transparece o interior, Bacon só mostra interiores sombrios, interiores que incomodam e que a sociedade prefere não ver.

O seu espelho devolve-lhe as imagens que tem dentro de si, e ele põe-as a descoberto, não as oculta, enfrenta-as.

Ana Guerreiro

Fontes das imagens:

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