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Archive for the ‘As Fitas do Mês’ Category

Em 24 de março realizou-se, no Casino Estoril, a 7ª edição dos Prémios Sophia, organizados pela Academia Portuguesa de Cinema. “Raiva” de Sérgio Tréfaut foi o grande vencedor e entre os vários prémios que recebeu foi distinguido como o Melhor Filme de 2018. Filmado a preto e branco, é a adaptação do clássico do neorrealismo português de 1958 “Seara de Vento” de Manuel da Fonseca e, a partir de factos verídicos ocorridos em Beja em 1930, relata a história de um trabalhador rural que, perante uma grande injustiça e exploração laboral de que era vítima, perde a razão e transforma-se num assassino.

Quanto a estreias, Chuva é cantoria na aldeia dos mortos de João Salaviza e Renée Nader Messora, premiado em vários festivais entre os quais o prémio especial do júri “un certain regard “em Cannes, foi rodado durante nove meses numa aldeia indígena brasileira sendo protagonizado pelo adolescente Ihjac da tribo dos Krahô. Em Cannes os realizadores referiram que o prémio atribuído também se destina ao “Brasil indígena, historicamente negado, silenciado, assassinado”.

No entanto, a estreia mais aguardada do mês trouxe magia e fantasia com Dumbo de Tim Burton, um comovente e belíssimo remake do clássico da Disney de 1941, baseado numa história infantil escrita por Helen Aberson e ilustrada por Harold Pearl. Associando imagens reais e efeitos digitais e com um elenco de estrelas como Danny DeVito, Eva Green, Colin Farrell e Michael Keaton, é com sensações de encantamento e deslumbramento que assistimos, nesta maravilhosa obra, às aventuras do sensível elefante cujas orelhas grandes proporcionam a capacidade de voar.

O papel e importância dos laços familiares em qualquer fase da vida estão referenciados em várias películas. Do Paraguai veio uma dessas obras, As herdeiras de Marcelo Martinessi, focando o isolamento feminino numa sociedade patriarcal. A atriz Ana Brun que interpreta uma das personagens da alta burguesia cuja vida se altera com a falência da família, foi considerada a melhor atriz no festival de Berlim. O papel da família na forma como gere as mudanças também está presente na sensível obra para refletir Uma criança como Jake de Silas Howard abordando a questão da identidade de género e o papel dos pais no apoio ao seu filho. Da Irlanda, Rosie Uma família sem teto de Paddy Breathnach trata, igualmente, um tema atual mas demonstrando como o amor consegue gerir momentos de crise mantendo a união familiar. Num contexto diferente mas envolvendo também uma dinâmica familiar dramática, o artístico Pereira Brava do realizador turco Nuri Bilge Ceylan é direcionado aos fãs deste realizador com diversas questões filosóficos, teológicos e éticas apresentadas numa bela obra mas demasiado extensa.

Os acontecimentos ocorridos durante a Revolução Francesa regressam com Uma Nação, um Rei de Pierre Schoeller, focando a tomada da Bastilha e execução de Luís XVI, mas com uma visão idílica dos acontecimentos, não revelando o terror e atrocidades cometidas em nome da liberdade, igualdade e fraternidade. Um acontecimento atual, Kursk de Thomas Vinterberg sobre a tragédia que envolveu o submarino nuclear russo K-141 Kursk mostrando os obstáculos burocráticos que os familiares dos tripulantes enfrentaram na tentativa vã de os salvar. Nós de Jordan Peele   é uma película sobre o género de terror desenvolvendo o tema do sósia maligno de vestuário vermelho apresenta alguma carga política pois é considerado uma alusão aos republicanos apoiantes de Donald Trump.

Por fim, temos o filme do realizador japonês Leo Sato A guerra do caldeirão de Kamagasaki, vencedor do grande prémio da 5º edição do festival Porto / Post / Doc. Filmado num subúrbio da cidade japonesa de Osaka segundo a sinopse apresentada pelo festival “é uma ficção do real, com os habitantes a tornarem-se atores de uma narrativa satírico-cómica sobre a sua própria luta contra a opressão”.

Voltando à cinematografia portuguesa, é de referir que o júri do 19.º Festival Internacional de Cinema de Las Palmas de Gran Canária, Espanha, decidiu entregar o prémio “Lady Harimaguada” de ouro ao filme “A Portuguesa”, de Rita Azevedo, apontando como principais razões para o reconhecimento “O rigor, lucidez e sensibilidade da autora para fazer conviver o classicismo com a modernidade numa crónica histórica”.

Luísa Oliveira

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No dia 24 fevereiro a 91ª cerimónia de entrega dos Óscares da Academia de Hollywood, pela primeira vez em trinta anos, decorreu sem um apresentador principal mas o fausto e as expectativas sobre os vencedores mantiveram-se.

As estreias de fevereiro contemplaram alguns filmes oscarizados como Favorita de Yorgos Lanthimos que, apesar de ter dez nomeações, arrecadou só a estatueta para Olívia Colman como melhor atriz, num drama baseado em factos reais da corte inglesa no início do século XVIII, com os seus mexericos e pressões políticas.

Regina King foi considerada a melhor atriz secundária pelo seu papel em Se esta rua falasse de Barry Jenkins, uma belíssima, sensível e poética obra baseada no romance homónimo de James Baldwin.  Esta comovente história de amor e de crítica social decorre no bairro de Harlem na década de 70 do século XX quando o preconceito racial vigente na sociedade americana impedia realizações pessoais mas demonstrando também como o amor consegue ultrapassar todas as dificuldades impostas pelas injustiças.

“Roma” era um dos filmes com maior número de nomeações mas acabou por arrecadar três estatuetas douradas, incluindo a de Melhor Realizador a Alfonso Cuáron (pela segunda vez) entregue pelo compatriota Guillermo del Toro, que ganhou no ano passado com “A Forma da Água”. No discurso de agradecimento Cuarón agradeceu “à Academia por reconhecer um filme que gira em volta de uma mulher indígena”. Esta representa os vários milhões de trabalhadores que “não têm direitos”, uma personagem que tem sido renegada na história do cinema. O filme venceu também na Fotografia e foi considerado o Melhor Filme Estrangeiro, o primeiro do México e o primeiro produzido pela Netflix.

Entre os inúmeros prémios destaque para o de melhor ator atribuído a Rami Malek, por “Bohemian Rhapsody “de Bryan Singer e o de melhor ator secundário a Mahershala Ali de “Green book – um guia para a vida” de Peter Ferrelly que, como já era previsível, foi considerado o melhor filme. O Óscar para melhor caracterização foi atribuído a mais uma das estreias de fevereiro Vice o novo filme de Adam McKay que traça, com humor, um retrato implacável de Dick Cheney, o influente vice-presidente de George W. Bush.  Christian Bale transfigura-se, fisicamente, ao interpretar a personagem do polémico político num período bastante conturbado da história mundial e, como tal, é justa a atribuição do prémio.

Mas magia do cinema não contempla só as obras oscarizadas e outros filmes merecem referência como o que retrata o fim da carreira de uma das duplas mais emblemática do género de comédia, especialmente nos anos dourados do cinema mudo, Bucha e Estica de Jon S.  Baird. A história, verídica, refere-se ao período em que os dois atores, Stan Laurel e Oliver Hard, representados pelo ator britânico Steve Coogan e pelo ator norte-americano John C. Reilly tentam voltar aos palcos, em 1953, numa tournée na Grã-Bretanha.

Para toda a família e também baseado em factos verídicos, Mia e o leão branco de Gilles de Maistre aborda as relações parentais e a necessidade urgente de preservar a vida selvagem. Por seu turno, Os irmãos Sister de Jacques Audiard passa-se em meados do século XIX, durante a grande expansão para o Oeste americano e a febre do ouro, criando a ilusão perfeita de que estamos nas paisagens consagradas e mitificadas pelo “western”. John C. Reilly e Joaquin Phoenix interpretam Eli e Charlie, os irmãos do título com posturas de vida diferentes pois representam a tensão entre o velho Oeste da violência, do caos e da ausência de lei, e o novo Oeste que está a ser construído baseado na lei e no progresso, focando o filme a importância dos laços familiares e da ordem e paz.

Igualmente sobre a família, mas num ambiente degradado, Cafarnaum de Nadine Labaki é um filme dramático sobre a realidade libanesa que esteve em competição no festival de cinema de Cannes em que, num cenário de pobreza extrema e de destruição, um jovem pretende processar os pais por não terem condições económicas ou emocionais para terem filhos. Ainda sobre laços familiares, Liam Neeson protagoniza mais um filme de ação, neste caso num ambiente gélido das Montanhas Rochosas em Vingança perfeita de Hans Petter Moland combatendo cartéis de droga que assassinaram o filho.

O cinema de animação está sempre presente começando pelo terceiro filme de uma famosa saga inspirada na escritora Cressida Cowell Como treinares o teu dragão: o mundo secreto de Dean DeBlois e Lego 2 de Mike Mitchell, um filme animado de aventuras das famosas construções didáticas em versão dobrada. Para os que apreciam este género é de relembrar que a 18º edição do festival Monstra dedicado ao cinema de animação decorre entre 20 e 31 março com 550 filmes de animação de 50 países assim como exposições, retrospectivas, competições, workshops e momentos que juntam música, poesia e banda desenhada. Nesta edição o festival vai homenagear o cinema de animação do Canadá que como é referido “um dos países onde esta arte é mais forte e cultivada, e também onde estão reunidas todas as condições para a realização de filmes e muita experimentação”.

Realiza-se, igualmente uma homenagem ao realizador japonês Satoshi Kon que faleceu em 2010 com a reposição de quatro longas metragens da sua autoria, produzidas entre 1997 e 2006.  Em simultâneo, em diversos estabelecimentos dos vários níveis de ensino, decorrem as sessões Monstrinhas em que serão exibidos 26 filmes com dobragem em português. As crianças até aos três anos também poderão ter o primeiro contacto com os filmes de animação, neste festival, e de forma gratuita. Já nas cerca de 90 curtas pensadas para toda a família, exibidas aos fins de semana, o diretor artístico chama a atenção para a estreia nacional do filme “Tito e os Pássaros”, que fala sobre o medo infantil.

Também são de relembrar as iniciativas do Cineclube Impala Cine que continua com os ciclos de cinema dedicados a diversos temas sendo que em março o escolhido é relativo às gerações Rock`n Roll com sessões às quintas-feiras no Auditório da Costa de Caparica.

Luísa Oliveira

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O mês de janeiro não deve ser só associado ao anúncio dos candidatos aos Óscares da Academia de Hollywood, cuja cerimónia de entrega de prémios se realizará em 24 fevereiro, pois verificaram-se estreias de qualidade abrangendo vários géneros. No panorama nacional registou-se a estreia comercial de Terra Franca de Leonor Teles, premiado como Melhor Longa Metragem de Ficção no Festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra. Um documentário interessante que retrata a vida solitária e as relações sociais de um pescador numa antiga comunidade piscatória no rio Tejo.

Igualmente com interesse e já apresentado anteriormente no Indie Lisboa, tivemos o documentário Debaixo do céu do realizador Nicholas Oulman sobre refugiados, um tema sempre actual, sendo que nesta obra são apresentados os relatos pessoais de judeus que na fuga ao nazismo passaram por Portugal. O filme é apresentado com imagens de arquivos, nomeadamente de Lisboa, e a identidade dos sobreviventes é revelada só no final.

A memória de infância vivida em regimes totalitários serve de base a Nunca Deixes de Olhar: a arte não tem identidade de Florian Henckel von Donnersmarck que também escreveu o argumento a partir da vida do pintor alemão Gerhard Richter, focando-se na problemática da busca de identidade artística quando as ideologias opressivas limitam toda a criatividade.  Ainda sobre o mundo da arte, estreou-se À porta da eternidade de Julian Schnabel em que Willem Dafoe personifica Vincent Van Gogh, papel que lhe valeu uma nomeação para o Óscar de melhor ator, pois apresenta de forma convincente a instabilidade mental e a angústia criativa do genial pintor. A instabilidade emocional e o processo de destruição psicológica de uma mulher são protagonizados, de forma exemplar, por Maggie Gyllenhaal no papel de uma educadora obcecada pelas competências de uma criança em A Educadora de infância de Sara Colangelo, remake norte-americano do homónimo filme israelita e que valeu à realizadora o prémio de melhor realização no festival de Sundance 2018 e fez parte da seleção oficial do festival de Toronto.

Também de obsessão e decadência emocional trata o desempenho de Nicole Kidman, irreconhecível fisicamente graças à maquilhagem e efeitos visuais, no trilher angustiante Destroyer – Ajuste de Contas de Karyn Kusama no papel uma ex-agente do FBI e agora detetive da polícia de Los Angeles, dependente de álcool e drogas, procurando vingar-se de um passado que destruiu a sua vida familiar e profissional. Igualmente destacando uma personagem feminina mas, neste caso, histórica, Maria, rainha dos Escoceses de Josie Rourke apresenta Saoirse Ronan no papel da controversa e infeliz Maria Stuart no seu problemático percurso de vida e as lutas políticas com a sua familiar Isabel I de Inglaterra que conduzirão à sua morte.

O polémico realizador M. Night Shyamalan está de volta com Glass que conta com alguns dos seus atores preferidos como Samuel L. Jackson, Bruce Willis e James McAvoy. É o terceiro filme da trilogia “Eastrail 177”, que começou com “O Protegido” e continuou com “Fragmentado” e é mais uma obra explosiva de ação, ficção científica e suspense que junta super-heróis, vilões e que até esta data é o filme com maiores receitas de bilheteira do ano.

A comédia dramática Green Book – um guia para a vida de Peter Ferrelly é uma das favoritas aos prémios da 91.ª edição dos Prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, tendo sido já distinguida com inúmeros prémios por várias associações ligadas à indústria cinematográfica. Nela se relatam factos verídicos numa América da década de 60 do século passado, em que a discriminação racial conduzia a lutas pelo reconhecimento dos direitos civis da comunidade afro-americana.  Mahershala Ali no papel  do pianista clássico afro-americano Don Shirley, e Viggo Mortensen como o seu motorista de origem italiana, Tony Lip, em digressão pelo sul  segregacionista dos Estados Unidos, estão nomeados para os Óscares da representação  pois desempenham de forma muito convincente os contrastes que as personagens apresentam a nível de educação cultura e competências sociais .O título do filme tem como base o livro The Negro Motorist Green Book, editado por Victor Hugo Green entre 1936 e 1966 que servia como guia que ajudava os viajantes negros,  a encontrar restaurantes, alojamentos e locais de diversão onde não havia segregação social.

De uma cinematografia pouco conhecido, a islandesa, tivmos uma agradável comédia negra de Hafstein Gunnar Sigurosson A árvore da discórdia, narrativa sobre situações caricatas envolvendo conflitos causados por uma árvore no jardim de um vizinho num bairro suburbano.

Robert Redford com oitenta e dois anos despede-se do cinema com a belíssima comédia romântica O Cavalheiro com Arma de David Lowery. A partir de factos reais decorridos nos anos 80 do século XX, o ator brilha no papel de Forrest Tucker um discreto e cavalheiresco ladrão, proporcionando momentos divertidos juntamente com os atores Sissy Spacek, Casey Affleck e John Hunt.  No final do filme, como pretexto para referenciar as inúmeras fugas feitas pelo elegante assaltante, há uma interessante montagem de cenas de vários filmes protagonizados por Robert Redford na sua longa e produtiva carreira.

Quem não pretende despedir-se da realização e representação cinematográfica é o excelente Clint Eastwood pois aos 88 anos apresenta mais uma  obra, Correio de Droga, a partir de factos reais da vida de um veterano horticultor, falido e solitário,  que se envolve no submundo do tráfico da droga como forma de salvar o seu negócio e reaproximar-se da família com quem mantinha escassas ligações.  O filme baseia-se no artigo publicado no New York Times Magazine “The Sinaloa Cartel´s 90-Year-Old Drug Mule”, de Sam Dolnick, resultando numa obra sóbria, humana, sem artifícios digitais e, embora o tráfico de droga esteja presente, é, acima de tudo,  um olhar sobre a velhice, meditação e redenção dos erros cometidos ao longo da vida.

Luísa Oliveira

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O mês de dezembro iniciou-se com a atribuição dos prémios relativos à 24ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra, dedicado, exclusivamente, às obras nacionais. O Grande Prémio foi atribuído ao filme Cabaret Maxime do realizador Bruno Almeida que tem como argumento as dificuldades vividas pelo dono de um cabaret devido às mudanças no bairro onde este se localiza e que põe em causa o grupo de artistas que nele trabalha e apresenta números musicais, de burlesco e comédia. Esta obra conquistou ainda os galardões máximos nas categorias de direcção artística, realização, ator secundário e banda sonora. Terra Franca de Leonor Teles, venceu na categoria de Melhor Longa Metragem de Ficção, Entre Sombras de Mónica Santos e Alice Guimarães ganhou prémio de Melhor Animação e Até Que O Porno Nos Separe de Jorge Pelicano o de Melhor Documentário.

Nas estreias em dezembro a produção nacional esteve presente com Parque Mayer de António-Pedro Vasconcelos, uma interessante comédia/drama que revisita um marcante espaço de entretenimento lisboeta num período em que a censura do Estado Novo limitava cada vez mais a liberdade criativa. Quanto às restantes estreias destaque para a obra do cineasta mexicano Alfonso Cuarón que escreveu, realizou e produziu o excelente Roma, vencedor do Leão de Ouro no festival de Veneza e que tem recebido inúmeras críticas positivas perfilando-se como vencedor de vários galardões. O título do filme refere-se a um bairro de classe média na cidade do México, revelando-se como crítica à sociedade mexicana e, especificamente, à posição da mulher, focando, igualmente, a situação política no país na década de 70 do século XX. A belíssima fotografia a preto e branco realça os choques inerentes às desigualdades sociais ao mesmo tempo que é enaltecida a força da mulher que sobrevive às mudanças e aos conflitos.

Igualmente como obra de denúncia social, surge Dogman, do realizador italiano Matteo Garrone, inspirado num caso real, onde sobressai o expressivo ator Marcello Fonte, galardoado no festival de Cannes, no papel de protagonista como um humilde tratador de cães vulnerável aos violentos abusos do criminoso mais temido do decadente bairro periférico que habitam. Retrato humano e de grande realismo de uma sociedade em que a violência impera.

A atriz Keira Knightley protagoniza Sidonie-Gabrielle Colette na obra Colette de Wash Westmoreland – um retrato fiel do ambiente social e cultural da Belle Époque  demonstrando, ao mesmo tempo,  como a intimidade da escritora  vai contribuir   para romper estereótipos sociais e revolucionar a literatura.  Julia Roberts, por sua vez, tem uma brilhante prestação em O Ben está de volta de Peter Hedges, no papel de uma mãe a defender obsessivamente o seu filho toxicodependente; embora a ação decorra na época natalícia é um filme sombrio e triste ao expor o sofrimento dos que têm familiares e amigos envolvidos no submundo da toxicodependência e marginalidade.

Num género diferente e mais de acordo com a leveza da época, temos a divertida comédia dramática francesa, já visionada na Festa do Cinema Francês, Ou nadas ou afundas de Gilles Lellouche, sobre um grupo de homens quarentões que decidem criar uma equipa de natação sincronizada. Igualmente animado e direccionado para quem gosta dos patudos Dog Days – vidas de cão de Ken Marino, sobre um grupo de personagens interligadas com as vidas dos seus cães.

Termino com O Regresso de Mary Poppins de Rob Marshall o filme ideal para divertir toda a família com uma história simples em que a magia, música e animação conduzem a um final feliz tal como tinha sido a primeira versão de 1964.

Luísa Oliveira

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A primeira longa metragem da realizadora Leonor Teles, “Terra Franca”, foi distinguida com Prix de La Ville d’Amiens, no 38.º Festival International du Film d’Amiens, em França, e com o Prémio de Melhor Primeira Obra da Competição Internacional na 33.ª edição do Festival Internacional de Cine de Mar del Plata (Argentina). O filme, cuja estreia está prevista para o próximo mês de janeiro, já tinha recebido vários prémios internacionais e retrata a vida de um pescador que vive numa comunidade piscatória à beira do Tejo. A longa-metragem “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos” de João Salavisa e Renée Nader Messora continua a acumular prémios pois foi também distinguida com o Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Cine de Mar del Plata depois de ter sido duplamente premiada no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro (Melhor Realização e Melhor Fotografia). A estreia, em Portugal, está prevista para março de 2019.

No que respeita a estreias nacionais, a apresentação foi diversificada abrangendo vários géneros cinematográficos. Começo pelo filme de Sérgio Tréfaut Raiva, a adaptação do clássico da literatura portuguesa do século XX, ‘Seara de Vento’ de Manuel da Fonseca. A película foi rodada no Alentejo retratando, num período de fome e violência, um assassinato executado por um camponês e a sua resistência à polícia e exército. Ainda sobre produção portuguesa o documentário Doutores palhaços de Hélder Faria e Bernardo Lopes sobre o emocionante contributo dos que pretendem melhorar o quotidiano de quem vive em ambientes de grande sofrimento.

No mesmo género, A febre Ferrante de Giacomo Durzi sobre a excelente escritora napolitana Elena Ferrante   e a sua pretensão de manter o anonimato enquanto a sua obra delícia milhões de leitores. Igualmente no âmbito da literatura o drama Dovlatov de Aleksey Germna Jr. apresenta seis dias da vida do escritor russo Sergei Dovlatov e a sua preocupação em manter a liberdade artística durante o opressivo regime soviético.

No género terror, uma interessante obra do cinema independente americano, realizada e protagonizada por Aaron Moorhead e Justin Benson, O interminável, debruça-se sobre o tenebroso universo dos cultos e seitas religiosas.  Utoya, 22 julho de Erik Poppe é um filme perturbador sobre o massacre da Noruega em 2011 e que alerta contra a ascensão da extrema-direita europeia, uma obra contra o esquecimento descrevendo o pesadelo que o ódio criou.

Outra excelente e igualmente perturbadora obra, Uma guerra pessoal de Matthew Heineman, baseada em factos reais, retrata a extraordinária vida de Marie Colvin (interpretada por Rosemund Pike), uma das jornalistas de guerra mais reconhecidas do nosso tempo que colaborava com o jornal The Sunday Times. Com um espírito rebelde e insubmisso, arriscando a própria vida, teve como missão de vida dar voz, nos seus artigos jornalísticos, aos que de outro modo nunca teriam forma de ser ouvidos, transmitindo de forma realista e crua o que é viver no meio da guerra até à sua morte em Homs, na Síria em 2012.

Viúvas de Steve McQueen, baseado no livro homónimo de Lynda La Plante, adaptado por Gillian Flynn, com um elenco talentoso em que sobressai Viola Davis, apresenta um grupo de mulheres que pretendem vingar as mortes dos maridos criminosos no meio de violência, racismo e corrupção em Chicago. O tema foi apresentado numa minissérie na TV inglesa em 1983 e adaptado à realidade americana.

O sensível Beautiful Boy, de Felix Van Groeningen, mostra o amor resistente de uma família perante o vício do filho e as tentativas de reabilitação. Baseado nas biografias do jornalista David Sheff e do seu filho, Nic Sheff, apresenta interpretações brilhantes dos atores Steve Carell e Timothée Chalamet, este último no papel do filho na fase em que se torna viciado em metanfetaminas.

A vingança de Lizzie Borden, de Craig Macneill, é um thriller psicológico baseado em factos reais, em que a atriz Chloe Sevigny interpreta o papel de Lizzie Andrew Borden, uma das figuras mais icónicas da cultura popular norte-americana que foi a julgamento   pelo duplo homicídio do seu pai, Andrew J. Borden, e da sua madrasta, Abby Borden, no dia 4 de agosto de 1892.

Mais uma produção francesa de qualidade no thriller dramático Histórias de uma vida de Jean Becher, numa adaptação do romance de Jean-Christophe Rufin, desenrola-se no primeiro pós-guerra em que um cão dá contributo importante para a resolução de um mistério.

O segundo filme da spinoff de Harry Porter constitui um sucesso de bilheteira dos estúdios Warner Bros Monstros Fantásticos – Os Crimes de Grindelwald de David Yates, com Eddie Redmayne que volta para ser o protagonista Newt Scamander na luta contra o poderoso e maléfico feiticeiro Gellert Grindelwald em mais uma obra de fantasia de J. K. Rowling. Na época natalícia é adequado o regresso do duende verde Grinch de Yannow Cheney e Scott Mosie. A história do filme sofre poucas mudanças relativamente à película de 2000, mas é uma criatura mais social e menos assustadora numa película de animação bastante colorida e divertida com Benedict Cumberbatch a dar voz ao Grinch.

Por fim, justifica-se uma menção ao falecimento do polémico e genial cineasta italiano, Bernardo Bertolucci, que realizou inúmeras obras memoráveis além de 1900 e O último imperador, que farão sempre parte da memória do cinema.

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Nas estreias do mês de outubro foram registados documentários de personalidades marcantes de várias áreas. Assim, destaca-se Ingmar Bergman – a vida e obra do génio    de Margarethe von Trotta para relembrar o trajeto de vida do icónico realizador, não só no mundo de cinema como a nível familiar, a que se acrescenta a opinião dos novos cineastas. O documentário insere-se no âmbito das celebrações do centenário do nascimento do realizador que tem como objetivo divulgar a sua magnífica obra.

No que respeita a um mundo em que a criatividade e os excessos estão interligados, McQueen, de Ian Bonhote and Peter Ettedgui  é relembrado a partir de entrevistas a familiares e amigos do inquietante e controverso designer de moda.

Do mundo da música, Bohemian Rapsody de Bryan Singer e Dexter Flecther revê a ascensão da carismática banda musical “Queen” e sobretudo do seu fabuloso vocalista Freddie Mercury. É um excelente pretexto para assistirmos às suas maravilhosas e eternas  canções.

Ryan Gosling representa Neil Alden Armstrong, engenheiro aeronáutico cujo nome ficará para sempre ligado  à exploração espacial, em O primeiro homem na Lua, de Damien Chazelle, filme onde  assistimos ao seu percurso entre 1961 e 1969 quando,  em 20 julho, no âmbito da missão espacial Apollo 11, dá os primeiros passos na Lua.

Feliz Como Lázaro  de Alice Rohrwacher ganhou o prémio para melhor argumento no festival de Cannes é uma comovente obra com uma banda sonora condizente com a realidade rural de uma comunidade isolada, num misto de fábula religiosa e sátira social.

O drama A Mulher de  Bjorn Runge, premiado no festival internacional de filme de Toronto,  baseado na obra homónima de Meg Wolitzer,  apresenta Glenn Close  numa excelente  e emocionante interpretação no papel da mulher de um escritor  famoso que vive durante décadas na sombra do marido, sacrificando o seu talento e ignorando as humilhações de que foi alvo durante o seu casamento até que põe fim ao relacionamento.

Não Deixeis Cair Em Tentação do francês Cédric Kahn, versa questões ligadas à fé e à oração no processo de cura de toxicodependentes numa comunidade religiosa, e valeu  ao  ator Anthony Bajon o Urso de prata no festival de Berlim.

Verão 1993 da catalã Carla Simón é uma comovente obra autobiográfica sobre o processo de adoção e as relações desenvolvidas entre os pais e a criança com situações vividas,  certamente, por muitas famílias no decurso da adaptação à nova realidade familiar.

Pedro e Inês de António Ferreira, adaptação do romance de Rosa Lobato de Faria “A trança de Inês”,  tendo como base a lendária paixão, desenvolve-se ao longo de três épocas diferentes em que a história de amor se repete.

O divertido e intrigante thriller Sete Estranhos no El Royale de Drew Goddard  apresenta um conjunto de estrelas Jeff Bridges, Chris Hemsworth, Jon Hamm, Dakota Johnson e Cynthia Erivo, com boas interpretações de personagens estranhas num hotel  decadente  dividido  ao meio entre os estados de Califórnia e Nevada.

Igualmente divertido  e com alguma ação, Rei dos Ladrões de James Marsh, trata  do assalto do roubo de joias e dinheiro de uma caixa-forte  de Hatton Garden, o maior da história  londrina, em abril de 2015. Este acontecimento que  teve grande repercussão nos media, pois provocou um prejuízo  de 14 milhões de libras, foi protagonizado por homens entre os 59 e 75 anos, alguns reformados, outros com cadastro criminal  e com doenças graves.

Uma obra interessante e verídica sobre  um acontecimento   histórico  da Guerra Fria   Revolução Silenciosa  de Lars  Kraume, adaptação  da obra homónima do escritor alemão Dietrich Garstka, decorre em 1956, na República Democrática Alemã ( RDA). Os alunos de uma escola da cidade de Stalinstadt (actual Eisenhüttenstadt) decidem fazer um minuto de silêncio em homenagem aos que lutaram pela liberdade e foram vítimas da violência das tropas soviéticas que invadiram a Hungria. Mas o simbólico protesto  acaba por ter uma dimensão maior revelando as questões políticas e sociais  da época e a luta dos jovens  pela mudança e resistência às políticas totalitárias.

As películas de terror e de ação  têm sempre muitos fãs como é o caso de  Venom  de Ruben Fleischer, mais uma adaptação de um dos personagens da Marvel,  protagonizado por Tom Hardy no papel do jornalista Eddie Brock que entra em contato com um  alienígena e se torna Venom. Mas, sem dúvida, que este género que apresenta ambientes de tensão e de medos está bem representado  no interessante  thriller Halloween  de  David Gordon Green em que Jamie Lee Curtis  volta a personificar   Laurie Strode  na continuação de factos ocorridos em 1978 .  Passados 40 anos sobre a estreia do clássico de John Carpenter  que, além de produtor executivo  é também o autor da banda sonora, regista-se o confronto decisivo e final  entre Laurie Strode, a sobrevivente do massacre das “babysitters” de 1978, e Michael Myers, o assassino silencioso.

Luísa Oliveira

 

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A produção cinematográfica nacional teve mais um reconhecimento pois o filme  Diamantino, a primeira longa- metragem de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, venceu o Grande Prémio da 57ª Semana da Crítica da 71ª edição do Festival de Cinema de Cannes. Conforme comunicado pela produtora, enquanto se aguarda a sua estreia comercial, o filme conta “a história de Diamantino, interpretado pelo ator Carloto Cotta, uma superestrela do futebol mundial, cuja carreira cai em desgraça… à procura de um novo objetivo para a sua vida, Diamantino entra numa odisseia delirante, que envolve neofascismo, crise dos refugiados, modificação genética e a busca pela origem da genialidade”. Ainda sobre o mundo futebolístico, é de referir a estreia de Ruth de António Pinhão Botelho, uma abordagem interessante sobre os costumes e vivências de Portugal durante a ditadura salazarista, tendo como pretexto a história da contratação do futebolista Eusébio pelo Benfica.

Os conflitos mundiais continuam com adaptações no cinema, sendo que a 1ª guerra mundial está presente no intenso e belíssimo melodrama franco-alemão de François Ozon, Frantz. Baseado no filme de 1932 realizado por Ernst Lubitsch “O homem que eu matei”, é uma obra apresentada a preto e branco com excelentes interpretações e banda sonora adequada que realçam o luto e o sentimentalismo feminino. De igual forma, a 2ª guerra mundial é um tema recorrente que se pode ver em Os invisíveis de Claus Rafle, um drama com caraterísticas de documentário que decorre em Berlim num período em que a cidade é declarada pelos nazis “livre de judeus”. No entanto, centenas conseguiram escapar às perseguições apresentando-se, nesta obra, os testemunhos de quatro dos sobreviventes, de como viveram a sua vida de adolescentes e jovens adultos num contexto terrível.

O período após a 2ª guerra mundial serve de base ao filme Sociedade literária da tarte da casca da batata de Mike Newell, uma história comovente e deliciosa a partir do livro de Mary Ann Schaffer e Annie Barrows. Nesta excelente película, realça-se importância das relações baseadas na amizade, no amor e na paixão pelos livros que se desenvolvem durante a ocupação alemã da ilha de Guernsey (Canal da Mancha) entre 30 junho de 1940 e 9 maio de 1945 e que constituíram uma forma de resistência.

Também como reflexo de conflitos armados, Refugiados do irreverente artista chinês Ai Weiwei revela-se como um emocionante documentário sobre uma trágica realidade global atual que movimenta milhões de seres. A equipa de filmagem visitou 40 campos de refugiados em 23 países e, entre as afirmações de Ai Weiwei, destacam-se “Este é o meu trabalho: dar voz aos que não têm como falar… Eu tinha muita curiosidade sobre as 65 milhões de pessoas que perderam suas casas em conflitos e desastres naturais. Vê-las sem rumo é muito chocante. Ao mesmo tempo, a resposta europeia é igualmente chocante, pois eles não fazem muito para ajudar”.

Ainda sobre situações problemáticas globais Nunca estiveste aqui de Lynne Ramsay, adaptação do romance homónimo de Jonathan Ames, foca o mundo tenebroso do tráfico humano, tendo ganho no festival de Cannes de 2017 o prémio de melhor argumento e o protagonista, Joaquim Phoenix, o de melhor ator. Outra temática atual, 17 rapariga das irmãs Muriel e Delphine Coulin acaba por ser um filme que provoca um debate sobre a temática da gravidez na adolescência e a reação dos pais e professores à situação. Baseado num caso real ocorrido numa escola dos E.U.A. em 2008 em que dezassete adolescentes decidem engravidar ao mesmo tempo, a ação foi adaptada a uma cidade francesa  constituindo uma reflexão sobre situações vividas por muitos adolescentes.

Ainda sobre ligações humanas, Só te vejo a ti de Marc Forster é um interessante thriller psicológico em que Blake Lively e Jason Clarke protagonizam um casal cuja relação amorosa vai ser posta à prova após a mulher recuperar a visão que tinha perdido devido a um acidente rodoviário. Ordem divina de Petra Volpe, filme selecionado pela Suíça para concorrer ao Óscar de melhor filme estrangeiro, está centrado na luta pela igualdade de direitos para as mulheres na Suíça que, surpreendentemente, só tiveram direito a votar a partir de 1971. Baseia-se nas reações de familiares, amigos e conhecidos à luta pública de uma mulher pelo reconhecimento do direito ao voto feminino que os homens vão votar em 7 fevereiro de 1971.

O realizador Mike Newell regressa, em filme com argumento de Kevin Hood e Thomas Bezucha, interpretado por Lily James, Michiel Huisman e Matthew Goode, para contar a experiência de uma jornalista na pesquisa para um livro sobre a ocupação nazi de Guernsey, uma das ilhas do Canal da Mancha, entre o Reino Unido e França. E o que começou como correspondência com a sociedade literária local e prosseguiu com uma visita à ilha transforma-se num retrato que envolve vários dos habitantes numa história de amizade e solidariedade.O realizador Mike Newell regressa, em filme com argumento de Kevin Hood e Thomas Bezucha, interpretado por Lily James, Michiel Huisman e Matthew Goode, para contar a experiência de uma jornalista na pesquisa para um livro sobre a ocupação nazi de Guernsey, uma das ilhas do Canal da Mancha, entre o Reino Unido e França. E o que começou como correspondência com a sociedade literária local e prosseguiu com uma visita à ilha transforma-se num retrato que envolve vários dos habitantes numa história de amizade e solidariedade.O cinema francês está representado na sátira ao ensino em Madame Hyde de Serge Bozond com Isabelle Huppert, contemplada com o prémio de melhor atriz no festival de Locarno, no papel de uma professora que após ser atingida por um raio desenvolve poderes misteriosos que a transformam totalmente a nível pessoal e profissional. Os fãs dos géneros de terror e de ficção científica devem apreciar Um lugar silencioso de John Krasinski que, num misto do suspense de Hitchcock e do universo Alien, é considerado uma parábola da realidade atual americana ao descrever um mundo apocalíptico em que qualquer som pode chamar seres alienígenas aterradores. Sobre personalidades americanas, LBJ, de Robe Reiner com Woody Harrelson no papel do 36º presidente americano, é um relato da vida política de Lyndon B. Johnson durante a sua permanência no Senado, como vice-presidente de John F. Kennedy e presidente após o assassinato deste em 22 novembro 1963.

Por fim, surgiu nos ecrãs o aguardado Han Solo, uma história da Star Wars de Ron Howard sobre a juventude de um dos mais icónicos rebeldes do cinema. Alden Ehrenreich substitui Harrison Ford na personagem que faz parte da saga que movimenta milhões de fãs e que já pertence ao imaginário popular desde os anos 70 do século XX. Mais uma obra a demonstrar como a magia do cinema une várias gerações e contínua presente ao longo do tempo.

Luísa Oliveira

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