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Posts Tagged ‘José Saramago’

a pedra e palavra

Decorreu este ano a 4ª edição do Concurso Literário A Pedra e a Palavra. Neste concurso propõe-se aos alunos do 12º Ano que escrevam um texto  em que interpretem, a partir da sua própria experiência individual, as impressões provocadas por essa interação entre a palavra e a pedra: a leitura da obra literária de Saramago e a experiência física/sensorial da visita ao Convento de Mafra, a fantasia da ficção e a materialidade do monumento.

Nesta edição foi selecionado o texto da Isabel Curioso do 12ºA, premiada com uma obra do mesmo autor. Fica então a seguir publicado o texto da Isabel.

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Memorial do Convento é muito mais do que uma célebre obra de José Saramago. É, tal como o próprio título indica, quase como um livro de lembranças, algo que nos conta acontecimentos passados para que estes não caiam no esquecimento. No entanto, esta imortalização dos factos históricos não depende apenas da história. É uma escolha individual: guardar na memória o que foi lido apenas para o usar num teste de Português ou fazê-lo com outra intenção?

João V, o Magnânimo, cansado de viver na sombra do “Rei-Sol” e cego de vaidade ordena a construção de um convento em Mafra, afirmando ser em honra da sua filha, ainda por nascer. Na satisfação deste capricho real, homens foram escravizados e vidas sacrificadas, numa edificação que se irá provar desrespeitadora dos direitos do povo (se é que de facto existiam…).

isabel curiosoPara o rei e a sua corte megalómana, o povo era um mero meio para atingir um fim repleto de fatuidade. Porém, para o autor do Memorial do Convento, os trabalhadores eram muito mais do que isso. Do Alcino ao Zacarias, Saramago enuncia, individualiza e, consequentemente, retira do anonimato todos os portugueses que, por pertencerem a uma classe social mais baixa, foram apagados da História. Apesar de somente D. João V ter sido aclamado pela construção (parcial) do convento, o escritor certifica-se de que o povo é lembrado e encontra uma história onde pertença.

Com esta ideia em mente, encarar da mesma forma o imponente Convento de Mafra será uma tarefa difícil. O que outrora fora visto apenas como pedra é, agora, eco dos esforços de muitos homens, mulheres e crianças portuguesas. No fundo é aqui que nasce a interação entre a pedra e a palavra: “Todos somos seres culturais, por um olhar, por um entendimento, conseguimos ir mais fundo que a superfície das coisas. E isso, esse aspeto complexo, é o que impede que o Memorial seja lido em linha reta”, como o próprio José Saramago afirmou.

Deste modo, o Convento de Mafra não será apenas mais um majestoso monumento, mais um local a visitar. A palavra, e todo o sentido que o escritor lhe confere, leva-nos a algo “mais fundo que a superfície das coisas”, leva-nos a um momento de introspeção. De certa forma, podemos considerar que este era um dos objetivos de Saramago ao entrelaçar realidade e ficção. Para concluir, a história do Memorial do Convento permite-nos refletir acerca da História de Portugal.

Isabel Curioso, 12ºA

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Jose_Saramago-00A leitura da obra Memorial do Convento transcende a conjugação de letras escritas a negro que decoram folhas em branco. A riqueza desta obra não está patente na capa ou contracapa. Apenas quem experiencialmente leu esta incrível obra saberá do que falo.

O uso de uma peculiar pontuação, a capacidade que este autor tem de criar ambientes verosímeis através da escolha de palavras da época, de descrições até ao pormenor da roupa das personagens, dos espaços físicos e sociais que estão presentes ao longo de toda a narração, cativa o leitor deixando-o preso à história, por esta apresentar uma nova verdade em comparação com o cânon da História. Isto é, o leitor embarca numa viagem por caminhos nunca antes conhecidos, possibilitando a si mesmo, uma reflexão e reavaliação do passado, uma vez que o ponto de vista de José Saramago é diferente do da História.

Para além de embarcar nesta viagem, foi nos proporcionada a oportunidade de viver cada detalhe de um dos palcos onde desfilam diversos quadros sociais, para melhor compreender todo o esforço e o sacrifício de inúmeros trabalhadores que está subjacente à construção do Convento de Mafra, à realização de uma promessa feita por D. João V, um rei megalómano que segundo a história é o magnífico, aquele que fez erguer um grandioso monumento.

Ao observar o esplendoroso monumento, imaginei quantos sacrifícios teriam sido realizados, quantas vidas perdidas na tentativa de poder realizar uma promessa que não lhes pertencia, quanto tempo investido para tamanho feito…cdacb40b-4028-41c9-98d6-3f0bc1427e91

Saramago, na sua obra deu ênfase ao transporte de uma pedra vinda de Pêro Pinheiro até Mafra, que aparentava ser fulcral neste monumento, não só pelo seu tamanho e quantidade de pessoas e juntas de bois que foram necessárias para transportá-la, mas também pelo facto de possuir um nome próprio: Benedictione.

Confesso que contemplando o monumento e a sua imensidade, quase que nem daria pela pedra que fora destinada à varanda sobre o pórtico da igreja, senão tivesse conhecimento de toda a história que nela está assente.

E foi no momento em que averiguei a pequenez daquela pedra, daquela que trouxe com ela, o sacrifício, o sofrimento e até mesmo a morte de trabalhadores que ajudaram na concretização de desejos megalómanos e prepotentes do rei todo-poderoso, que apenas queria mostrar o seu poder e riqueza aos restantes povos europeus, desprezando quaisquer recursos e até mesmo as circunstâncias em que se encontrava o povo, que me apercebi que

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José Santa-Bárbara

a palavra faz de nós aquilo que hoje somos. Hoje, não conheceríamos outra versão se José Saramago não imortalizasse os verdadeiros heróis, aqueles que na verdade ergueram tão grandioso monumento com tão escassos recursos e tempo.

Toda a introspeção que esta visita de estudo me proporcionou, não só me levou a concordar com José Saramago, como também me permitiu alcançar níveis de compreensão acerca da mensagem patente em Memorial do Convento.

Cada pormenor, cada detalhe, cada pedra que constitui o monumento, tem uma história para contar, e sem a palavra nenhuma história poderá ser narrada ao mundo. Nenhuma história será conhecida.

Catarina Gouveia, 12ºA

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mafraHá uns tempos, mais especificamente no dia 2 de Maio de 2016, fui fazer uma visita de estudo ao Convento de Mafra, com os meus colegas e professores.

Cheguei e fiquei logo abismado com a grandiosidade, a monumentalidade do monumento que é o convento de Mafra, cada detalhe, cada ornamento, cada peça era uma obra de arte, e a soma de todos estes pequenos pormenores resultava na representação física da obra, portanto refletiam assim a verdadeira natureza exterior do convento. Mas será que é a mesmo a “verdadeira”? Será realmente a verdadeira essência do convento – toda a majestosidade e elegância que as peças físicas exibem?

Na minha opinião, e a partir de tudo o que estudei e sei do livro, e principalmente das minhas vivências, a alma do convento, a essência desta magnifica obra de arte não se centra nem nas extravagâncias, nem nas decorações, nos exageros, nos carrilhões, nas fachadas, nas técnicas de construção avançadas para a altura. O segredo simplesmente não está no exterior, no físico, no concreto. Para poder compreender uma das maiores lições que eu, pessoalmente, retirei da visita ao convento tive de me transportar para a realidade do séc. XVIII.

Com esse propósito imaginei: para a obra ser edificada alguém teve de ter o trabalho de a construir. Depois de todas as explicações dadas, tanto pela guia, como pelo livro, consciencializei-me de que a verdadeira essência do convento figura no esforço, no trabalho exaustivo e no cansaço dos trabalhadores, que passaram dias a fio submetidos a condições deploráveis para realizar um monumento que apenas servia como moeda de troca para um rei ocioso, inconsciente e megalómano.  Desde a edificação do convento, até ao transporte da pedra Benedictione de Pero Pinheiro até à vila de Mafra, tudo se deveu à vida e ao sacrifício de pobres vidas humanas.

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José Santa-Bárbara

Após perceber o quão grave foi o modo da construção do convento e o que ele representou , comecei a olhá-lo de outra maneira: em cada peça que observa via, não o ouro, não a prata, não a pintura, mas sim o homem suado e magoado que a criara. Esta alteração de perspetiva sobre o monumento fez-me também observar a nosso quotidiano de outro ponto de vista.

Seguindo esta linha de pensamento, compreendo agora que todos os aspetos negativos que se possam retirar do livro podemos transpô-los para o  dia-a-dia. Não como reforço dos pecados, dos defeitos mas sim como corretor de vícios. Até porque a maior parte das criticas feitas à sociedade na obra podem ser aplicados à sociedade atual, com ligeiras alterações.

Em suma , penso que a visita foi bastante enriquecedora, tanto em termos pedagógicos como em termos socioculturais. Consegui retirar uma lição, um ensinamento, para a vida da visita e da obra – este foi conseguido através de uma associação entre 2 elementos: a pedra e… a palavra.

Luís Leston, 12ºA

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Foi realizada mais uma edição do concurso de escrita A Pedra e a Palavra, que propunha aos alunos do 12ºAno que visitaram o Convento de Mafra, no passado mês de maio, que associassem essa experiência física, sensorial e igualmente factual e histórica, à ficção da palavra de Saramago na obra que tinham lido – O Memorial do Convento.

Selecionados os melhores textos desta edição, os vencedores foram premiados com três obras de Saramago. Como sempre, inciamos aqui a divulgação do texto classificado em 1º lugar, da Maria Carolina Santos, 12ºC.

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os vencedores, da esq. para a dir.: 1º Mª. Carolina Santos (12ºC), 2º Luís Leston e 3º Catarina Gouveia (12ºA)

Texto classificado em 1º lugar

Através da leitura de Memorial do Convento é-nos transmitida apenas uma pequena ideia da dimensão do monumento, bem como do seu caráter fictício. Será que a experiência física se assemelha à obtida através da leitura? Será que basta a fantasia da ficção para entender a materialidade deste fragmento de património português?

Aconselho, portanto, a leitura prévia desta obra saramaguiana. Com ela, deparamo-nos com um gritante contraste entre o esplendor barroco de igrejas e palácios e o despojamento das casas, assim como das condições asquerosas e humilhantes em que o povo português vivia; Com ela vamos ao encontro de um passado sombrio caracterizado pelo medo e opressão, em que as palavras pronunciadas pelo narrador e algumas personagens dão conta disso mesmo. Algumas são “pedras” atiradas ao acaso, com a intenção de “ferir” as suscetibilidades dos leitores. E continua a ser esse o verdadeiro propósito da obra.

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José de Santa-Bárbara

Muitas vezes, ao longo das suas páginas, deparamo-nos com alusões feitas à pedra que, no entender do narrador, é uma ínfima parte do monumento descomunal que estava a ser construído. É uma das grandes epopeias da obra de José Saramago, uma verdadeira odisseia carregada de sacrifício só para a transportar. As suas palavras transmitem claramente essa ideia – o transporte de Pêro Pinheiro a Mafra, um dos muitos episódios que ocorreram aquando da construção do convento, exemplificando efetivamente a escravidão humana, o absurdo do sacrifício transmitido muitas vezes em expressões monossilábicas, que constituem gritos de dor, como se àqueles trabalhadores fossem atiradas inúmeras pedras! Quase que se consegue ouvir o gemido de quem a carrega mas não são ouvidas palavras capazes de refletir tudo isso.

Olhemos bem para o tamanho gigantesco do monumento: Quantas palavras foram trocadas por todos aqueles quarenta mil trabalhadores só para transportar esta e outras tantas pedras? Tão grande que aquela era para ser usada numa varanda infinitamente pequena! Foi assim a materialização do convento? Terá sido esse episódio do seu transporte que o narrador utilizou para falar do tamanho gigantesco da pedra?

É importante não esquecer que tudo teve início num simples frase pronunciada pelo rei D. João V, cujas palavras passo a citar: “(…) Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano (…)”. Poucas palavras para tantas toneladas de pedra. Estas representam a dor física e a experiência sensorial de todos os trabalhadores e a nossa também, como leitores e visitantes. Parece que sentimos as “palavras afiadas” daquele rei, bem como as “feridas” que causaram em tanta gente inocente. A fantasia, o sonho de um só homem deu lugar a um voto bem real, escrito sobre a pedra mármore, que milhares de homens epicamente e heroicamente transportaram.

Na verdade, “A Pedra e a Palavra” constituem um verdadeiro desafio literário, “No fundo… temos necessidade de dizer quem somos e a necessidade de deixar algo feito”. De que forma? Usando a palavra com o intuito de descrever pedras imensas que fazem parte das grandes obras de arquitetura deste país, destacando, claramente, o Convento de Mafra.

Maria Carolina Santos,  12ºC.

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Era uma vez o Convento de Mafra. Era uma vez a Pedra. Era uma vez o Memorial…

No dia quatro do mês de março embarquei numa viagem com os meus colegas e professores rumo à descoberta do Convento e Palácio Nacional de Mafra.

Quando estávamos a passar, de autocarro, pelo Terreiro do Convento, fiquei desde logo deslumbrado com a imponência do monumento, com o comprimento e altura da sua fachada principal, com os conjuntos de carrilhões, com a majestosidade e elegância, transmitidas não só pelas dimensões megalómanas do Convento, mas também pelos ricos ornamentos e decorações em pedra. Mais tarde, e já durante a visita ao interior da basílica, a guia forneceu-me os números que comprovam a grandiosidade desta obra: a capacidade para trezentos frades, os dois carrilhões compostos por um total de noventa e oito sinos e um peso total de duzentas toneladas, a área total de quarenta mil metros quadrados… Com base nas primeiras impressões e nestes números, rapidamente concluí que se este convento seria difícil de erguer, mesmo com recurso às tecnologias e técnicas de construção existentes atualmente, então os operários que o fizeram em pleno século XVIII, recorrendo a ferramentas e materiais de construção rudimentares, alcançaram um feito sobre-humano.

Contudo, eu já tinha uma ideia de como seria o Convento, não só por o ter visitado quando era criança, mas principalmente porque li recentemente a obra “Memorial do Convento”, do Prémio Nobel Português da Literatura José Saramago.

No “Memorial do Convento”, Saramago serve-se do pretexto de homenagear o Convento para denunciar as más práticas da sociedade do século XVIII e transpor essa crítica para a sociedade atual, pelo que não seria de estranhar que as referências a este convento ao longo do romance fossem escassas. Porém, este monumento é o centro dessa crítica social. Através dos episódios relacionados com o Convento de Mafra presentes no Memorial, como o da sua edificação, o do transporte da pedra Benedictione desde Pero Pinheiro até à vila de Mafra, a recolha forçada de operários por parte do exército para as obras do convento e os momentos passados por esses trabalhadores na Ilha da Madeira, Saramago expõe o luxo, ostentação e luxúria do Clero e do Rei, a pobreza extrema em que vivia o povo e as crueldades praticadas pelos mais poderosos sobre os mais fracos, o povo. No meu entender, a colocação das passagens que remetem para o Convento no Memorial foi bem idealizada por Saramago, pois fortalece esta crítica que era o seu objetivo principal.

Durante esta visita, pude também confirmar o que já suspeitava desde que comecei a ler o “Memorial do Convento”: José Saramago, antes de escrever este romance, levou a cabo uma investigação exaustiva, visitando por diversas vezes o Convento e consultando manuscritos na Biblioteca Nacional de Mafra, chegando até a morar nesta vila por curtos períodos de tempo. O rigor e a precisão de algumas passagens que se enquadram no plano da História fizeram-me colocar a hipótese de tal trabalho de investigação ter sido levado a cabo. A meu ver, a pesquisa revelou-se uma ferramenta bastante importante na construção da narrativa, na medida em que a dotou de uma credibilidade sólida e provocou uma interligação tão harmoniosa entre a dimensão histórica e a ficcional que o leitor é “iludido”, como eu fui, julgando tratar-se apenas de uma dimensão una.

O único aspeto que me “dececionou” foi a pedra da varanda. Trazida desde Pero Pinheiro por caminhos estreitos, inclinados e repletos de curvas apertadas, numa operação que envolveu duzentas juntas de bois e seiscentos homens, tendo custado a vida a um deles, Francisco Marques, foi a partir dela que se construiu a varanda do Rei. Por ter lido a narração dessa operação, por saber que a pedra tinha até um nome próprio, Benedictione, e que tinha o peso assombroso de trinta e um mil quilogramas, estava a contar com uma varanda que dominasse toda a fachada principal do Convento. Apesar de ter sido avisado pela professora de Português e por Baltasar Sete-Sóis, quando cheguei à entrada do Convento, deparei-me com uma varanda que, apesar de estar ricamente decorada, se enquadrava de forma subtil no monumento, sem fazer jus à grande empreitada que foi trazê-la de Pero Pinheiro. Mas depois, tomei consciência que Saramago procurou, com este episódio, enaltecer o herói coletivo do Memorial, o povo e, em simultâneo, criticar as excentricidades das classes altas, que só para terem uma varanda de pedra única obrigam os mais humildes a colocar em risco as suas vidas.

O balanço final desta visita de estudo é bastante positivo, na medida em que esta me permitiu conhecer o Convento Nacional de Mafra, um grande marco do património nacional, e comparar essa realidade com a ideia a priori que tinha deste monumento, concebida durante a leitura do “Memorial do Convento”!

André Boisseau, 12ºB

José Santa-Bárbara, Biblioteca Saramago, Lanzarote

José Santa-Bárbara, Biblioteca Saramago, Lanzarote

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 A Pedra e a Palavra: a realidade do Memorial do Convento

Não é todos os dias que se nos apresenta a oportunidade de criar uma ligação física a um dos livros que lemos. No mundo da ficção acabamos por estar conectados com uma história apenas pelo que a nossa imaginação consegue produzir. No entanto, no Memorial do Convento temos um marco da época em que a história decorre, o fabuloso Convento de Mafra, que nos leva até ao século XVIII numa viagem bastante peculiar.

Atualmente, o Convento é um grande monumento de pedra, algo real e palpável mas há 3 séculos, no reinado de João V, este era apenas uma ideia. O casamento real não gerava herdeiros e a Inquisição condenava inocentes nos autos-de-fé. Tudo isto são factos e elementos presentes na obra. Mas o Memorial não é apenas não-ficção, Saramago não nos mostra apenas os factos – mostra, a par destes, algo novo e para além da simples verdade. Aqui entra a ficção: a história de Blimunda e Baltasar e da Passarola; a história de uma mulher que vê as pessoas por dentro e bem como as suas vontades; a história de uma sociedade cega e de um país mergulhado no absolutismo; uma história, por um lado nova e por outro, familiar.

José Santa-Bárbara, Biblioteca Saramago, Lanzarote

José Santa-Bárbara, Biblioteca Saramago, Lanzarote

A “pedra” surge então como uma máquina do tempo muito especial – a pedra fria e dura do convento leva-nos não só 300 anos em direção ao passado, mas também às nossas personagens, à vida daqueles que existiram e daqueles que não existiram, aos erros cometidos na altura e que continuam a atormentar o nosso dia-a-dia; a pedra leva-nos à palavra escrita pelo autor e às palavras da História de Portugal. O Convento de Mafra mostra-nos, então, que o Memorial é mais do que aquilo que parece – a ficção funde-se com a realidade e as pedras lustrosas do monumento refletem os nossos erros e a nossa hipocrisia.

Por outro lado, depois de passear pelos corredores do edifício, não é difícil de imaginar aqueles que construíram tão grandioso monumento. A partir daí, também não será grande desafio visualizar um desses trabalhadores, maneta da mão esquerda, usando um gancho para o ajudar no seu trabalho. Quando olhamos para o céu vemos um pássaro – mas será mesmo um pássaro? Começamos a duvidar dos nossos olhos e a tal ave vai parecendo cada vez mais uma máquina – talvez fosse mesmo a Passarola. Vai tão alto que poderia enganar qualquer um.

É isto que o Convento nos proporciona – uma recordação material de uma obra de ficção literária, a marca deixada por todas as personagens que fomos conhecendo ao longo da obra e que contribuíram para fazer daquele projecto algo grandioso e tangível. Estas pessoas, umas anónimas, outras cujo nome recordaremos durante muito tempo, ganham vida para além dos factos e da ficção. É em Mafra que o Memorial do Convento passa de uma obra conceituada a uma realidade alternativa, mais mágica do que a nossa mas, ao mesmo tempo, estranhamente semelhante. Afinal de contas, o povo ainda festeja nas touradas.

Joana Martins, 12ºB

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ppRealizou-se, numa parceria entre a BE e o grupo de Português, uma 2ª edição do concurso literário A Pedra e a Palavra, na sequência do estudo da obra Memorial do Convento e subsequente visita ao monumento pelos alunos do 12º Ano.

Uma vez mais, o concurso consistia na escrita de um texto  em que se pedia aos alunos que interpretassem, a partir da sua própria experiência individual, as impressões provocadas por essa interação entre a “palavra” e a “pedra”: a leitura da obra literária e a experiência física/sensorial da visita, a fantasia da ficção e a materialidade do monumento.

prémiosAlguns professores que lecionam Português ao 12º Ano constituiram-se como júri e, apurados os melhores textos, foram distinguidos os três primeiros com um prémio que consistiu numa outra obra de Saramago para cada um dos premiados: Miriam Colaço, 12ºA (1º), Joana Martins, 12ºB (2º) e André Boisseau, 12ºB (3º).

Mas, como o mais importante é mesmo os textos que os distinguiram no concurso, aqui fica já publicado o 1º prémio a que se seguirão muito brevemente os outros dois textos. Parabéns à Miriam, à Joana e ao André!

Fernando Rebelo (PB)

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Texto – 1ºPrémio

Tenho o defeito de ser indecisa, tenho dificuldade em avaliar-me, os meus gostos e sentimentos, talvez porque tento avaliar sob várias perspetivas diferentes e todas elas fazem sentido de alguma forma e não vejo a necessidade de me decidir e acabo por apenas refletir. Por esse motivo, tenho mais dificuldade em expressar a minha opinião do que em defender algo mais objetivo. Como tal, farei uma reflexão sobre o que pensei durante a visita quando comparado com a ideia que tinha anteriormente.

A visita ao Convento de Mafra foi de grande ajuda para aprofundar e consolidar os conhecimentos que tinha sobre a obra. Durante a mesma, pude apreciar a beleza do convento enquanto refletia sobre o sofrimento do povo aquando da sua construção, ordenada por D. João V que, caprichosamente, não poupou meios para mostrar o seu poderio e superar as outras grandes construções da Europa, erigidas pelos reis da sua época, desprezando e ignorando totalmente a situação a que sujeitava o povo e todos os recursos que esbanjava.

“Os passatempos del-Rei”, José Santa-Bárbara

De modo mais abrangente, sobre a injustiça do mundo, que é intemporal e que apenas se pode fazer sentir de forma diferente ao longo dos tempos, sendo que naquela época era drasticamente acentuada devido ao seu sistema político e à inexistência dos conhecimentos e das máquinas e mecanismos atuais. Penso que José Saramago quis salientar essa injustiça pela forma irónica como descreveu as atitudes e decisões reais e enaltecia o sofrimento do povo oprimido e praticamente escravizado.

Foi também um pouco o que eu senti ao ver apenas um pouco da grandiosidade de tamanho monumento. Sangue, suor e lágrimas foram precisos para levantar um monumento que mal foi utilizado. Apenas um rei viveu lá e foi por apenas alguns meses, bem como os trezentos frades que não o ocuparam muito tempo. O quão mal aproveitado foi leva-me a repudiar ainda mais esta situação. Tantas vidas perdidas, tempo, dinheiro e recursos sem fim… apenas e só para a vaidade do rei todo-poderoso D. João V.

Acabei por tomar partido do autor da obra, mesmo sabendo que esteja a ser influenciada pela mensagem de Memorial do Convento; mas as palavras são isso mesmo, não apenas um amontoado de pedras. As palavras, ao formarem um texto, têm um significado e transmitem mensagens, bem como as pedras que quando ordenadas nesta grande construção em Mafra têm toda uma história para contar e uma mensagem para transmitir.

 Miriam Colaço, 12ºA

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concurso Saramago

‘Quem conta um conto… ao modo de Saramago!?’ lança um desafio aos jovens que queiram ousar a sua primeira experiência de escrita, através da criação de textos originais com inspiração na obra Memorial do Convento, utilizando as competências justas para a produção literária sob a forma narrativa do ‘conto’. SABER +

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capaSARAMAGO, José (1995) Ensaio sobre a cegueira, Caminho

A obra conta a história de um homem que cega repentinamente e das consequências que isso traz para toda a população da cidade onde vive.

Pouco tempo depois desta personagem perder a visão, descobre-se que a cegueira é transmissível através do contacto e, por essa razão, o governo decide isolar os cegos num edifício.

No entanto, isso não funciona e, pouco tempo depois, toda a população sofre desta doença, à exceção de uma mulher.

Esta personagem ajuda os seus companheiros a fugir do edifício onde estão aprisionados (um ex-manicómio), a lutar pela sobrevivência de todo o grupo e testemunha ainda coisas horríveis que o ser humano é capaz de fazer.

A parte que mais me impressionou foi quando os cegos desistem de se deslocar à casa de banho, passando a utilizar o chão do quarto onde vivem para fazer as suas necessidades e  transformando-o rapidamente num espaço  imundo e a tresandar a dejetos humanos.

Para descobrires o final desta história… requisita o livro na Biblioteca!(*)

Tomás Noválio, 8ºB

(*) disponível na BE em 2 edições – localização: 821.134.3. SAR26 e 821.134.3. SAR37

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nascer

  • excerto retirado daqui
  • ler mais: SARAMAGO, José (1999) Deste Mundo e do Outro, Editorial Caminho – disponível na BE; localização: 821.134.3. SAR39
  • ilustração de Nancy Ekholm Burkert, daqui

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SARAMAGO, José (2006), As Pequenas Memórias, Editorial Caminho

Tu disseste avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.” Assim mesmo, eu estava lá.

500_9789722118316_as_pequenas_memoriasEste livro trata-se de um livro de memórias, ou seja, o autor, como se fosse lembrando, conta algumas histórias sobre os primeiros anos da sua vida em Azinhaga, a sua aldeia natal. O autor, porém, não narra as suas histórias de uma forma cronológica: pode contar um episódio de quando tinha três anos como, de seguida, estar a contar sobre um em que tinha 15 anos.

Ele fala, essencialmente, da sua infância e da sua adolescência, através de vários episódios, uns mais dramáticos e outros mais divertidos. O autor conta-nos várias histórias de como a família Barata estava quase sempre com eles e relata os pequenos esquemas que às vezes tinham para poupar dinheiro.

Num dos episódios, por exemplo, ele desvenda a origem do seu apelido “Saramago”. Não era um apelido de verdade, era simplesmente uma alcunha que as pessoas lhes davam. Um dia, quando o pai foi fazer o registo civil do seu filho, sucedeu que o funcionário que estava encarregado estava bêbedo e que decidiu acrescentar ao nome José de Sousa, que era o que o pai lhe queria dar, o apelido Saramago. Depois, só aos 7 anos, quando o foram matricular, é que repararam que o filho tinha Saramago no nome. No final, o pai teve de mudar também o nome para não haver conflitos com a lei.

Num outro episódio, fala-nos da peripécia à volta da data do seu nascimento. O seu verdadeiro dia de anos é dia 16 de novembro e não dia 18, como está no registo civil. Isto deve-se ao facto de que o seu pai estava a trabalhar longe e, para se fazer o registo de nascimento da criança tem-se, no máximo, 30 dias. Como o pai não conseguiria chegar a tempo de modo a registar a criança sem pagar multa, eles decidiram registar o seu nascimento para dia 18 e assim livraram-se da despesa.

estátua do autor em Azinhaga

estátua do autor em Azinhaga

Uma história mais dramática foi a do arame. Um dia, estava ele a passear nas redondezas quando três miúdos agarraram-no e começaram a enfiar-lhe um arame pela uretra acima. Depois de verem o sangue a escorrer, os rapazes foram-se embora deixando-o ali, sozinho. Foi logo para casa e a mãe, assustada, levou-o ao hospital.

Eu escolhi este livro porque foi-me recomendado por familiares como sendo um livro muito interessante. Pensava que não ia gostar pois não é o tipo de livro que me atrai, mas acabei por perceber que era um livro bastante cativante, envolvente e às vezes divertido. No fundo, aquilo de que eu mais gostei foi da diferença de mentalidades: no livro a relação mãe-filho é completamente diferente do é que atualmente. Ele tinha muito mais liberdade quando tinha 4 ou 5 anos do que se calhar eu tenho hoje, com 15 anos, ou seja, nos tempos que correm, as mães e os pais são muito mais protetores do que eram nessa altura.

Teresa Lourenço, 10ºC

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Apesar das contigências da planificação do 12º Ano de Português não permitirem fazer coincidir a efeméride com a lecionação da obra, não quisemos deixar de assinalar a data dedicando-lhe um painel na nossa BE e uma Estante aqui no Bibli.

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Cada frase, ou discurso, ou o período, cria-se dentro de mim mais como uma fala do que como uma escrita. A possibilidade da espontaneidade, a possibilidade do discurso em linha recta, enfim, a direito, é muito maior do que se eu me colocasse na posição de quem escreve.
No fundo, ao escrever estou colocado na posição de quem fala.

José Saramago

in VENTURA, Mário, Conversas. Lisboa: D.Quixote, 1986.

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Ler  artigos sobre Memorial do Convento aqui no Bibli

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No dia da cidade e dois anos após a sua morte, José Saramago volta para ficar definitivamente em Lisboa com a abertura da fundação que leva o seu nome na Casa dos Bicos e uma exposição que não podia ter um título mais sugestivo para este regresso: A semente e os frutos.

E, apesar de ter um dia partido zangado, Lisboa era sem dúvida uma das suas paixões, ou não tivesse escrito o texto que aqui reproduzimos.

Fernando Rebelo

imagem daqui

Tempo houve em que Lisboa não tinha nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147 depois de um cerco de três meses, os mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…

Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as coisas.

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.

O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que freqüentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.

Talvez não seja possível falar de uma cidade sem criar umas quantas datas notáveis da sua resistência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o passado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de autocomplacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.

Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje. 

Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada, sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

in O Caderno, Lisboa, Caminho, 2009

Notícia e fotogaleria da abertura da fundação e da exposição na Casa dos Bicos (Expresso)

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Na sequência da leitura de Memorial do Convento e da visita de estudo que os alunos do 12º ano realizaram a Mafra, foi lançado aqui no Bibli um desafio literário sobre o tema. Durante as Jornadas do Livro e da Poesia os textos propostos pelos alunos foram apreciados por um júri e, como já anunciado, o 1º prémio foi atribuído por unanimidade à aluna, Ana Margarida Campos, do 12ºB. Parabéns à aluna que produziu o texto que agora partilhamos com os nossos leitores.

Fernando Rebelo

Quem nunca deu por si a imaginar como seria se fosse possível transportarmo-nos, não apenas através da imaginação, para os cenários onde decorrem as ações dos livros que lemos? Quem nunca imaginou como seria poder visitar a Terra do Nunca ou até mesmo o País das Maravilhas? A verdade é que a mera possibilidade de visitar os palcos fantásticos que oferecem lugar às histórias iria sem dúvida torná-las bastante mais reais para qualquer leitor: se esses lugares fossem não apenas palavras, mas sim espaços e construções reais diante os nossos olhos; não apenas tinta negra numa folha de papel branco, mas sim verdadeiras pedras, rodeadas de um verdadeiro céu, de um verdadeiro chão e de verdadeiras folhas, não brancas, mas verdes.

Bem, não direi que algum dia será possível visitar a Terra do Nunca ou o País das Maravilhas – esses são de facto lugares que terão de viver apenas no imaginário de cada um de nós. No entanto, digo com orgulho, que nem todos os lugares são como os anteriores. E digo-o com orgulho, não apenas por dizer, mas porque tive a recente sorte de me “transportar” para um dos mais imponentes palcos de histórias que Portugal conhece. Falo naturalmente do Palácio-Convento de Mafra, monumento esse que dá lugar à grande história do Memorial do Convento, da autoria de José Saramago.

Ao visitar, não apenas o Convento em si, mas também todo o espaço que o envolve, é sem dúvida possível dar vida a cada detalhe anteriormente lido na obra. Somos automaticamente envolvidos por aquele clima monárquico e absolutista, que nos faz rapidamente perceber a extravagância de D. João V de Portugal, através da evidente grandiosidade do monumento  e também da, talvez não tão evidente, pequenez de pensamento do próprio rei, uma vez que ordenou que se erguesse em Mafra um convento de tal forma grandioso que o seu contacto com a obra se ficou por  sonhá-la, financiá-la e, orgulhosamente, inaugurá-la mesmo ainda antes de estar concluída.

As pedras de Mafra contam ainda a história de todos os trabalhadores que foram de facto os responsáveis pelo erguer do sonho de D. João V, como se todo o esforço, suor, lágrimas e sofrimento de Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias estivessem ainda de alguma forma conservados dentro daquelas muito mais do que quatro paredes.

Perante a grandiosidade da construção, sobressai ainda a famosa pedra fendida que se encontra tanto na frente da obra arquitetónica, como na obra literária de José Saramago. Todas as pedras, mas sem dúvida essa em particular, fazem com que todas as palavras usadas pelo autor ganhem vida e sentido próprio.

Aconselho vivamente todos os amantes e não amantes de literatura a visitar este pequeno grande palco de História e de histórias, este lugar onde é possível perceber a enorme cumplicidade que existe entre a pedra e a palavra.

Ana Margarida Campos, 12ºB

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Em 17 de novembro de 2017, daqui a pouco mais de 5 anos, farão 300 que, dando cumprimento a uma alegada promessa do rei D. João V, se deu início à construção do convento de Mafra. Em outubro deste “ano da graça” de 2012, o seu “Memorial”, publicado por Saramago em 1982, cumprirá, por sua vez, 30 anos.

É certo que, mesmo cruzando-se na história da História e na história da ficção, as duas obras transcendem essa sobreposição, pois têm uma dimensão diferente que as faz ultrapassarem-se mutuamente – o convento já existia muito antes de Saramago ter transformado as suas pedras em palavras e o ter reconstruído (ou a sua memória) à sua maneira. Porém, se o monumento aí está para que toda a sua posteridade o interprete como deseje – quer o use como  pretexto literário, quer o estude como texto arquitetónico – a verdade é que Saramago lhe deu uma narrativa que, goste-se ou não, dificilmente deixará já de fazer parte do seu património imaterial.

Foi nesta convicção que os alunos do 12º Ano o visitaram em 14 de março passado, no âmbito da lecionação da obra Memorial do Convento. O programa integrou  uma representação de uma versão dramática da narrativa em causa e uma visita guiada temática ao monumento. Pelo que pudemos observar e ouvir dos alunos, o interesse suscitado foi grande: para quem leu a obra, a realidade  arquitetónica e histórica ganhou outro significado, para os leitores mais renitentes, essa mesma realidade aguçou-lhes a vontade de conhecer o modo como Saramago reinventou  a memória dessas  pedras com que foi construído.

Resolvemos então aproveitar esse entusiasmo para propor aos alunos do 12º Ano que participaram na visita a escrita de um texto entre 400-500 palavras em que interpretem, a partir da sua própria experiência individual, as impressões provocadas por essa interação entre a palavra e a pedra: a leitura da obra literária e a experiência física/sensorial da visita, a fantasia da ficção e a materialidade do monumento.

Para os 3 melhores textos, que serão publicados aqui no Bibliblog, temos 3 (outras) obras de Saramago para oferecer. Aceitaremos trabalhos até 17 de abril, que deverão ser entregues ao professor de Português, a quem podem também pedir esclarecimentos (ou para o mail do Bibli: cr.esds@gmail.com).

Fernando Rebelo

(prof.- bibliotecário e prof. de Português do 12ºAno)

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Milhares de léguas andou Blimunda, quase sempre descalça. A sola dos seus pés tornou-se espessa, fendida como uma cortiça. Portugal inteiro esteve debaixo destes passos, algumas vezes atravessou a raia de Espanha porque não via no chão qualquer risco a separar a terra de lá da terra de, cá, só ouvia falar outra língua, e voltava para trás. Em dois anos, foi das praias e das arribas do oceano à fronteira, depois recomeçou a procurar por outros lugares, por outros caminhos, e andando e buscando veio a descobrir como é pequeno este país onde nasceu, Já aqui estive, já aqui passei, e dava com rostos que reconhecia, Não se lembra de mim, chamavam-me Voadora, Ah, bem me lembro, então achou o homem que procurava, O meu homem, Sim esse, Não achei, Ai pobrezinha, Ele não terá aparecido por aqui depois de eu ter passado, Não, não apareceu, nem nunca ouvi falar dele por estes arredores, Então cá vou, até um dia, Boa viagem, Se o encontrar.

Encontrou-o. Seis vezes passara por Lisboa, esta era a sétima. Vinha do Sul, dos lados de Pegões. Atravessou o rio, quase noite na última barca que aproveitava a maré. Não comia há quase vinte e quatro horas. Trazia algum alimento no alforge, mas, de cada vez que ia levá-lo à boca, parecia que sobre a sua mão outra mão se pousava e uma voz lhe dizia, Não comas, que o tempo é chegado. Sob as águas escuras do rio, via passar os peixes a grande profundidade, cardumes de cristal e prata, longos dorsos escamosos ou lisos. A luz interior das casas coava-se através das paredes, difusa como um farol no nevoeiro. Meteu-se pela Rua Nova dos Ferros, virou para a direita na igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em direcção ao Rossio, repetia um itinerário de há vinte e oito anos. Caminhava no meio de fantasmas, de neblinas que eram gente. Entre os mil cheiros fétidos da cidade, a aragem nocturna trouxe-lhe o da carne queimada. Havia multidão em S. Domingos, archotes, fumo negro, fogueiras. Abriu caminho, chegou-se às filas da frente, Quem são, perguntou a uma mulher que levava uma criança ao colo, De três sei eu, aquele além e aquela são pai e filha que vieram por culpas de judaísmo, e o outro, o da ponta, é um que fazia comédias de bonifrates e se chamava António José da Silva, dos mais não ouvi falar.

São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda.

in Memorial do Convento, José Saramago

foto de Sebastião Salgado, retirada daqui

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