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A capital lusitana era uma porta aberta para o mundo, visto ser um porto de partida e chegada das rotas transoceânicas que interligariam para sempre a Europa, África, América e Ásia

Lisboa está na moda. Seja isto surpreendente ou não, a realidade é que esta situação não é de todo inédita e que a capital já foi outrora reconhecida à escala mundial pelas mais diversas razões.

De facto, durante o século XVI, Lisboa sofreu um incrível incremento que a tornou numa das maiores urbes europeias.

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Lisboa no séc. XVI

A capital lusitana era uma porta aberta para o mundo, visto ser um porto de partida e chegada das rotas transoceânicas que interligariam para sempre a Europa, África, América e Ásia.

Desta forma, a cidade crescia a olhos vistos em edifícios e variadas gentes, voltada para o mar, com um excelente porto, chegando a ser considerado como o melhor que há em toda a costa do mar descoberto. Neste porto, cruzavam-se tripulações de soldados, armadas, missionários, mercadores, funcionários da Alfândega bem como das Casas da Índia e Guiné, banqueiros e humildes carregadores.

Junto ao porto encontravam-se os estaleiros da Ribeira das Naus onde se construía e reparava a frota portuguesa e as denominadas Ruas Novas onde se juntavam comerciantes dos confins do mundo para efetuarem os seus ofícios.

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Rua Nova dos Mercadores, séc. XVI, autor desconhecido

A Casa da Guiné, da Índia e os Bazares da Rua Nova dos Mercadores abarrotavam de ricas especiarias, marfim, ouro, sedas, açúcar, diamantes e outras preciosidades que tinham então percorrido os mares do Globo.

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O Paço da Ribeira em finais do séc. XVI

Foi D. Manuel que revigorou Lisboa enquanto Metrópole Comercial. Com a realização de um plano de reconstrução urbanística, mandou erguer o Paço da Ribeira, o Armazém do Trigo, a Alfândega Nova, a Casa dos Bicos, a Torre de Belém entre outros.

Desta forma, manteve igualmente enquanto monarca um poder forte e centralizado que organizava os tráfegos ultramarinos pela via do monopólio régio.

Perante a hegemonia lisboeta, a população da cidade triplicou num século e infelizmente algo que também ajudou esse acréscimo foi o desmesurado aumento do número de escravos, de modo a acarretarem todas as tarefas necessárias para o desenvolvimento da cidade.

Em conclusão, a afirmação de Lisboa ocorreu devido à fusão entre um forte império colonial, enquanto metrópole comercial e política e ainda uma renovação cultural, onde estas transformações a tornaram uma das maiores e mais animadas cidades da Europa na centúria de Quinhentos.

Beatriz Sousa, 10ºD

Referência Bibliográfica:

  • PINTO, Célia do Couto e ROSAS, Maria Antónia Monterroso (2016) Um novo Tempo da História – História A – 10.º Ano, Porto Editora

Imagens:

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Passeando pela ‘Baixa’ de Lisboa, constata-se que a cidade se ergue sobre sete colinas, que lhe conferem beleza e harmonia. Os edifícios são antigos, muitos deles recuperados através de Planeamento Urbano, apresentando um zonamento vertical ao nível das suas funções.

Os edifícios, para além de terem a mesma altura, têm a mesma organização:

     No piso térreo, (muitas vezes com arcadas), ou nos andares mais baixos, encontram-se as atividades que necessitam de maior contacto com o público e com o consumidor; estão patentes os serviços e o comércio vulgar e especializado (minimercado, loja de souvenirs, loja de roupa, café, restaurante, farmácia, bancos, ‘ateliers’ de alta costura, joalharias e ourivesarias, etc.);

     Nos andares superiores, observam-se as funções menos nobres ou que requerem menos contacto com o público;

       No 2º/ 3º/ 4º pisos, existem janelas de sacada, nos mais baixos e, nos mais altos, janelas de peitoril, (onde se encontram escritórios de empresas, tipografias, editoras, consultórios de médicos, consultórios de advogados);

     Nos últimos pisos é frequente encontrar apartamentos com preços bastante elevados (os apartamentos restaurados chegam a valer 1.000.000 Euros!), onde apenas habitam classes sociais com grande poder económico, ou uma nova classe social chamada de ‘yuppies’ – ‘Young Urban Professional’, (jovens/adultos bem sucedidos, que através das carreiras académicas e/ou profissionais, têm grande poder económico) ou, então, idosos, mas estes vivem em apartamentos que não foram restaurados e que se encontram bastante degradados ou, então, em prédios degradados e muito antigos.

Resumimos, assim, que um só edifício consegue concentrar em si, a função residencial, comercial e/ou industrial e administrativa, o que demonstra a grande funcionalidade e pragmatismo da área da cidade reconstruída por Pombal e, agora, denominada de ‘Baixa’.

Feiras de ruaTambém existem áreas do CBD onde podemos verificar que existe uma maior concentração de serviços lúdicos e culturais (artistas de rua: músicos, malabaristas, artistas, teatro de rua, concertos, pintores, bailarinos, etc.), ou de hotéis, restaurantes, cafés e esplanadas.

Atividades como feiras, vendas e mercados de rua são frequentes na ‘Baixa’ de Lisboa.

Algumas das ruas no CBD foram encerradas ao trânsito e transformadas em ruas pedonais, para maior organização da área, facilitar a acessibilidade e revitalizar a cidade, atraindo população flutuante – aquela que se desloca ao CBD durante o dia, para trabalhar ou, simplesmente, fazer compras e/ou usufruir de um café ou esplanada, regressando ao fim do dia às suas casas.

Os acessos, no Chiado, são estritos em muitas ruas. Calçadas inclinadas recordam-nos que estamos numa das colinas de Lisboa!… Mas embora algumas das ruas tivessem sido cortadas ao trânsito (ex.: Rua Nova do Almada), para possibilitar a circulação de peões, existem, contudo, transportes, como o metropolitano (Estação: ‘Baixa Chiado’) e parques de estacionamento subterrâneos, para aqueles que se desejem deslocar-se no seu automóvel particular no CBD da cidade.

Todas estas atividades (maioritariamente do setor terciário), comerciais, de serviços e as funções raras, associadas a um tráfego intenso, entre outros fatores já referidos, fazem da área de Lisboa que visitámos, o chamado CBD da capital de Portugal.

E o que tem vindo a acontecer à dinâmica funcional da Baixa?

A verdade é que, nos dias de hoje, se constata cada vez mais uma alteração da dinâmica funcional do CBD, pois com o passar do tempo as funções vão-se alterando.

Numa primeira fase, houve uma grande substituição da função industrial e, posteriormente, da residencial pelo comércio e serviços e, atualmente, a tendência é a descentralização destas funções, que passam a exercer a sua influência em outras áreas da cidade.

Com a deslocalização de sedes e filiações de empresas e de outros serviços públicos do CBD para outras áreas da cidade, surgem as ‘Novas Centralidades’.

E porquê que isto acontece?

Devido, à especulação fundiária, que faz com que os preços imobiliários sejam muito elevados, devido ao congestionamento do centro, pois cada vez mais existem automóveis e escasso é o espaço para os poder estacionar e devido, posteriormente, a uma diminuição das acessibilidades ao centro, pois este encontra-se congestionado.

A população desloca-se do centro para a periferia da cidade, originando o processo de Suburbanização (ou para áreas periféricas para lá da coroa suburbana, originando o processo de Periurbanização), devido à fuga do ritmo intenso das cidades, da poluição ambiental e sonora e do elevado custo da Renda Locativa (custo do solo). A deslocação populacional é, também, acompanhada pelas atividades económicas, que se instalam em áreas periféricas, constituindo extensos subúrbios, que, posteriormente, ao ‘ganharem vida própria’, ascendem à categoria de ‘Cidade’.

As classes sociais de maior poder económico preferem adquirir, em áreas aprazíveis e mais distantes do centro da cidade, moradias de luxo, com piscina, jardim e ‘court ‘ de ténis, pelo mesmo preço que pagariam por um apartamento médio no centro de Lisboa.

Devido a estes fatores, a ‘Baixa’ sofre de estagnação económica e social. O decréscimo da densidade populacional e o aparecimento de ‘Novas Centralidades’, em outras áreas da cidade, como, inicialmente, nas Avenidas Novas e, posteriormente, no Parque das Nações e no Centro Comercial Colombo, contribuem para a estagnação do CBD de Lisboa.

Arriscamo-nos a dizer que, cada vez mais, a ‘Baixa’ tem concorrência e que, porventura, tenderá a perder a sua importância para outras centralidades. Aqui, surgem atividades como os tribunais – ‘Campus’ da Justiça, no Parque das Nações -, os hotéis – Myriad by Sana’, no Parque das Nações -, as sedes das empresas e os serviços – centro comercial, hospital, agências de viagens, cabeleireiros, arquitetura, advocacia, gestão, imobiliário, decoração, restauração, etc. – e atividades culturais, lúdicas, recreativas e de lazer – Pavilhão do Conhecimento, Oceanário, Teleférico, MEO-ARENA, Teatro Camões, Casino Lisboa, entre outras.

É pois, necessário continuar a implementar medidas de recuperação, reabilitação, requalificação e revitalização do centro da cidade – nomeadamente do CBD – para que o mesmo possa contribuir para a atração da população, do turismo e das atividades do Setor Terciário, dinamizando a economia do país.

 Beatriz Ferrão e Teresa Rosado, 11ºE 

(imagens originais das autoras)

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Neste artigo, continuamos a descrever o CBD de uma cidade como Lisboa. Ainda se recordam do conceito de CBD? Vamos relembrar! O CBD das cidades (em inglês,“Central Business District”) é designado por Área de Negócios Central ou “Baixa”.

Após o terramoto de 1755, o Marquês de Pombal criou uma nova planta da cidade, inspirada nas novas cidades do Mundo Novo, ou seja, de características ortogonais (de ruas direitas, paralelas e perpendiculares, cruzando-se em ângulo reto) e edifícios da mesma altura.

A ‘Baixa Pombalina’ é, pois, a área do CBD de Lisboa mais organizada, devido à sua arquitetura, com ruas largas, paralelas e perpendiculares, características facilitadas por fatores de ordem natural (relevo plano). Uma área também importante do CBD é o Chiado, de relevo mais íngreme (estende-se por uma das colinas de Lisboa), em plena harmonia com o legado histórico da região.

Uma das medidas implementadas por Pombal, na reconstrução desta área da cidade de Lisboa, foi a diferenciação espacial, onde as ruas perpendiculares ao Tejo são denominadas conforme o ofício existente na mesma – sapateiros, ourives, correeiros, etc.

Visualiza-se, assim, a especialização das ruas: Rua do Ouro, Rua da Prata, Rua dos Sapateiros, Rua dos Douradores, Rua dos Fanqueiros, etc.

Em Portugal, devido ao passado histórico, os edifícios têm uma altura média de 4/5 andares e todos da mesma altura, não havendo discrepâncias entre eles.

A rede de transportes, ou seja, a acessibilidade é um dos principais fatores que confere à ‘Baixa’ um grande dinamismo funcional: autocarros e elétricos da Carris, parques de estacionamento subterrâneos e, muito próximos, os terminais dos transportes ferroviários e fluviais.

 E as funções governativa, administrativa e industrial?

 No Terreiro do Paço (ou próximo dele) é possível encontrar serviços associados ao governo e à administração pública (vários ministérios, Juntas de Freguesia e a Câmara Municipal de Lisboa – CML). Também é possível encontrar alguns restaurantes mais caros, focalizados para os turistas, pois a localização onde se encontram (Terreiro do Paço e debaixo das arcadas dos edifícios) é privilegiada e apreciada. Também é de relevar que no Terreiro do Paço podemos encontrar vários acessos, nomeadamente os transportes públicos, elétrico (antigo e moderno) e autocarros.

No CBD é, ainda, possível encontrar a função industrial, representada por ‘ateliers’ de alta-costura, joalharias e ourivesarias, topografias e gráficas e pela indústria da panificação (pastelarias e padarias). Estas indústrias localizam-se no CBD, devido à pouca necessidade de espaço, à não poluição, quer ambiental quer sonora e pelo facto de necessitarem de um contacto próximo com o consumidor.

No Chiado predominam as atividades culturais e de lazer: Igrejas e Museus (ex: Museu de São Roque), Teatro da Trindade, Teatro São Luís, Ruínas do Convento do Carmo, Teatro Nacional de São Carlos (Ópera), entre outros; livrarias com algum passado histórico (Bertrand, Sá da Costa), lojas de luxo (Hugo Boss, Hermès), comércio antigo e típico, comércio de retalho, ou comércio vulgar, muitas lojas de roupa e hotéis (Hotel Borges Chiado, Hotel do Chiado, Bairro Alto Hotel).

E a função residencial?

Estas (e outras) características do CBD da cidade de Lisboa serão enunciadas no próximo artigo: NÃO PERCAM!

Beatriz Ferrão e Teresa Rosado, 11ºE 

(fotos originais das autoras)

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O que é o CBD de uma cidade?

O CBD das cidades (em inglês, Central Business District) é designado por Área de Negócios Central ou “Baixa”. Na maior parte das cidades estrangeiras, os emblemáticos arranha-céus dominam o CBD, como é o caso de Nova Iorque, do Dubai ou de Tóquio. Vejam, por exemplo, o CBD de uma grande cidade: NOVA IORQUE!

E Lisboa? Fomos descobrir a “Área de Negócios Central” da nossa capital!

Assim, ao visitarmos o CBD de Lisboa pudemos conhecer, compreender e aprofundar, in loco, os conteúdos programáticos adquiridos, não somente na disciplina de Geografia A (com o aprofundamento de matérias dadas, como a população, os serviços e comércio, as características das cidades), mas, também, nas disciplinas de Português (com o estudo do Sermão de Sto. António e a importância da retórica e das igrejas) e de História (com as reformas na cidade de Lisboa pós-terramoto de 1755, feitas pelo Marquês de Pombal).

O que se pode encontrar no CBD?

Esta área é a mais importante de toda a cidade, que atrai visitantes e os próprios citadinos, devido à elevada concentração de serviços e de transportes. O CBD da cidade de Lisboa ou ‘Baixa’ tem uma intensa atividade comercial. Neste espaço da cidade, podemos encontrar maioritariamente atividades do Setor Terciário: serviços, restauração, espaços de cultura, hotéis, estabelecimentos comerciais, companhias de seguros, escritórios de advogados, sedes de grandes empresas, escritórios, teatros, museus, lojas, sedes e instalações bancárias (Caixa Geral de Depósitos, Banco de Portugal, BBVA, Banco Popular, Banco Espirito Santo), muitas esplanadas, cafés, gelatarias, quiosques de jornais e revistas, ourivesarias e joalharias, estas últimas ligadas às áreas especializadas da cidade, como iremos referir.

O comércio, ou seja a função comercial, satisfaz todas as bolsas, necessidades e caprichos. Encontramos atividades comerciais, desde o comércio vulgar ao comércio especializado e aos bens raros. O comércio predominante na “Baixa” é o comércio retalhista, onde existe a venda de bens diretamente ao consumidor e em quantidades limitadas.

O comércio vulgar é composto por lojas de souvenirs, lojas de roupa denominadas comuns (Zara, H&M, Bershka,  Mango, Stradivarius), mini mercados (Amanhecer, Minipreço, Pingo Doce), etc.

Para além do comércio vulgar, o CBD de uma cidade concentra, também, comércio de luxo, e a “Baixa” de Lisboa não é uma exceção! Em mais de 1,5 km, encontram-se as lojas mais conceituadas e luxuosas da cidade, com produtos bastante caros, como são exemplos a Gucci, a Prada e Marc by Marc Jacobs.

O comércio especializado também existe na “Baixa”, em lojas ou bancas que oferecem um determinado tipo de produto muito especializado, onde este raramente se pode encontrar comumente, como em centros comerciais. Engloba lojas com um determinado produto apenas existente naquela área da cidade, dirigido para um público-alvo, muito específico, apreciador ou necessitado deste tipo de produtos. Exemplos deste tipo de comércio são as lojas especializadas em conservas tradicionais portuguesas como o exemplo da célebre Conserveira de Lisboa, lojas de instrumentos musicais, com instrumentos caros e bastante difíceis de serem encontrados, como o exemplo da loja Violino, padarias típicas portuguesas, ou livrarias. Exemplos ainda mais ilustrativos de comércio bastante especializado são lojas que pudemos observar na “Baixa”, uma de cosmética biológica e, outra, uma padaria biológica.

Outro tipo de comércio encontrado na “Baixa” é o comércio de bens raros. Este como o nome indica vende bens difíceis de encontrar, com grande valor histórico e cultural e, claro, como tudo indica, de grande valor monetário. Neste tipo de comércio encontramos os alfarrabistas, (os vendedores de livros antigos e, por vezes, de exemplares únicos) e os antiquários, onde se vendem desde peças de mobiliário a peças litúrgicas.

E as funções governativa, administrativa e residencial?

Estas (e outras) características do CBD da cidade de Lisboa serão enunciadas no próximo artigo! NÃO PERCAM!

Beatriz Ferrão e Teresa Rosado, 11ºE 

(fotos originais das autoras)

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A nossa bibliblogueira residente quase desde o início, Cristina Teixeira (professora), autora já da rubrica “A Morte da Estética”, propõe-nos agora uma nova série de artigos, que se iniciam com o que hoje se publica, sob o título “Grande Lisboa” – grande porque pretende abranger uma grande diversidade de temas, grande porque pretende também celebrar a grandeza (e talvez também a miséria) da nossa capital, mas grande, finalmente, porque abrangerá a literalmente conhecida área metropolitana com a mesma designação. Aqui se inaugura então esta nova rubrica com um texto sobre o “Bairro Alto” quando acaba de cumprir 500 anos.

bairro altoCompletaram-se no passado mês de dezembro 500 anos sobre o arranque da urbanização do Bairro Alto. Verdadeiro palco iniciático da vida boémia da cidade, foi este bairro, ao longo destes séculos, palco de vivências diversificadas, intensas e sobrepostas, que têm marcado indelevelmente o sítio. Do fado aos bordéis, do jornalismo à moda, à arte, à música e à restauração, é um bairro que se tem ”reinventado”, nunca perdendo dinamismo e vibração.

Foi quando, nos anos 80, Manuel Reis abriu o bar Frágil, que a vida noturna explodiu na cidade e se polarizou neste atlbairro. A partir de então tornou-se território de eleição de todas as tribos urbanas que à noite o invadem, infelizmente cada vez mais indiferenciadas, do género adolescente de litrosa de cerveja na mão, deixando como despojos da sua passagem garrafas espalhadas pelo chão, paredes grafitadas e esquinas transformadas em urinóis, prejudicando gravemente a vida dos seus pacatos residentes e afastando frequentadores. Ainda que outras zonas da cidade surjam, esporadicamente, como locais de eleição para a noite, o Bairro (como familiarmente é conhecido) nunca perdeu o seu protagonismo e permanece, para a vida noturna, a verdadeira referência. Para além de sítio de copos e divertimento, ali surgiu, nos anos que seguiram ao 25 de Abril, a geração que havia de ensaiar tipos de cultura urbana, trazida de outras latitudes, proporcionando uma revolução de mentalidades. O Bairro apresenta características que tal favorecem: é IMG_01251muito central, mas simultaneamente é protegido por “fronteiras” bem definidas (a Norte pela Rua D. Pedro V, a sul pelo Largo de Camões e pela Calçada do Combro, a Oeste pela Rua do Século e a Este pela Rua da Misericórdia e a Igreja de São Roque), o que o tornam um recinto quase privado dentro da cidade. As ruas estreitas e empedradas, e algo labirínticas (para o que concorre a ausência de uma praça ou largo central) tornaram-no ideal para acolitar as vivências mais extravagantes, alternativas e criativas, que ao longo do tempo têm convergido neste espaço.

A Lisboa do tempo de D. Manuel era uma das capitais europeias mais dinâmicas e cosmopolitas da época. Do Oriente chegavam ao Tejo todo o tipo de produtos, riquezas e exotismos. A cidade muralhada tornou-se incomportável para tanta gente. O rei D. Manuel adquiriu os terrenos na colina contígua às portas de Santa Catarina às famílias Andrade e Atouguia para aí construir um novo bairro, de acordo com um plano urbano moderno, alternativo à velha urbe, de malha ainda medieval, e de matriz árabe. Foram aí implementados os preceitos racionalistas do Renascimento: um bairro ortogonal, de ruas direitas, grande-panorama-de-lisboa_santa-catarina-sao-bento_sec-xviiparalelas e perpendiculares (rua principal e travessa), organizadas pela lógica do quarteirão. A este bairro foi dado o nome de Vila Nova de Andrade e deveria albergar funcionários ligados ao comércio e faina marítima, entre eles, os estrangeiros que nessa altura se estabeleceram em Lisboa, como cosmógrafos e comerciantes, também ligados à mesma atividade, e que procuraram esta zona de Santa Catarina para construir os seus palacetes. Quando os jesuítas se instalaram na ermida de São Roque, naquela colina ocidental de Lisboa, e posteriormente aí construíram o seu convento, no que hoje é a Igreja de são Roque e o complexo da Misericórdia, nobilitaram a zona, e alguma aristocracia, sobretudo a de toga, e também o clero, subiram da Ribeira e ali construíram os seus palácios e conventos, na zona extra-muros da cidade.

planta de lxTodo o bairro foi construído de acordo com normas construtivas de grande simplicidade. A Provedoria de Obras Reais era o organismo que definia e assegurava que as construções seguissem as normas: a “aplicação de métricas proporcionais, a estandardização de elementos arquitetónicos e a uniformização de acabamentos” (Helder Carita). O material utilizado era a alvenaria de pedra e cal, com vãos e cantos reforçados a pedra de lioz; os planos de fachada deveriam ser lisos e contínuos, tendo como saliência máxima um palmo e meio para a sacada, e seguir um determinado padrão para a sequência de janelas de sacada e peitoril, as escadas teriam que ser interiores e toda uma pauta a que os próprios mosteiros e palácios tiveram que se submeter. No século XVIII tornou-se um bairro aristocrático e cultural, com um teatro e academias. Quando o terramoto de 1755 destruiu Lisboa, o Bairro Alto foi, de certa forma, poupado, sobretudo a parte mais alta da Vila Nova de Andrade, isto é, o Bairro Alto, designação que então se divulga. Os edifícios que foram construídos em substituição dos arruinados, delimitam o bairro e a simplicidade das fachadas vai ser reforçada pelo rigoroso programa pombalino, embora algumas alterações vão então ser permitidas, como algumas notas barrocas no próprio palácio do Marquês de Pombal, construído na fronteira oeste do bairro, na Rua da Século.

A malha urbana densifica-se e os prédios sobem uns pisos. No século XIX impera a burguesia, e na segunda metade de oitocentos muitos nobres vendem os seus DSC_0185_149palacetes na zona (embora ainda sobrevivam alguns habitados pelos descendentes das famílias fundadoras), sobretudo aos jornais e às tipografias, dada a enorme expansão da imprensa nessa altura. Esta apropriação do bairro pelos mais importantes jornais do país, deram o cariz boémio ao bairro, uma vez que jornalistas e tipógrafos trabalhavam pela noite dentro, servindo-se das tascas e casas de pasto a altas horas da noite. Hoje em dia, apenas aí subsiste teimosamente o jornal desportivo “A Bola”. Aos jornalistas juntaram-se a partir do último quartel do 704Adega Machado, Bairro Altoséculo XX, os estudantes, os artistas e os escritores. E ultimamente todos os turistas e estrangeiros residentes, que procuram Lisboa e o seu bairro de eleição. A sua frequência é transversal a várias gerações e a diferentes culturas, até porque alberga alguns dos restaurantes mais sofisticados da cidade, como o Pap’ Açorda, o Casa Nostra ou o Decadente, que existem a paredes meias com casas de pasto e tascas abarracadas. O mesmo se passa com as lojas, como por exemplo a de design premium,  Loja da Atalia e outros estúdios de estilistas de renome, que se acotovelam com as tradicionais capelistas e as mercearias de esquina. Ainda a mesma lógica “promíscua” e democrática nas habitações, – vetustos casebres avizinham-secinema_terraco1 com condomínios de luxo, como os do Convento dos Inglesinhos. O mesmo também se verifica nos espaços culturais: O Conservatório Nacional, instalado no antigo Convento dos Caetanos, e a alternativa galeria ZDB, convivem bem com as associações recreativas populares do bairro.

É tudo isto que torna o Bairro Alto, desde 2010 classificado com Conjunto de Interesse Público (CIP), num pequeno mundo muito particular dentro da cidade.

Nota da autora: Este artigo foi escrito a partir de notas recolhidas numa visita de estudo organizada pelo arquiteto Hélder Carita ao Bairro Alto, no âmbito da comemoração dos seus 500 anos, assim como em documentos fornecidos pela organização “Eu amo Lisboa” que a programou, e na separata do jornal Expresso (Revista, 23 NOV/13) “BAIRRO ALTO, 500 aos de vida na colina”.
Cristina Teixeira

imagens daqui, daqui, daqui, daquidaqui e daqui

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No rescaldo dos grandes prémios de cinema, sobressaem algumas estreias interessantes: A última vez que vi Macau, complementado com a curta- metragem Alvorada vermelha, ambas de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra de Mata, estrearam-se comercialmente ao mesmo tempo que foi noticiado que o primeiro foi selecionado, juntamente com As linhas de Wellington de Valerie Sarniento, para a 29ª edição do festival de Villeurbanne, França, na categoria de “reflexos do cinema ibérico e latino-americano”.  A aguardada estreia de Comboio noturno para Lisboa, do dinamarquês Bille August, adaptação do romance homónimo de 2004 de Pascal Mercier, pseudónimo literário do filósofo Peter Bieri, trouxe a Lisboa realizador, escritor e os atores Jeremy Irons e Christopher Lee de uma obra que tem o mérito de divulgar a capital  a nível turístico.

De Espanha chega-nos o filme mudo e a preto e branco, adaptação do famoso conto dos irmãos Grimm com argumento e realização de Pablo Berger, Branca de  Neve, o grande vencedor dos Prémios Goya, arrecandando 10 estatuetas. Coincidindo com  a realização do Fantasporto estreou-se o sucesso de bilheteira, Mamã, do realizador argentino Andrés Muschietti, uma coprodução hispano-canadiana de Guillermo del Toro, que venceu os prémios de melhor filme, melhor realizador e melhor actriz (Jessica Chastain) na secção de Cinema Fantástico da 33ª edição daquele festival. Neste emblemático evento na longa lista dos galardões atribuídos merece destaque o Prémio Carreira, atribuído ao realizador português António de Macedo e a homenagem a Manoel de Oliveira, na passagem dos 70 anos sobre a estreia de Aniki-Bóbó (1942). Na secção exclusivamente dedicada ao Cinema Português, foi distinguido o documentário de Luís Moya, Mia Mia Sudan Tamam Tamam, sobre o povo do Sudão e Restart, trabalho coletivo do Instituto de Criatividade, Artes e Novas Tecnologias, de Lisboa (Prémio Escolas de Cinema).

Igualmente aguardado com expetativa Oz – O grande e poderoso de Sam Raimi que, apesar da grandeza que os meios técnicos proporcionam, não consegue suplantar a magia do clássico de 1932 realizado por Victor Fleming. Referência, de igual modo, para as seguintes estreias: o comovente drama franco-belga  Ferrugem e Osso com argumento e realização de Jacques Audiard  e excelentes interpretações de Marion Cotlliard e Mathias Schoenaerts;  a animação para todas as idades de Os croods de Chris Sanders e Kirk DeMicco e As fantásticas aventuras de TAD de Enrique Gato; o argumento divertido e absurdo de Sete psicopatas de Martin Mcdonagh e a descontração de Robô e Frank de Jack Shreir; da Dinamarca  o drama histórico Um caso real de Nikolaj Arcel, nomeado para o Óscar de melhor filme estrangeiro e que relata os factos verídicos ocorridos no reinado de Christian VII, no século XVIII,  que vão contribuir para a implantação dos ideais iluministas, e ainda, o perturbante e intenso, A caça de Thomas Vinterberg. Por fim, Terra prometida de Gus Van Sant com Matt Damon como ator, co-argumentista e produtor  e um elenco de luxo  num  belo filme de mensagem e de confronto entre o dinheiro e a tradição.

Como prova do reconhecimento da qualidade da cinematografia nacional, o realizador Miguel Lopes vai presidir à Semana de Crítica do festival de Cannes 2013. A longa-metragem do realizador português João Canijo Sangue do meu sangue volta a ser distinguida a nível internacional tendo, desta vez, sido distinguida com o grande prémio do Festival Cinema Mundi, na República Checa. Quanto a eventos nacionais, a 10ª edição do Indielisboa, festival internacional de cinema independente, realiza-se de 18 a 28 abril e, contrariando a crise, apresenta 250 filmes estrangeiros e portugueses na Culturgest, cinemas São Jorge e City Alvalade e Cinemateca, revelando-se mais uma oportunidade para apreciarmos uma diversidade de obras.

Relembro que continua, no bar Bicaense, o ShortcutzLisboa, movimento internacional de curtas metragens, com a exibição, às 3ª feiras, de três curtas metragens, sendo uma convidada e as outras duas em competição para a melhor do mês e sempre com a presença de personalidades do meio cinematográfico. Na Casa da América Latina, de abril a outubro, são apresentados documentários para dar a conhecer escritores da literatura latino-americana numa iniciativa denominada “Escritores en primera persona”. Num período em que o país é apresentado como o que perdeu mais espetadores de cinema, no ano transato, conforme informação do Observatório Europeu do Visual, estas iniciativas representam um estímulo para os apreciadores da 7ª arte.

Luísa Oliveira

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No dia da cidade e dois anos após a sua morte, José Saramago volta para ficar definitivamente em Lisboa com a abertura da fundação que leva o seu nome na Casa dos Bicos e uma exposição que não podia ter um título mais sugestivo para este regresso: A semente e os frutos.

E, apesar de ter um dia partido zangado, Lisboa era sem dúvida uma das suas paixões, ou não tivesse escrito o texto que aqui reproduzimos.

Fernando Rebelo

imagem daqui

Tempo houve em que Lisboa não tinha nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os Romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Aschbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147 depois de um cerco de três meses, os mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: se aquele que iria ser rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissibona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se Portugueses…

Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exacto sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se como um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as coisas.

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.

O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar. Quando tive de recriar o espaço e o tempo de Lisboa onde Ricardo Reis viveria o seu último ano, sabia de antemão que não seriam coincidentes as duas noções do tempo e do lugar: a do adolescente tímido que fui, fechado na sua condição social, e a do poeta lúcido e genial que freqüentava as mais altas regiões do espírito. A minha Lisboa foi sempre a dos bairros pobres, e quando, muito mais tarde, as circunstâncias me levaram a viver noutros ambientes, a memória que preferi guardar foi a da Lisboa dos meus primeiros anos, a Lisboa da gente de pouco ter e de muito sentir, ainda rural nos costumes e na compreensão do mundo.

Talvez não seja possível falar de uma cidade sem criar umas quantas datas notáveis da sua resistência histórica. Aqui, falando de Lisboa, foi mencionada uma só, a do seu começo português: não será particularmente grave o passado de glorificação… Sê-lo-ia, sim, ceder àquela espécie de exaltação patriótica que, à falta de inimigos reais sobre que fazer cair o seu suposto poder, procura os estímulos fáceis da evocação retórica. As retóricas comemorativas, não sendo forçosamente um mal, comportam no entanto um sentimento de autocomplacência que leva a confundir as palavras com os actos, quando as não coloca no lugar que só a eles competiria.

Naquele dia de Outubro, o então ainda mal iniciado Portugal deu um largo passo em frente, e tão firme foi ele que não voltou Lisboa a ser perdida. mas não nos permitamos a napoleónica vaidade de exclamar: “Do alto daquele castelo oitocentos anos nos contemplam” – e aplaudir-nos depois uns aos outros por termos durado tanto… Pensemos antes que do sangue derramado por um e outro lados está feito o sangue que levamos nas veias, nós, os herdeiros desta cidade, filhos de cristãos e de mouros, de pretos e de judeus, de índios e de amarelos, enfim, de todas as raças e credos que se dizem bons, de todos os credos e raças a que chamam maus. Deixemos na irónica paz dos túmulos aquelas mentes transviadas que, num passado não distante, inventaram para os Portugueses um “dia da raça”, e reivindiquemos a magnífica mestiçagem, não apenas de sangues, mas sobretudo de culturas, que fundou Portugal e o fez durar até hoje. 

Lisboa tem-se transformado nos últimos anos, foi capaz de acordar na consciência dos seus cidadãos o renovo de forças que a arrancou do marasmo em que caíra. Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão. Mas o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades. Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: “cidade que facilmente das outras é princesa”. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada, sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim.

in O Caderno, Lisboa, Caminho, 2009

Notícia e fotogaleria da abertura da fundação e da exposição na Casa dos Bicos (Expresso)

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Percorrendo os textos que Fernando Pessoa deixou sobre Lisboa, o filme propõe um périplo cinematográfico pela cidade. Através da visão heteronímica do poeta o filme recria um território imaginário e intemporal, possivelmente um não – lugar povoado de “ficções do interlúdio”.

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O terramoto que assolou Portugal em Novembro de 1755 pode ter sido há alguns séculos, no entanto várias expressões populares, como “cair o Carmo e a Trindade” e “rés-vés Campo de Ourique” relativas ao acontecimento em questão, permaneceram no vocabulário dos portugueses. Muitos são os que hoje ainda as usam, mas poucos são os que conhecem a sua origem.

Se dermos hoje um passeio por Lisboa, encontraremos ainda muitas igrejas, antigos conventos, porém, em 1755 Lisboa era coroada por dois grandes edifícios de cariz religioso: o Convento da Trindade e o Convento do Carmo. O primeiro pertencia a Ordem dos Trinitários (religiosos encarregues de resgatar cativos aos mouros), tinha sido construído em meados do séc. XIV, no lugar de uma antiga ermida e era o mais antigo convento de Lisboa; o segundo foi fundado pelo Santo Condestável (D. Nuno Álvares Pereira) no final do séc. XIV em cumprimento de um voto, e entregue à Ordem do Carmo (fundada em finais do séc. XI na antiga cidade de Porfíria, hoje em Israel) da qual o próprio Condestável passou a fazer parte.

Convento do Carmo: antes (reconstituição) e depois do terramoto

Quando o sismo, com epicentro ao largo do sul de Portugal, atingiu a cidade de Lisboa, a 1 de Novembro de 1755,  logo pela manhã, os dois conventos, que, tal como muitos outros templos estavam cheios de fiéis que assistiam à missa do Dia de Finados, caíram; tal como caíram centenas de outros edifícios: igrejas, palácios, nomeadamente o próprio palácio real, o Paço da Ribeira (a família real teve sorte, estava no palácio de Belém), mudando assim para sempre a imagem de Lisboa. Deste acontecimento deriva a expressão “cair o Carmo e a Trindade”, que é utilizada para referir um acontecimento com  carga negativa ou algo que se pensa ter grandes proporções.

gravura de Georg Hartwig, 1887

Já a segunda expressão“rés-vés Campo de Ourique”é utilizada quando surge a necessidade de expressar alguma proximidade, por exemplo “a água chegou rés-vés a Campo de Ourique”, que foi o que de facto aconteceu na manhã do primeiro de Novembro de 1755, quando a onda gigantesca (tsunami) que sucedeu ao terramoto galgou terra e atingiu um dos pontos mais altos da cidade, precisamente Campo de Ourique.

Hoje, o que resta do Convento da Trindade faz parte de uma cervejaria e de edifícios contíguos. O Convento do Carmo, por seu turno, é mais conhecido devido ao seu estado de ruína  que mantém desde esse fatídico dia (albergando o museu de arqueológico do Carmo e parte do quartel da GNR). Quanto à chegada da água a Campo de Ourique apenas se pode especular, visto que a única fonte física será uma linha marcada no Convento de Santa Engrácia, vestígio da altura que a água atingiu durante o maremoto.

Luís Fernandes, 12ºD

imagens daqui, daqui e daqui

Veja também:

  • uma reconstituição de Lisboa antes do terramoto aqui e aqui
  • um documentário sobre o terramoto de 1755 aqui

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Stª Engrácia, mártir do séc. IV

O facto de ser o primeiro edifício em estilo barroco a ser construído em Portugal e certamente o último, dá à igreja de Santa Engrácia (actualmente Panteão Nacional) um certo protagonismo, ou não fosse a sua construção uma obra com mais de 350 anos.

A  igreja foi iniciada no ano de 1568, no local de um antigo templo de meados do séc. XII, por ordem de D. Maria de Portugal, filha de D. Manuel I, para receber o relicário de Santa Engrácia, tendo sido apenas concluída quatrocentos anos mais tarde, já no nos anos 60 do séc. XX, por ordem de Salazar, não já como igreja, mas como Panteão Nacional, onde repousam as figuras notáveis da História de Portugal, como Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, Sidónio Pais, Humberto Delgado  e Amália Rodrigues.

Stª Engrácia, reconstrução (anos 60)

A expressão “como as obras de Santa Engrácia”, comum na língua corrente, é utilizada para referir-se a algo que não chegará a acontecer, ou que demorará muito a acontecer.

A história da atribulada construção do edifício está ligada uma estoria popular. Esta conta que a construção da igreja teria sido amaldiçoada como consequência de um amor impossível. Violante, filha de um importante fidalgo, ter-se-ia perdido de amores por um cristão-novo, Simão Pires Solis. O pai da jovem, que não via com bons olhos o amor dos dois apaixonados, conseguiu encerrar a filha no convento de Santa Clara que se situava ao lado da igreja de Santa Engrácia, ainda em construção. Simão Solis não negou o seu amor por Violante e continuou a cavalgar todas as noites até ao convento para se encontrar com a sua amada. Certo dia, propôs a Violante que fugissem edeu-lhe uma noite para se decidir, pois no dia seguinte viria buscá-la. Por coincidência, nessa noite, foi roubado o relicário  de Santa Engrácia, tão cara à infanta D. Maria. No dia seguinte, Simão Solis foi preso e acusado de ser o autor do roubo mesmo depois de se considerar inocente, não podendo revelar a razão pela qual rondava a igreja todas as noites,  pois comprometeria a sua amada.

Devido a tal facto e agravado pela sua ascendência judaica, Simão Solis foi condenado à morte na fogueira. Diz-se que no momento da execuação terá lançado uma maldição enquanto as labaredas envolviam o seu corpo: “É tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem!”.

Stª Engrácia (Panteão Nacional) hoje

Ainda, segundo a lenda, anos mais tarde, a noviça Violante terá sido chamada à presença de um moribundo quando este estava às portas da morte, pois queria confessar-lhe que tinha sido ele o ladrão do relicário de Santa Engrácia. Conhecedor da relação secreta de Simão Pires e Violante, tinha incriminado o jovem rapaz, que por ali era visto quase todas as noites, e queria agora pedir perdão à mulher que perdera o seu amor da maneira mais cruel e injusta que alguém poderia perder – mas o perdão foi aceite.

De facto, existem nos registos da paróquia referências ao “Desacato de Santa Engrácia”, ocorridos na noite de 15 de Janeiro de 1630, data em que um tal  Simão Pires Solis teria sido condenado a morte.

Se a estoria é total ou parcialmente verdade, não sabemos, mas isso também pouco interessa… a verdade é que, entre incêndios, terramotos e escassez de meios, a igreja de  Santa Engrácia acabou por  só ser concluida mais de 3 séculos depois, cumprindo assim, conforme “reza a história”, a profecia  do injustiçado Simão Solis, que acabou por providenciar à língua portuguesa uma expressão muito conveniente.

Luís Fernandes, 12º D

imagens daqui, daqui, daqui e daqui

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