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Posts Tagged ‘Filmes’

O Festival de Cannes continua a marcar o mundo cinematográfico no mês de maio.  Na 72ª edição o cinema de autor marcou uma forte presença, sendo que a Palma de Ouro foi atribuída ao realizador coreano Bong Joon Ho com The Host – a criatura volta.  Considerado um filme de terror, revela o mal-estar da sociedade coreana a partir da história de uma família pobre que planifica   o assalto à residência de um casal abastado.

No que respeita a estreias, muitas das películas têm como base factos verídicos, como é o caso de O professor e o louco de Farhad Safinia, relacionados com a criação, no século XIX, do conceituado Oxford English Dictionary de importância vital para os que utilizam a língua inglesa. A partir do best seller de Simon Winchester, Mel Gibson e Sean Penn interpretam, respetivamente, o professor James Murray, principal organizador do dicionário e o Dr. William Chester Minor, veterano da guerra civil americana que colaborou de longe pois estava preso num asilo para criminosos loucos.

Também a partir de factos verídicos, mas traumatizantes, Hotel Mumbai do australiano Anthony Maras, com testemunhos reais e fonte documental, debruça-se sobre as vítimas e sobreviventes dos ataques terroristas na cidade indiana de Mumbai em 2008, nomeadamente, no hotel de luxo Taj Mahal Palace. A obra demonstra de forma brutal o trágico pesadelo vivido por todos que se encontravam no espaço dominado pelos terroristas.

Mas a principal estreia do mês foi o aguardado e elogiado filme de Dexter Fletcher, Rocketman, sobre o percurso musical do ícone da música pop Elton John. Numa obra com excelente banda sonora, o ator Taron Egerton é brilhante ao encarnar o carismático músico na idade adulta vivendo, por vezes, momentos atribulados, mas que o vão tornar uma superestrela do mundo musical. Também com caráter autobiográfico mas numa área diferente, temos Uma família no ringue de Stephen Merchand, inspirado na extraordinária história de vida da britânica Paige, uma superestrela da WWE (World Wrestling Entertainment) que se retirou da competição de luta livre profissional em 2018 por motivos de saúde. 

O período de Guerra Fria e o perigo que representava para a humanidade devido ao confronto latente entre os EUA e URSS continua a ser um tema recorrente, como podemos verificar em Uma traição necessária de Trevor Nunn, com Judi Dench   interpretando a protagonista de um filme não só de espionagem mas também sobre a condição feminina. A obra baseia-se no romance de Jennie Rooney, inspirado na história real de Melita Norwood, conhecida por “avó espia” quando foi presa no final da década de 1990.  Os seus atos como agente de espionagem ao serviço do KGB são justificados não por razões ideológicas mas porque julgam ter sido manipulada pelo facto de ser uma mulher com uma ligação sentimental a um militante comunista.

Uma outra perspetiva do período da Guerra Fria e da censura na Rússia pode ser encontrada em Verão de Kirill Serebrennikov, que mostra como o rock servia para a juventude se libertar da opressão política e social em que vivia e através dessa manifestação musical prosseguir os seus sonhos de liberdade artística. Com momentos musicais dos anos 80 do século XX é uma obra a preto e branco, tendo o realizador estado em prisão domiciliária desde agosto de 2017 o que inviabilizou a sua presença no festival de Cannes 2018. No passado mês de abril um tribunal de Moscovo decretou liberdade de movimentos desde que não abandone o território russo.

A vitalidade do cinema francês aparece na divertida comédia de enganos Os Velhos jarretas de Christophe Duthuron sobre a forma como um grupo de amigos idosos enfrentam questões pessoais do passado por resolver. Igualmente interessante e divertido, O que me ficou da revolução de Judith Davis é uma forma de debater o papel e a força da ideologia num mundo global.  Num género diferente, o thriller psicológico, misturando terror e drama, surge-nos O intruso de Deon Taylor.  Para os admiradores do western, temos Billy the Kid: a lenda de Vincent D` Onofrio, abrangendo o último ano de vida do icónico fora-da-lei.  

Por fim, estreou-se a película de ficção Godzilla II: rei dos monstros de Michael Dougherty, destacando-se as batalhas épicas de monstros que fazem parte da cultura popular. Como estamos no período estival, a Associação Gandaia, sediada na Costa de Caparica, tem um programa ambicioso para animar os cinéfilos durante os meses de verão, prosseguindo com os seus ciclos de cinema, sendo que julho é dedicado ao realizador Richard Linklater, com as obras apresentadas todas as quintas feiras no Auditório da Costa de Caparica. Na Praça de Liberdade, nos meses de julho e agosto, é apresentado um evento de cinema ao ar livre às sextas e sábados, o que é um bom pretexto para descontrair e usufruir das altas temperaturas do verão.

Luísa Oliveira

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Durante os dias 29 de abril e 02 de maio, decorreu na Escola Secundária Daniel Sampaio a 2ª Mostra do Filme Solidário realizada, este ano lectivo, no nosso Agrupamento.

Tratou-se de uma atividade dinamizada pelas Bibliotecas (VR+DS), no âmbito da Educação para a Cidadania. A Mostra do Filme Solidário consiste na apresentação de curtas-metragens de carácter não comercial que visam a reflexão sobre comportamentos sociais e temáticas de impacto global: desenvolvimento sustentável (Norte global/ Sul Global), Objetivos do Milénio, ODS (Objectivos de Desenvolvimento Sustentável), igualdade de género, ambiente, exemplos positivos, comportamentos de risco, violência, fome, direitos de autor.

Nestas sessões, participaram alunos de turmas do 7º ao 12º ano, num total de nove turmas. Em cada uma das sessões, após a visualização das curtas, iniciou-se o debate que contou com a intervenção interessada e pertinente de muitos alunos e professores. Estes momentos foram mediados e dinamizados por Pedro Santos um dos voluntários da produtora independente HelpImages. O Pedro deu-nos a conhecer a missão desta ONG e o modo como filmes tão curtos carregam em si mensagens tão vastas. Nesta exploração, houve leituras polémicas, houve leituras consensuais. Houve debates mais entusiastas, outros menos empolgados, mas em todos eles esteve sempre presente a perceção do enriquecimento mútuo que estas horas de diálogo descontraído nos trouxeram.

Assim, saímos todos com uma certeza: se queremos um mundo melhor e mais sustentável, essa responsabilidade cabe a cada um de nós, sem exceção, pois não há Planeta B.

Dulce Sousa (professora-bilbiotecária da EBVR)

aceda à aos filmes exibidos na mostra

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No mês em que se comemora o fim do regime ditatorial em Portugal estrearam-se documentários aliciantes que contribuem para preservar a memória. Da nossa vizinha Espanha, O silêncio dos outros, de Almudena Carracedo e Robert Bahar e produção de Pedro Almodóvar, é um retrato realista das vítimas e sobreviventes das décadas da ditadura de Francisco Franco. Filmado ao longo de seis anos, conquistou o prémio Goya para Melhor Documentário e o do público da secção Panorama do Festival de Berlim. Apresenta testemunhos sobre todos os tipos de violação dos direitos humanos de que os espanhóis foram alvo nesse período mas que não são reconhecidos pelo poder central pois a Lei da Amnistia de 15 outubro de 1977 libertou os presos políticos mas os que cometeram os crimes foram ilibados dos mesmos.

As vítimas de regimes ditatoriais são globais como demonstra Almas mortas de Wang Bing, uma obra sobre as purgas maoístas dos anos 50 e 60, abordando os sobreviventes dos campos de reeducação localizados no extenso deserto de Gobi onde ficaram esquecidos e muitos morreram à fome. Ainda sobre a China, o brasileiro Walter Salles realizou Jia Zhang-Ke, um homem de Fenyang sobre o cineasta reconhecido pela sua criatividade, sendo o documentário um pretexto para reflexão sobre a sociedade chinesa e todas as alterações verificadas a nível da família, cultura e espaços urbanos.

Também focando uma personalidade importante da área cultural Piazzola, os anos do Tubarão, de Daniel Rosenfeld, apresenta, a partir de imagens do arquivo privado familiar, um retrato do lendário músico e compositor argentino Astor Piazzola, falecido em 4 julho de 1992, que revolucionou o tango, tornando-o um género musical de vanguarda durante décadas.

O desempenho de atrizes enriquece e valoriza muitos filmes e estrearam-se vários em que a prestação feminina é determinante para o sucesso dos mesmos. Do Cazaquistão, podemos apreciar uma excelente e dura película que retrata algumas realidades sociais com Ayka  de Sergei Dvortsevoy, que  no festival de Cannes 2018 atribuiu o prémio de melhor atriz a  Samal Yeslyamova  no papel  da  protagonista  do título que, vivendo numa situação ilegal em Moscovo,  procura, de forma desesperada, o seu bébé  abandonado num hospital.  Outra estreia de grande qualidade é o drama histórico Anoitecer escrito e realizado pelo húngaro László Nemes com Juli Jakab  no papel da protagonista Írisz Leiter, procurando  trabalho numa luxuosa loja de chapéus,  em Budapeste, que tinha pertencido, anteriormente, à sua família. As acções que expõem o retrato psicológico da protagonista aliam-se aos sinais premonitórios do início da 1ª guerra mundial.

Ainda sobre temas ligados aos conflitos mundiais, O dia a seguir de James Kent retrata  as convulsões emocionais  e traumáticas na Alemanha no 2º pós guerra, com Keira Knightley a brilhar neste drama de época formando um triângulo amoroso com Jason Clarke e Alexander Skarsgard  num período  marcado por mudanças pessoais e de superação de conflitos internos. Numa temática diferente mas, igualmente, com desempenho meritório feminino, Isabelle Huppert sobressai no filme de suspense e terror Greta – viúva solitária do realizador irlandês Neil Jordan, mostrando como a solidão nas grandes cidades pode conduzir a estados psicóticos, tendo Chloe Grace Moretz no papel de uma jovem e  indefesa  vítima. Sem abandonarmos o género terror, tivemos a estreia da nova adaptação da afamada obra de Stephen King Samitério de animais realizado por Kevin Kolsch e Dennis Widmver trinta anos após a primeira versão para o cinema. Desta vez há algumas alterações ao original publicado em 1983 que apresenta alguns elementos autobiográficos mas mantém-se o mesmo enredo sobrenatural   e aterrador.

Constituindo um divertimento agradável, a comédia francesa Outra de Daniel Auteuil mistura fantasia e romance com prestações características desta cinematografia. Também produção de francesa e baseada em factos reais, A incrível história do carteiro Cheval de Nils Tavernier mostra como os sonhos podem tornar-se reais quando Joseph FerdinandCheval, entre 1879 e 1912, idealiza um palácio para a sua adorada  filha,  em Hauterives, sendo classificado como monumento histórico em 1969. Para o público infantil, Parque das maravilhas de David Feiss surge repleto de imaginação e alegria.

Finalmente, o festival independente Indie Lisboa apresenta a sua 16ª edição de 2 a 12 maio com um vasto programa marcado pela diversidade, o que é sempre um pretexto para visionar variadas obras de qualidade.

Luísa Oliveira

 

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Em 24 de março realizou-se, no Casino Estoril, a 7ª edição dos Prémios Sophia, organizados pela Academia Portuguesa de Cinema. “Raiva” de Sérgio Tréfaut foi o grande vencedor e entre os vários prémios que recebeu foi distinguido como o Melhor Filme de 2018. Filmado a preto e branco, é a adaptação do clássico do neorrealismo português de 1958 “Seara de Vento” de Manuel da Fonseca e, a partir de factos verídicos ocorridos em Beja em 1930, relata a história de um trabalhador rural que, perante uma grande injustiça e exploração laboral de que era vítima, perde a razão e transforma-se num assassino.

Quanto a estreias, Chuva é cantoria na aldeia dos mortos de João Salaviza e Renée Nader Messora, premiado em vários festivais entre os quais o prémio especial do júri “un certain regard “em Cannes, foi rodado durante nove meses numa aldeia indígena brasileira sendo protagonizado pelo adolescente Ihjac da tribo dos Krahô. Em Cannes os realizadores referiram que o prémio atribuído também se destina ao “Brasil indígena, historicamente negado, silenciado, assassinado”.

No entanto, a estreia mais aguardada do mês trouxe magia e fantasia com Dumbo de Tim Burton, um comovente e belíssimo remake do clássico da Disney de 1941, baseado numa história infantil escrita por Helen Aberson e ilustrada por Harold Pearl. Associando imagens reais e efeitos digitais e com um elenco de estrelas como Danny DeVito, Eva Green, Colin Farrell e Michael Keaton, é com sensações de encantamento e deslumbramento que assistimos, nesta maravilhosa obra, às aventuras do sensível elefante cujas orelhas grandes proporcionam a capacidade de voar.

O papel e importância dos laços familiares em qualquer fase da vida estão referenciados em várias películas. Do Paraguai veio uma dessas obras, As herdeiras de Marcelo Martinessi, focando o isolamento feminino numa sociedade patriarcal. A atriz Ana Brun que interpreta uma das personagens da alta burguesia cuja vida se altera com a falência da família, foi considerada a melhor atriz no festival de Berlim. O papel da família na forma como gere as mudanças também está presente na sensível obra para refletir Uma criança como Jake de Silas Howard abordando a questão da identidade de género e o papel dos pais no apoio ao seu filho. Da Irlanda, Rosie Uma família sem teto de Paddy Breathnach trata, igualmente, um tema atual mas demonstrando como o amor consegue gerir momentos de crise mantendo a união familiar. Num contexto diferente mas envolvendo também uma dinâmica familiar dramática, o artístico Pereira Brava do realizador turco Nuri Bilge Ceylan é direcionado aos fãs deste realizador com diversas questões filosóficos, teológicos e éticas apresentadas numa bela obra mas demasiado extensa.

Os acontecimentos ocorridos durante a Revolução Francesa regressam com Uma Nação, um Rei de Pierre Schoeller, focando a tomada da Bastilha e execução de Luís XVI, mas com uma visão idílica dos acontecimentos, não revelando o terror e atrocidades cometidas em nome da liberdade, igualdade e fraternidade. Um acontecimento atual, Kursk de Thomas Vinterberg sobre a tragédia que envolveu o submarino nuclear russo K-141 Kursk mostrando os obstáculos burocráticos que os familiares dos tripulantes enfrentaram na tentativa vã de os salvar. Nós de Jordan Peele   é uma película sobre o género de terror desenvolvendo o tema do sósia maligno de vestuário vermelho apresenta alguma carga política pois é considerado uma alusão aos republicanos apoiantes de Donald Trump.

Por fim, temos o filme do realizador japonês Leo Sato A guerra do caldeirão de Kamagasaki, vencedor do grande prémio da 5º edição do festival Porto / Post / Doc. Filmado num subúrbio da cidade japonesa de Osaka segundo a sinopse apresentada pelo festival “é uma ficção do real, com os habitantes a tornarem-se atores de uma narrativa satírico-cómica sobre a sua própria luta contra a opressão”.

Voltando à cinematografia portuguesa, é de referir que o júri do 19.º Festival Internacional de Cinema de Las Palmas de Gran Canária, Espanha, decidiu entregar o prémio “Lady Harimaguada” de ouro ao filme “A Portuguesa”, de Rita Azevedo, apontando como principais razões para o reconhecimento “O rigor, lucidez e sensibilidade da autora para fazer conviver o classicismo com a modernidade numa crónica histórica”.

Luísa Oliveira

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No dia 24 fevereiro a 91ª cerimónia de entrega dos Óscares da Academia de Hollywood, pela primeira vez em trinta anos, decorreu sem um apresentador principal mas o fausto e as expectativas sobre os vencedores mantiveram-se.

As estreias de fevereiro contemplaram alguns filmes oscarizados como Favorita de Yorgos Lanthimos que, apesar de ter dez nomeações, arrecadou só a estatueta para Olívia Colman como melhor atriz, num drama baseado em factos reais da corte inglesa no início do século XVIII, com os seus mexericos e pressões políticas.

Regina King foi considerada a melhor atriz secundária pelo seu papel em Se esta rua falasse de Barry Jenkins, uma belíssima, sensível e poética obra baseada no romance homónimo de James Baldwin.  Esta comovente história de amor e de crítica social decorre no bairro de Harlem na década de 70 do século XX quando o preconceito racial vigente na sociedade americana impedia realizações pessoais mas demonstrando também como o amor consegue ultrapassar todas as dificuldades impostas pelas injustiças.

“Roma” era um dos filmes com maior número de nomeações mas acabou por arrecadar três estatuetas douradas, incluindo a de Melhor Realizador a Alfonso Cuáron (pela segunda vez) entregue pelo compatriota Guillermo del Toro, que ganhou no ano passado com “A Forma da Água”. No discurso de agradecimento Cuarón agradeceu “à Academia por reconhecer um filme que gira em volta de uma mulher indígena”. Esta representa os vários milhões de trabalhadores que “não têm direitos”, uma personagem que tem sido renegada na história do cinema. O filme venceu também na Fotografia e foi considerado o Melhor Filme Estrangeiro, o primeiro do México e o primeiro produzido pela Netflix.

Entre os inúmeros prémios destaque para o de melhor ator atribuído a Rami Malek, por “Bohemian Rhapsody “de Bryan Singer e o de melhor ator secundário a Mahershala Ali de “Green book – um guia para a vida” de Peter Ferrelly que, como já era previsível, foi considerado o melhor filme. O Óscar para melhor caracterização foi atribuído a mais uma das estreias de fevereiro Vice o novo filme de Adam McKay que traça, com humor, um retrato implacável de Dick Cheney, o influente vice-presidente de George W. Bush.  Christian Bale transfigura-se, fisicamente, ao interpretar a personagem do polémico político num período bastante conturbado da história mundial e, como tal, é justa a atribuição do prémio.

Mas magia do cinema não contempla só as obras oscarizadas e outros filmes merecem referência como o que retrata o fim da carreira de uma das duplas mais emblemática do género de comédia, especialmente nos anos dourados do cinema mudo, Bucha e Estica de Jon S.  Baird. A história, verídica, refere-se ao período em que os dois atores, Stan Laurel e Oliver Hard, representados pelo ator britânico Steve Coogan e pelo ator norte-americano John C. Reilly tentam voltar aos palcos, em 1953, numa tournée na Grã-Bretanha.

Para toda a família e também baseado em factos verídicos, Mia e o leão branco de Gilles de Maistre aborda as relações parentais e a necessidade urgente de preservar a vida selvagem. Por seu turno, Os irmãos Sister de Jacques Audiard passa-se em meados do século XIX, durante a grande expansão para o Oeste americano e a febre do ouro, criando a ilusão perfeita de que estamos nas paisagens consagradas e mitificadas pelo “western”. John C. Reilly e Joaquin Phoenix interpretam Eli e Charlie, os irmãos do título com posturas de vida diferentes pois representam a tensão entre o velho Oeste da violência, do caos e da ausência de lei, e o novo Oeste que está a ser construído baseado na lei e no progresso, focando o filme a importância dos laços familiares e da ordem e paz.

Igualmente sobre a família, mas num ambiente degradado, Cafarnaum de Nadine Labaki é um filme dramático sobre a realidade libanesa que esteve em competição no festival de cinema de Cannes em que, num cenário de pobreza extrema e de destruição, um jovem pretende processar os pais por não terem condições económicas ou emocionais para terem filhos. Ainda sobre laços familiares, Liam Neeson protagoniza mais um filme de ação, neste caso num ambiente gélido das Montanhas Rochosas em Vingança perfeita de Hans Petter Moland combatendo cartéis de droga que assassinaram o filho.

O cinema de animação está sempre presente começando pelo terceiro filme de uma famosa saga inspirada na escritora Cressida Cowell Como treinares o teu dragão: o mundo secreto de Dean DeBlois e Lego 2 de Mike Mitchell, um filme animado de aventuras das famosas construções didáticas em versão dobrada. Para os que apreciam este género é de relembrar que a 18º edição do festival Monstra dedicado ao cinema de animação decorre entre 20 e 31 março com 550 filmes de animação de 50 países assim como exposições, retrospectivas, competições, workshops e momentos que juntam música, poesia e banda desenhada. Nesta edição o festival vai homenagear o cinema de animação do Canadá que como é referido “um dos países onde esta arte é mais forte e cultivada, e também onde estão reunidas todas as condições para a realização de filmes e muita experimentação”.

Realiza-se, igualmente uma homenagem ao realizador japonês Satoshi Kon que faleceu em 2010 com a reposição de quatro longas metragens da sua autoria, produzidas entre 1997 e 2006.  Em simultâneo, em diversos estabelecimentos dos vários níveis de ensino, decorrem as sessões Monstrinhas em que serão exibidos 26 filmes com dobragem em português. As crianças até aos três anos também poderão ter o primeiro contacto com os filmes de animação, neste festival, e de forma gratuita. Já nas cerca de 90 curtas pensadas para toda a família, exibidas aos fins de semana, o diretor artístico chama a atenção para a estreia nacional do filme “Tito e os Pássaros”, que fala sobre o medo infantil.

Também são de relembrar as iniciativas do Cineclube Impala Cine que continua com os ciclos de cinema dedicados a diversos temas sendo que em março o escolhido é relativo às gerações Rock`n Roll com sessões às quintas-feiras no Auditório da Costa de Caparica.

Luísa Oliveira

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O mês de janeiro não deve ser só associado ao anúncio dos candidatos aos Óscares da Academia de Hollywood, cuja cerimónia de entrega de prémios se realizará em 24 fevereiro, pois verificaram-se estreias de qualidade abrangendo vários géneros. No panorama nacional registou-se a estreia comercial de Terra Franca de Leonor Teles, premiado como Melhor Longa Metragem de Ficção no Festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra. Um documentário interessante que retrata a vida solitária e as relações sociais de um pescador numa antiga comunidade piscatória no rio Tejo.

Igualmente com interesse e já apresentado anteriormente no Indie Lisboa, tivemos o documentário Debaixo do céu do realizador Nicholas Oulman sobre refugiados, um tema sempre actual, sendo que nesta obra são apresentados os relatos pessoais de judeus que na fuga ao nazismo passaram por Portugal. O filme é apresentado com imagens de arquivos, nomeadamente de Lisboa, e a identidade dos sobreviventes é revelada só no final.

A memória de infância vivida em regimes totalitários serve de base a Nunca Deixes de Olhar: a arte não tem identidade de Florian Henckel von Donnersmarck que também escreveu o argumento a partir da vida do pintor alemão Gerhard Richter, focando-se na problemática da busca de identidade artística quando as ideologias opressivas limitam toda a criatividade.  Ainda sobre o mundo da arte, estreou-se À porta da eternidade de Julian Schnabel em que Willem Dafoe personifica Vincent Van Gogh, papel que lhe valeu uma nomeação para o Óscar de melhor ator, pois apresenta de forma convincente a instabilidade mental e a angústia criativa do genial pintor. A instabilidade emocional e o processo de destruição psicológica de uma mulher são protagonizados, de forma exemplar, por Maggie Gyllenhaal no papel de uma educadora obcecada pelas competências de uma criança em A Educadora de infância de Sara Colangelo, remake norte-americano do homónimo filme israelita e que valeu à realizadora o prémio de melhor realização no festival de Sundance 2018 e fez parte da seleção oficial do festival de Toronto.

Também de obsessão e decadência emocional trata o desempenho de Nicole Kidman, irreconhecível fisicamente graças à maquilhagem e efeitos visuais, no trilher angustiante Destroyer – Ajuste de Contas de Karyn Kusama no papel uma ex-agente do FBI e agora detetive da polícia de Los Angeles, dependente de álcool e drogas, procurando vingar-se de um passado que destruiu a sua vida familiar e profissional. Igualmente destacando uma personagem feminina mas, neste caso, histórica, Maria, rainha dos Escoceses de Josie Rourke apresenta Saoirse Ronan no papel da controversa e infeliz Maria Stuart no seu problemático percurso de vida e as lutas políticas com a sua familiar Isabel I de Inglaterra que conduzirão à sua morte.

O polémico realizador M. Night Shyamalan está de volta com Glass que conta com alguns dos seus atores preferidos como Samuel L. Jackson, Bruce Willis e James McAvoy. É o terceiro filme da trilogia “Eastrail 177”, que começou com “O Protegido” e continuou com “Fragmentado” e é mais uma obra explosiva de ação, ficção científica e suspense que junta super-heróis, vilões e que até esta data é o filme com maiores receitas de bilheteira do ano.

A comédia dramática Green Book – um guia para a vida de Peter Ferrelly é uma das favoritas aos prémios da 91.ª edição dos Prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, tendo sido já distinguida com inúmeros prémios por várias associações ligadas à indústria cinematográfica. Nela se relatam factos verídicos numa América da década de 60 do século passado, em que a discriminação racial conduzia a lutas pelo reconhecimento dos direitos civis da comunidade afro-americana.  Mahershala Ali no papel  do pianista clássico afro-americano Don Shirley, e Viggo Mortensen como o seu motorista de origem italiana, Tony Lip, em digressão pelo sul  segregacionista dos Estados Unidos, estão nomeados para os Óscares da representação  pois desempenham de forma muito convincente os contrastes que as personagens apresentam a nível de educação cultura e competências sociais .O título do filme tem como base o livro The Negro Motorist Green Book, editado por Victor Hugo Green entre 1936 e 1966 que servia como guia que ajudava os viajantes negros,  a encontrar restaurantes, alojamentos e locais de diversão onde não havia segregação social.

De uma cinematografia pouco conhecido, a islandesa, tivmos uma agradável comédia negra de Hafstein Gunnar Sigurosson A árvore da discórdia, narrativa sobre situações caricatas envolvendo conflitos causados por uma árvore no jardim de um vizinho num bairro suburbano.

Robert Redford com oitenta e dois anos despede-se do cinema com a belíssima comédia romântica O Cavalheiro com Arma de David Lowery. A partir de factos reais decorridos nos anos 80 do século XX, o ator brilha no papel de Forrest Tucker um discreto e cavalheiresco ladrão, proporcionando momentos divertidos juntamente com os atores Sissy Spacek, Casey Affleck e John Hunt.  No final do filme, como pretexto para referenciar as inúmeras fugas feitas pelo elegante assaltante, há uma interessante montagem de cenas de vários filmes protagonizados por Robert Redford na sua longa e produtiva carreira.

Quem não pretende despedir-se da realização e representação cinematográfica é o excelente Clint Eastwood pois aos 88 anos apresenta mais uma  obra, Correio de Droga, a partir de factos reais da vida de um veterano horticultor, falido e solitário,  que se envolve no submundo do tráfico da droga como forma de salvar o seu negócio e reaproximar-se da família com quem mantinha escassas ligações.  O filme baseia-se no artigo publicado no New York Times Magazine “The Sinaloa Cartel´s 90-Year-Old Drug Mule”, de Sam Dolnick, resultando numa obra sóbria, humana, sem artifícios digitais e, embora o tráfico de droga esteja presente, é, acima de tudo,  um olhar sobre a velhice, meditação e redenção dos erros cometidos ao longo da vida.

Luísa Oliveira

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O mês de dezembro iniciou-se com a atribuição dos prémios relativos à 24ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra, dedicado, exclusivamente, às obras nacionais. O Grande Prémio foi atribuído ao filme Cabaret Maxime do realizador Bruno Almeida que tem como argumento as dificuldades vividas pelo dono de um cabaret devido às mudanças no bairro onde este se localiza e que põe em causa o grupo de artistas que nele trabalha e apresenta números musicais, de burlesco e comédia. Esta obra conquistou ainda os galardões máximos nas categorias de direcção artística, realização, ator secundário e banda sonora. Terra Franca de Leonor Teles, venceu na categoria de Melhor Longa Metragem de Ficção, Entre Sombras de Mónica Santos e Alice Guimarães ganhou prémio de Melhor Animação e Até Que O Porno Nos Separe de Jorge Pelicano o de Melhor Documentário.

Nas estreias em dezembro a produção nacional esteve presente com Parque Mayer de António-Pedro Vasconcelos, uma interessante comédia/drama que revisita um marcante espaço de entretenimento lisboeta num período em que a censura do Estado Novo limitava cada vez mais a liberdade criativa. Quanto às restantes estreias destaque para a obra do cineasta mexicano Alfonso Cuarón que escreveu, realizou e produziu o excelente Roma, vencedor do Leão de Ouro no festival de Veneza e que tem recebido inúmeras críticas positivas perfilando-se como vencedor de vários galardões. O título do filme refere-se a um bairro de classe média na cidade do México, revelando-se como crítica à sociedade mexicana e, especificamente, à posição da mulher, focando, igualmente, a situação política no país na década de 70 do século XX. A belíssima fotografia a preto e branco realça os choques inerentes às desigualdades sociais ao mesmo tempo que é enaltecida a força da mulher que sobrevive às mudanças e aos conflitos.

Igualmente como obra de denúncia social, surge Dogman, do realizador italiano Matteo Garrone, inspirado num caso real, onde sobressai o expressivo ator Marcello Fonte, galardoado no festival de Cannes, no papel de protagonista como um humilde tratador de cães vulnerável aos violentos abusos do criminoso mais temido do decadente bairro periférico que habitam. Retrato humano e de grande realismo de uma sociedade em que a violência impera.

A atriz Keira Knightley protagoniza Sidonie-Gabrielle Colette na obra Colette de Wash Westmoreland – um retrato fiel do ambiente social e cultural da Belle Époque  demonstrando, ao mesmo tempo,  como a intimidade da escritora  vai contribuir   para romper estereótipos sociais e revolucionar a literatura.  Julia Roberts, por sua vez, tem uma brilhante prestação em O Ben está de volta de Peter Hedges, no papel de uma mãe a defender obsessivamente o seu filho toxicodependente; embora a ação decorra na época natalícia é um filme sombrio e triste ao expor o sofrimento dos que têm familiares e amigos envolvidos no submundo da toxicodependência e marginalidade.

Num género diferente e mais de acordo com a leveza da época, temos a divertida comédia dramática francesa, já visionada na Festa do Cinema Francês, Ou nadas ou afundas de Gilles Lellouche, sobre um grupo de homens quarentões que decidem criar uma equipa de natação sincronizada. Igualmente animado e direccionado para quem gosta dos patudos Dog Days – vidas de cão de Ken Marino, sobre um grupo de personagens interligadas com as vidas dos seus cães.

Termino com O Regresso de Mary Poppins de Rob Marshall o filme ideal para divertir toda a família com uma história simples em que a magia, música e animação conduzem a um final feliz tal como tinha sido a primeira versão de 1964.

Luísa Oliveira

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