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Archive for the ‘As Fitas do Mês’ Category

No conjunto das estreias de novembro o destaque vai para o documentário apresentado em sessões especiais Rosas de Ermera de Luís Filipe Rocha. Relato verídico do período da 2ª guerra mundial em que Timor foi invadido por tropas japonesas e os pais e irmã do cantor de resistência e intervenção José Afonso foram internados num campo de concentração. Com imagens de arquivo e testemunhos dos irmãos do cantor é uma forma emotiva de revisitar e reviver esse período, tanto em Timor como na metrópole salazarista.

Igualmente muito interessante é Peregrinação de João Botelho, adaptação da obra homónima de Fernão Mendes Pinto, impressa pela primeira vez em 1614, com as aventuras no oriente apresentadas numa mistura de fantasia e realidade, em ambientes fantásticos e misteriosos valorizados pela excelente fotografia a que se junta coros como elementos enriquecedores.

Nas estreias do mês destaque ainda para o filme que lidera as nomeações para os prémios da Academia Europeia de Cinema, a entregar em 09 de dezembro, O Quadrado do sueco Ruben Ostlund, galardoado com a Palma de Ouro do último Festival de Cannes. Inspirado em algumas situações reais vividas pelo realizador, esta sátira desenrola-se no espaço de um museu enquanto decorre uma instalação de arte contemporânea e, segundo aquele, deve ser analisada numa perspetiva sociológica para se concluir o que falha no ser humano, neste caso, a degradação progressiva do curador da exposição com tudo o que o rodeia.

Também de degradação, mas social, a brilhante comédia apresentada em tom teatral e que termina em tragédia A Festa de Sally Potter, produzida pela BBC com excelentes interpretes, como Kristin Scott Thomas, apresenta um pequeno grupo de sete pessoas da classe média-alta cujas atitudes representam uma metáfora da actual  situação sócio-política da Inglaterra.

Tivemos Um Crime no Expresso do Oriente de Kenneth Branagh, realizador e protagonista nesta nova adaptação do policial clássico de Agatha Christie. Nesta obra, porém, além de algumas alterações à narrativa original, o carismático detective belga, Hercule Poirot, surge totalmente descaraterizado e ridículo, completamente diferente da personagem original da autora, valendo o filme apenas pelos excelentes atores que fazem parte do elenco.

Várias estreias mostraram argumentos sobre resistência e resiliência de quem viveu situações traumáticas. David Gordon Green em Stronger – a força de viver trata uma temática ligada ao terrorismo, o atentado de 15 de Abril de 2013 na maratona de Boston. Baseado no livro de memórias de Jeff Bauman que perdeu ambas as pernas no atentado mas que ajudou a encontrar um dos terroristas, demonstra o efeito que o acontecimento teve na sua vida e na dos seus familiares. Os atores Jake Gyllenhaal e Tatiana Maslany transmitem na perfeição a angústia vivida por Jeff no seu quotidiano como deficiente mas também a sua superação física e emocional transmitindo uma mensagem de esperança.

Com a mesma finalidade Vive de Andy Serkis, produzido por Jonathan Cavendish, retrata as vivências resultantes do facto do seu pai, Robin Cavendish, ter contraído poliomielite aos 28 anos. Além da história de amor e de ânimo dos pais do produtor perante a adversidade, também tem um objectivo informativo pois valoriza o contributo de Robin Cavendish para a melhoria das condições de tratamento de quem sofria as mesmas limitações causadas pela doença.

Focando também as consequências de doenças terríveis no seio familiar  Um Homem de Família de Mark Williams conta com Gerard Butler no papel do protagonista que altera a sua perspectiva do mundo quando vê o filho de 10 anos, Ryan (Max Jenkins), ser internado com leucemia. A montanha entre nós de Hany Abu-Asad é mais um argumento sobre o instinto de sobrevivência em condições adversas com adaptação da obra homónima de Charles Martin. Enriquecido pelas interpretações da oscarizada Kate Winslet e Idris Elba que juntam esforços para sobreviverem num ambiente hostil após um trágico acidente de avião.

Marcas de guerra de Jason Hall apresenta factos reais vividos por milhares de combatentes, neste caso soldados americanos que combateram no Iraque, ao ingressarem na vida civil e a forma como têm de viver com os traumas de guerra. Shot caller – sobreviver a todo o custo de Ric Roman Waugh retrata a realidade do ambiente violento e aterrador do meio prisional. Protagonizado, de forma exemplar, por Nikolaj Coster- Waldau o realizador pesquisou e contactou durante vários anos os elementos desse meio para realizar um drama contra um sistema que leva muitos prisioneiros à degradação moral e a transformarem os seus percursos de vida para sobreviverem.

E porque nunca é demais esquecer os ideólogos do mal mas, sobretudo, os que lutaram  contra o terror  nazi defendendo o direito à liberdade, temos  O homem do coração de ferro de Cédric Jimenez, denominação atribuída por Hitler à terrível figura emblemática do nazismo: Reinhard Tristan Eugen Heydrich. O filme descreve a sua ascensão nas tenebrosas  SS e a forma como  espalhou o terror por onde passava até à sua morte com 38 anos de idade em maio de 1942, vítima de um atentado em Praga organizado pela Operação Antropóide. Este acontecimento idealizado por Winston Churchill e por um pequeno grupo da Resistência Checa e dirigido por membros do governo checolosvaco no exílio foi posto em prática por Jan Kubis e Jozef Gabci. No entanto, a morte de Reinhard Heydrich desencadeou uma terrível sequência de massacres perpetuados pelos nazis com destaque para o que teve como alvo a destruição sangrenta da aldeia de Lídice.

Com a aproximação da época natalícia, surgem mais filmes direcionados para o público  infantil / juvenil, como é o caso do colorido  Coco de Lee Unkrich e do artista gráfico Adrian Molina. É uma maravilhosa obra animada da Disney Pixar, que valoriza os costumes e tradições mexicanas a partir da viagem de uma criança com o seu companheiro canino ao mundo dos mortos. Não é uma obra assustadora, muito pelo contrário, pois apresenta-se divertida, animada, com cenários mágicos, realçando os sonhos de criança e o respeito e valorização da família, o que condiz com a época festiva.

Termino salientando que em novembro, além das estreias, também se verificou reconhecimento de obras nacionais em acontecimentos cinematográficos internacionais. A primeira longa-metragem de ficção do realizador português Pedro Pinho A fábrica de nada  recebeu o Prémio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Sevilha que se vem juntar a outros galardões, nomeadamente, os Prémios do Público  no Festival Ficvaldivia, no Chile, CineVision no Filmfest München, de Melhor Realização no Duhok IFF’17, do Júri no CineFest Miskolc Internacional Film Festival’17 e o da Crítica no Festival de Cannes.  Também o filme Farpões Baldios de Marta Mateus, que reflete sobre ruralidade e trabalho, já tinha vencido o Grande Prémio do Curtas Vila do Conde- Internacional Film Festival conquistou o Grande Prémio do Hiroshima International Film Festival, no Japão.

Luísa Oliveira

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Os fãs de ficção científica há muito que aguardavam a estreia de Blade Runner 2049 de Dennis Villeneuve, 35 anos após o filme de culto realizado por Ridley Scott .  Mas a espera valeu a pena pois a magia do cinema continua nos 163 minutos desta obra que apresenta agora Ridley Scott como produtor, continuando a personagem de Harrison Ford  assim como o   mesmo ambiente soturno  e claustrofóbico de Los Angeles, com a excelente banda sonora a contribuir para a atmosfera assombrada  da cidade. No meio de paisagens futuristas, fruto de fotografias espectaculares, mantem-se a questão filosófica sobre as noções de realidade e definição do ser humano a que se junta a de paternidade.

Outra estreia a salientar devido ao modo criativo como combina atores, tecnologia digital e imagens pintadas a óleo sobre tela por 120 artistas é  A Paixão de Van Gogh, animação de longa-metragem do inglês Hugh Welchman e da polaca Dorota Kobiela,  com um enredo passado após a morte do carismático pintor  partindo de um  inquérito  às circunstâncias  em que a mesma ocorreu. Assim, nesta obra denominada ”a primeira longa metragem totalmente pintada do mundo”, em que se especula acerca da explicação aceite  sobre o acontecimento, os realizadores pretenderam preservar a autenticidade estética dos quadros, utilizarando técnicas morosas e pouco convencionais pelo que, a realização demorou 5 anos.

Mas sem dúvida que a estreia a salientar em outubro é a obra premiada com o Urso de Prata de melhor realizador no festival de Berlim: O Outro Lado da Esperança de Aki Kaurismäki  é considerada  por muitos o melhor filme do ano. O tema é atual e pertinente  pois  debruça-se sobre a situação de um refugiado sírio que procura reconstruir a sua vida em Helsinquia onde a sua presença provoca reações contraditórias pois, embora seja  apoiado por alguns elementos da comunidade,  também é atacado por outros. No meio de situações humorísticas e dramáticas do quotidiano o que transparece nesta emotiva obra é que ainda é possível ter esperança na humanidade.

Em Amor de Improviso, Michael Showalter trata com humor factos reais envolvendo a vida pessoal do comediante paquistanês Kumail Nanjiani, autor do argumento, sobre o período em que conheceu a sua mulher e de que forma é que conseguiram manter o relacionamento apesar do mesmo não ser aceite pela sua família tradicional. Igualmente sobre ambientes familiares temos o simpático Castelo de vidro de Destin Cretton, baseado na autobiografia da jornalista Jeannette Walls e na sua problemática infância no seio de uma família disfuncional, sendo este testemunho uma forma da jornalista se reconciliar com o seu passado instável. O papel dos laços familiares também está presente em Aquilo que nos une de Cédric Kllapisch, a história de uma família  vinícola  a debater-se  com a continuação do negócio e o futuro da herança familiar. O filme embora apresente as tensões resultantes da indefinição no que respeita às decisões a tomar é uma forma de enaltecer a união e o legado familiar associado, neste caso, à terra.

Um filme de qualidade que junta ação, suspense e questões políticas, O estrangeiro de Martin Campbell, apresenta Jackie Chan numa boa interpretação de um pai desesperado pela morte da filha num atentado terrorista e que se transforma num homem sedento de vingança  na  busca dos  responsáveis pelo ato criminoso. Sobre um tema sempre actual e que envolve várias gerações de emigrantes, Todos os sonhos do mundo de Laurence Ferreira Barbosa aborda a vida dos portugueses emigrados em França, descrevendo a realidade de uma geração de luso-descendentes na procura de identidade e dividida entre duas culturas.

Por fim, um filme que esperemos que não seja premonitório, Geostorm – Ameaça global de Dean Devlin, para os que apreciam obras em que ficção científica, relata-nos situações catastróficas que põem em causa a segurança do planeta.

Termino relembrando que Cineclube Impala Cine, da Associação Gandaia, no Auditório da Costa de Caparica continua os ciclos de cinema, sendo o do mês de novembro, dedicado ao tema «No despertar do Sonho Americano», o que representa uma oportunidade para rever obras de qualidade às quintas-feiras às 21:00 horas.

Luísa Oliveira

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Setembro marca o início das atividades letivas e a continuação da divulgação das estreias nacionais cinematográficas. Começo com um filme dirigido ao grande número de fãs de Jennifer Lawrence, o sombrio e misterioso Mãe, de Darren Aronofsky,  em que  interpreta  uma  mulher frustrada  de um escritor, representado por Javier Bardem, cuja suposta tranquilidade é alterada com a chegada de um casal à sua habitação. É um filme delirante e alucinante que tem dividido a crítica pois não há consenso na análise do mesmo, ao contrário de  It de Andy Muschietti,  adaptação  do romance  homónimo de Stephen King.  Esta obra, que se enquadra no género de terror, revela não só as inquietações próprias das  relações entre gerações  como também os medos das crianças na figura do palhaço assassino Pennywise. Esta película registou a melhor estreia do género e como continua a ser um sucesso de bilheteira está prevista a  sequela em 2019 .

Kathryn Bigelow, a primeira mulher a receber um Óscar  na categoria de realizadora,  volta a surpreender com uma excelente  obra  sobre acontecimentos críticos  nos  EUA, neste caso, os motins de 1967  em  Detroit. Assim, volta a problematiza os valores identitários americanos com factos ocorridos num período de grande instabilidade política e social, marcado pela guerra do Vietname, pela repressão policial, descriminação racial e luta pelos direitos civis. A apresentação dos acontecimentos que abalaram a cidade de Detroit nesse período e a forma como o disparo acidental de uma pistola de pólvora seca num motel da cidade se torna o pretexto para uma brutal repressão policial por parte de agentes brancos sobre afroamericanos  demonstra bem  a realidade da época  marcada por  fortes disparidade raciais em todos os setores.

A filmografia francesa continua presente, neste caso, com Um Rico Sovina de Fred Cavayé , uma  comédia popular francesa em que sobressai   o  trabalho de composição do humorista Dany Boon. Igualmente no género comédia, mas aliada à ação a adaptação da banda desenhada de Mark Millar e Dave Gibbons, temos o segundo capítulo  do  filme de espionagem  Kingsman: O Círculo Dourado  de Matthew Vaughn  com um elenco de luxo em que sobressaem Colin Firth, Julianne Moore, Jeff Bridges e a presença exuberante  e música de  Elton John.

Também agradável Era uma vez  em Los Angeles de  Mark Cullen é uma comédia ligeira  que cumpre a função de distração, com Bruce Willis  no papel de um detetive que se envolve em inúmeras peripécias  para recuperar o seu cão Buddy raptado por um gangue ligado ao tráfico de droga.

Já no género melodrama,  Reviver o passado em Montauk, com o veterano ator  alemão Volker Schlöndorff  como  realizador,  baseia-se no  argumento escrito pelo irlandês Colm Tóibín. Com diálogos em que o silêncio impera, salientam-se as brilhantes interpretações do sueco Stellan Skarsgard e da alemã Nina Hoss.

Os admiradores de obras envolvendo figuras históricas, por seu turno, devem apreciar Vitória & Abdul de Stephen Frears, uma interessante obra sobre o período final do reinado da emblemática rainha britânica que marcou uma época. A veterana Judi Dench volta a encarnar a personagem de rainha Vitória numa obra baseada em factos reais  sobre a relação de amizade que manteve desde 1887 até à sua morte em 1901 com o jovem indiano, funcionário  na corte, Abdul Karim, interpretado por Ali Fazal.

De Moçambique chegou Comboio de sal e açúcar de Lícinio Azevedo, adaptação do romance homónimo do realizador, que retrata os trágicos acontecimentos verídicos  ocorridos em 1988 durante o período terrível da guerra civil.

Por fim, importa referir a interessante obra portuguesa A fábrica do nada de Pedro Pinho, galardoada com os prémios FIPRESCI do festival de Cannes e o Cinevision no festival de cinema de Munique. Com interpretações de atores e não atores, a equipa de realização inspirou-se em situações reais de uma zona industrial com o encerramento de fábricas e consequente desemprego de muitos operários. Representa uma reflexão sobre o valor do trabalho num período de crise socioeconómica, pois o argumento segue a vida de um grupo de operários que tentam segurar os postos de trabalho, através de uma solução de autogestão coletiva e evitar assim o encerramento de uma fábrica.

Termino relembrando que o mês de outubro está associado a bons documentários, pois  a 15ª edição do Doc Lisboa decorre de 19 a 29 outubro com um programa aliciante que pode ser consultado  em  www.doclisboa.org.

Luísa Oliveira

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No mês de maio o mundo cinematográfico esteve concentrado nos acontecimentos ligados ao festival de Cannes que decorreu com o glamour habitual. No vasto leque de prémios atribuídos os portugueses também foram contemplados pois o realizador Pedro Pinho venceu o Prémio FIPRESCI, da Federação Internacional de Críticos de Cinema, pelo filme ‘A fábrica de nada’, estreado na Quinzena de Realizadores, secção paralela ao festival. Esta obra, interpretada por atores e não atores, segue a vida de um grupo de operários que tentam manter os seus locais de trabalho e evitar o encerramento da fábrica através de uma solução de autogestão coletiva.

Quanto a estreias em maio abrangeram vários géneros mas a referência especial vai para o belíssimo filme do suíço Claude Barras, um dos nomeados para o Óscar de melhor longa metragem de animação, A Minha Vida de Courgette que, utilizando as técnicas de manipulação de pequenos bonequinhos (“stop motion”), apresenta um emocionante e comovente retrato de um órfão que, na instituição onde vive, vai aprender o que significa estabelecer uma relação humana. Outra obra de animação, a primeira em 3D produzida pela equipa da TO Studio de Paris, Amarelinho, de Christian De Vita, tem como base de argumento as migrações de ave pelo que além de ser muito educativo também transmite uma mensagem sobre força de vontade e superação individual.

Os enredos ligados à 2ª guerra mundial, por seu turno, continuam a originar boas obras como é o caso da produção norueguesa A escolha do rei de Erik Poppe sobre a opção do rei Haakon da Noruega perante o ultimato dos alemães em abril de 1940. É uma obra importante pois demonstra como é determinante o papel de líderes honestos e corajosos na tomada de decisões em épocas cruciais para as nações. Ainda sobre a mesma época mas, neste caso, apresentando o contributo da população civil para mitigar os efeitos negativos do conflito, temos Heróis da nação da realizadora dinamarquesa Lone Scherfig, uma adaptação do best-seller de 2009 “Their Finest Hour and a Half”, da escritora inglesa Lissa Evans. Realça o esforço de mulheres nomeadamente na realização dos filmes de propaganda ingleses que contribuíram não só para levantar o moral das populações durante o Blitzkriegg, quando a Inglaterra estava na iminência de ser invadida pelos exércitos nazis, como também serviram para convencer os norte-americanos a entrarem no conflito.

Os argumentos de ação e aventura foram a base em várias películas como A Cidade  Perdida de Z  de James Gray,  história verídica do explorador e aventureiro inglês Percy Fawcett , que viaja ate à Amazónia no início do século XX e descobre provas de uma avançada civilização até então desconhecida, que terá habitado a região. Como a comunidade científica não aceita esta suposta descoberta, o obcecado explorador  retorna à região desaparecendo misteriosamente  em 1925.  Outra aventura mas, neste caso, no alto-mar, Pirata das Caraíbas: homens mortos não contam histórias de Joaquim Ronning e Espen Sandberg,  é a quinta película  da  lucrativa saga  da Disney com um  orçamento  record da história do cinema  no valor  de 320 milhões de dólares continuando a apresentar Johnny Depp como protagonista  no papel do carismático pirata Jack Sparrow.

Ridley Scott retoma o terror associado  à ficção científica  em  Alien: Covenant que certamente será do agrado de imensos cinéfilos que têm como culto a saga Alien. Igualmente os que preferem cenas com personagens mais ou menos históricas interessam-se por Rei Artur – a lenda da espada de Guy Ritchie,  que retoma um tema já tratado em muitas obras sobre luta pelo poder. Num género diferente que associa suspense a terror, Foge de Jordan Peele é uma obra perturbante que utiliza a sátira racial  para focar a hipocrisia de determinados grupos sociais em relação à diversidade étnica. Apesar dos vários momentos assustadores e arrepiantes que o filme apresenta é uma  obra aconselhável pela crítica implícita à hipocrisia da sociedade atual  sobre questões ligadas ao racismo.

Por fim o emotivo O sentido do fim de Ritesh Batra, a partir da obra homónima de Julian Barnes,  apresenta um conjunto de atores consagrados como Charlotte Rampling e Jim Broadbent  o que garante boas interpretações  num drama passado em duas épocas distintas sobre as consequências de determinadas escolhas de vida.

Luísa Oliveira

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Quem aprecia cinema está atento não só às estreias como a eventos ligados ao mundo cinematográfico. Como tal, a realização do Indie Lisboa de 3 a 14 maio terá, certamente, grande adesão do público como tem vindo a acontecer ao longo das treze edições anteriores. Prevê-se a apresentação de um conjunto de obras de grande interesse com inúmeras atividades dirigidas para diferentes faixas etárias e que enriquecem este evento.

Igualmente para usufruir a terceira edição da Festa do Cinema promete mais de dez mil sessões de cinema em todo o país a 2,5 euros entre os dias 22 e 24 de maio.

Em relação às estreias de abril assinalo as que considero de maior qualidade sendo que o destaque vai para a curiosa coprodução azerbaijana e britânica Ali e Nino de Asif Kapadia, uma mistura de história de amor e de guerra que decorre no início do século XX durante a luta do Azerbeijão pela independência. A paixão entre o príncipe mouro Ali, descendente de uma das grandes famílias que controla a produção petrolífera, e a princesa cristã ortodoxa Nino, da elite financeira georgiana, faz deste filme uma espécie de Romeu e Julieta. Esta obra que devido à sua temática teve estreia europeia, em março, no Parlamento Europeu, baseia-se no romance mais célebre da literatura do Azerbaijão, assinado pelo pseudónimo Kurban Said em 1937.

Também numa história de amor mas em tempos recentes, Javier Bardem e Charlize Theron são os protagonistas de The Last Face – A Última Fronteira de Sean Penn,   num cenário de guerra na sofrida Libéria com a ajuda humanitária internacional  a contribuir para minimizar a violência de  um conflito em que a vida humana não tem nenhum valor.

Abordando a mesma temática da esperança e resistência à barbárie extremista, O Jardim da Esperança de Niki Caro é mais uma obra sobre o terrível período da 2ª guerra mundial quando a Polónia é invadida pelas tropas nazis onde até o Jardim Zoológico de Varsóvia não foge ao controlo das tropas invasoras. Fundamentado em factos verídicos retratados no livro homónimo da escritora Diane Ackerman a partir dos diários de Antonina Zabinska que juntamente com o seu marido, diretor do Jardim Zoológico, conseguem salvar centenas de judeus colaborando com a Resistência.

Juntos para sempre de Lasse Hallstrom com Dennis Quaid é um filme para toda a família contado sob a perspetiva de um cão e que emocionará sobretudo os que gostam de animais. Baseado no romance bestseller A Dog’s Purpose de W. Bruce Cameron, é a história de um cão que nas diversas reencarnações encontra o significado da sua própria existência através das vidas dos humanos que ele ensina a rir e amar.

Já num género diferente, Ladrões Com Muito Estilo de Zach Braff é uma comédia que retoma um tema já tratado anteriormente de um grupo de idosos reformados que organiza um assalto a um banco como forma de resolverem as suas dificuldades financeiras – filme divertido que demonstra que atores como Morgan Freeman e Michael Caine, apesar da idade avançada, mantêm as suas qualidades artísticas.

Por fim, a coprodução portuguesa e são-tomense A Ilha dos Cães de Jorge António tem a particularidade apresentar a última prestação de Nicolau Breyner no cinema interpretando um sádico fazendeiro esclavagista. Adaptação do romance “Os senhores do areal”, do escritor angolano Henrique Abranches, é uma ficção passada em diferentes épocas em São Tomé e Príncipe e Angola, abordando a escravatura e a descolonização. Segundo o seu realizador na nota de intenções, o filme parte de um “tema forte e universal – o Homem versus a sua (própria) natureza … uma excelente premissa para criar um filme diferente, na medida em que as personagens se colocam e nos colocam questões pertinentes sobre como o presente resolve (ou não) as expetativas geradas no passado e como pode (ou não) projetar o futuro. Os cães representam a força da natureza e do que não pode ser subjugado”.

Luísa Oliveira

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No dia vinte e  três de março, no Centro Cultural de Belém,  foram entregues os Prémios Sophia, da Academia Portuguesa de Cinema, que  contemplou o filme Cartas de Guerra de Ivo Ferreira com 9 das 21 estatuetas distribuídas,  entre as quais as de Melhor Filme e Melhor Realização. Esta obra que tinha 11 nomeações foi feita a partir da correspondência entre o escritor António Lobo Antunes e a primeira mulher, Maria José, quando esteve destacado em Angola, durante a Guerra Colonial: “Cartas da Guerra” deixa um retrato sobre “a maior tragédia portuguesa do século XX”, como o realizador disse à Lusa, quando a longa-metragem teve estreia em sala, em setembro do ano passado.

A memória da Guerra Colonial passa igualmente por “Estilhaços”, de José Miguel Ribeiro, que juntou o Prémio de Melhor Curta-Metragem de Animação, ao seu rol de distinções enquanto Balada de um Batráquio de Leonor Teles recebeu o Sophia de Melhor Documentário em Curta-Metragem. A Academia Portuguesa de Cinema distinguiu ainda o ator Ruy de Carvalho com o Prémio Mérito e Excelência, assinalando os seus 90 anos de vida e 75 de carreira assim como atribuiu os prémios Sophia Carreira à atriz Adelaide João e ao diretor de fotografia Elso Roque.

Quanto a estreias, começo com filmes de ficção científica com o interessante O Espaço Que Nos Une de Peter Chelsom, uma forma diferente e curiosa de abordar este género numa história de amor e de perda a partir da primeira missão de colonização do planeta Marte e das dúvidas e interrogações do primeiro humano nascido no planeta vermelho. Igualmente de ficção científica, o thriller espacial Vida inteligente de Daniel Espinosa remete-nos para a série de culto Alien e, por isso, aguarda-se a sequela desta obra claustrofóbica. A recolha de uma amostra do solo de Marte por um grupo de cientistas da estação espacial internacional conduz não só à primeira prova de existência de vida extraterrestre como também é o ponto de partida para momentos de tensão e um conjunto de acções violentas e sangrentas que levam a classificar esta obra também de terror.

Para os apreciadores de argumentos românticos e baseados em factos verídicos Um  Reino Unido de Amma Asante  a partir de factos ocorridos no final da década de 40 do século XX envolvendo  o casamento  do  príncipe herdeiro do Botswana, Seretse Khama  e  Ruth  Williams, britânica e branca. Um amor que causou grande polémica pois o casal embora exilado do Botswana  resistiu às  pressões  familiares e políticas,   numa época em que o colonialismo  e o apartheid sul africano dominavam, causando também solidariedade internacional. Quando o território se torna independente em setembro de 1966 Seretse Khama torna-se Presidente, cargo que ocupará até à sua morte em 1980.

Igualmente sobre relações amorosas e  desejo feminino  o filme  francês  Um Instante de Amor de Nicole Garcia baseado na obra homónima de Milena Agus com Marion Cotillard a brilhar no papel de uma mulher em conflito  e na  busca do amor  numa sociedade conservadora no  pós 2ª guerra Mundial. A Warner Bros. Pictures e Legendary Pictures e os japoneses da Toho recriam a origem do mítico King Kong  em  Kong: Ilha da Caveira numa emocionante e original aventura do realizador Jordan Vogt-Roberts . Neste filme a equipa de exploradores integra elementos ligados a departamentos governamentais e militares de que fazem parte os  protagonistas Brie Larson como fotógrafa, Tom Hiddleston  Samuel L. Jackson e John Goodman, nesta   nova versão de exploração numa ilha desconhecida do Pacífico. A aventura original envolvendo esta figura clássica data de 1933 e, embora ao longo dos tempos tenha tido várias  versões, o argumento baseia-se  sempre na oposição entre o avanço tecnológico e os seres de um mundo primitivo.

Outra adaptação, mas neste caso do clássico de animação de 1991, A Bela e o Monstro de Bill Condon é uma versão com modernos efeitos especiais digitais que partilham com os atores a composição das cenas. Sem caráter lúdico, o horror do Holocausto serve de base a uma obra cinematográfica em Negação de Mick Jackson a partir de factos reais sobre a disputa judicial envolvendo uma historiadora do Holocausto e um negacionista do mesmo.  Baseado no famoso livro “Denial: Holocaust History on Trial” que a historiadora norte-americana Deborah Lipstadt escreveu como ré no processo de difamação movido por David Irving que nega a existência do Holocausto. Com um excelente elenco é uma obra actual numa época em que vivemos com conflitos entre crenças religiosas e ideológicas esquecendo-se muitos factos históricos.

Também sobre memórias e resistência, temos a interessante obra do realizador brasileiro Kleber Mendonça Filho Aquarius, em que a veterana Sónia Braga interpreta uma viúva aposentada que recusa vender o seu apartamento lutando contra as pressões de que é vítima. Por fim, um divertido e comovente filme sueco nomeado para os Óscares de Melhor filme estrangeiro e de Melhor maquilhagem Um homem chamado Ove de Hannes Holm  a partir do best seller homónimo de Fredrik Backman.  Esta obra agradável consegue equilibrar situações de humor negro com os bons sentimentos de uma personagem que mantém as mesmas rotinas, zangas com os vizinhos e paixão pela mulher morta. É uma obra que enfatiza a importância da tolerância e da entreajuda na comunidade como forma das pessoas demonstrarem os valores e caráter que têm.

Luísa Oliveira

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Embora o tema principal do mês seja a cerimónia dos Óscares de Hollywood, é de destacar, por um lado, a atribuição do Urso de melhor filme na Berlinale Short a Diogo Costa Amarante  com Cidade Pequena, um filme estreado no Curtas Vila do Conde. Por outro lado, Gabriel Abrantes viu o seu Os Humores Artificiais nomeado para o prémio de melhor curta-metragem dos Prémios do Cinema Europeu de 2017, os chamados Óscares da Academia europeia. Quanto ao Cineclube Impala, a funcionar no centro comercial O Pescador na Costa de Caparica, inicia, no mês de março, o ciclo dedicado a Woody Allen com projeção, às 5ª feiras de cinco obras deste emblemático realizador.

No que respeita à 89ª edição dos Óscares da Academia de Hollywood, ela será sempre lembrada pelo momento insólito causado pela troca de envelopes aquando da indicação de melhor filme inicialmente atribuído a La La Land mas que momentos depois foi retificada, sendo o vencedor o excelente drama Moonlight de Barry Jenkins. Um embaraço histórico de uma cerimónia marcada pelas críticas a Trump mas que foram ofuscadas pela situação vivida no final.

Moonlight foi uma das estreias de fevereiro e das oito nomeações recebeu três, pois também foi distinguido com os prémios de melhor argumento original e de ator secundário atribuído a Mahershala Ali. Inspirado num  projecto, nunca apresentado, do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, “In Moonlight Black Boys Look Blue” apresenta três momentos distintos da vida de Chiron, um jovem afro americano introvertido e solitário vivendo num bairro problemático de Miami enquanto faz o seu percurso em busca da identidade própria apoiado na figura de um traficante local e de sua mãe, uma enfermeira viciada em crack. É uma história densa e violenta, típica da periferia de Miami, onde McCraney e Jenkins cresceram.

Mas o vencedor da noite foi, sem dúvida, La La Land  de Damien Chazelle que  se tornou no mais jovem realizador a ganhar o prémio de melhor realização que se veio juntar a outros cinco entre os quais o  da fabulosa banda sonora.

Entre os inúmeros prémios realce para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro do filme The Salesman, de Asghar Farhadi, do Irão pois tanto o realizador como os atores não compareceram à cerimónia como protesto contra as medidas xenofóbas de Trump, tendo sido  representados por duas figuras iranianas de grande relevância nos Estados Unidos: a engenheira Anousheh Ansari, primeira mulher a fazer turismo espacial, e Firouz Naderi, antigo diretor de explorações solares da NASA.

Outra estreia de fevereiro foi Vedações de Denzel Washington que valeu, o merecido reconhecimento, a Viola Davis com o Óscar de melhor atriz secundária tornando-se na primeira atriz afro-americana a acumular  este prémio com o Tony e Emmy. Baseia-se na premiada peça teatral homónima de August Wilson e retrata, com diálogos intensos e comoventes, uma história familiar na década de 1950, época de descriminação racial.

Também sobre a descriminação racial, Elementos secretos de Ted Melfi apresenta a história desconhecida e valiosa do importante contributo para a corrida espacial da NASA de brilhantes mulheres afro-americanas.

Igualmente sobre momentos históricos americanos, tivemos Jackie de Pablo Larraín, com Natalie Portman a interpretar a  bela e misteriosa Jacqueline Kennedy, mulher do presidente americano John Kennedy assassinado em  22 de novembro de 1963.

Outra obra didática e quando estamos a viver uma época em que sopram, novamente, os ventos da intolerância, Stefan Zweig – adeus Europa de Maria Schrader relata episódios  da vida  do escritor e pacifista judeu austríaco perseguido pelos nazis, que previu o declínio da Europa. Exibido, anteriormente, na Mostra de Cinema de Expressão Alemã é apresentado como um documentário histórico sobre uma das grandes personagens do século XX durante o seu exílio no continente americano até ao suicídio em Petropólis, Brasil, em 1942.

Outra obra com enredo no século passado, Mulheres do século XX de Mike Mills é uma agradável comédia dramática autobiográfica sobre as memórias do realizador relacionadas com o papel que as figuras femininas tiveram no seu percurso de vida .

Por seu turno, Toni Erdmann de Mare Ade é um premiado filme que, além de distinguido com inúmeros galardões pela Academia europeia de cinema e de nomeações para vários festivais, foi o representante da Alemanha ao Óscar de melhor filme estrangeiro. Apesar de longo é uma obra divertida que tem como base a relação familiar conturbada entre pai e filha e a forma como vai evoluir de maneira a criarem laços afectivos.

Os que consideram Trainspotting de 1996 de Danny Boyle um filme de culto devem aprovar a sequela com o mesmo elenco. Este segundo filme, baseado no livro de Irvine Welsh intitulado Porno, passa-se nove anos depois dos eventos da primeira longa-metragem com o tema habitual relacionado com a autodestruição, a heroína, a vingança e a amizade.

Por fim, da longínqua Nova Zelândia, chega-nos O Patriarca de Lee Tamahori,  baseado no livro de Witi Ihimaera  Bublibasha: King of the Gypsies. Com ação na década de 1960, apresenta um drama familiar centrado na disputa entre duas famílias mahori envolvidas na indústria de lã. Embora o enredo não seja original, o filme vale pela banda sonora e pelas belíssimas paisagens da Nova Zelândia rural além de que é sempre enriquecedor ver cinematografia de outros países além das produções europeias e norte-americanas.

Termino com uma referência especial à 16 ª edição da Monstra Festival de Animação de Lisboa, a decorrer de 16 a 26 março, com a Itália como país convidado, exibindo uma programação aliciante e diversificada, abrangendo obras de várias proveniências que, certamente, irão agradar aos cinéfilos.

Luísa Oliveira

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