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Damien Hirst e "For the love of god"

Talvez nunca arte alguma tenha sido tão suspeita de “embuste” como a que faz Damien Hirst, nem, tão pouco, artista algum se tenha tornado tão célebre, não em virtude da questionável qualidade da sua obra, mas em virtude da sua extrema mediatização. Os seus trabalhos têm contudo o mérito de questionar os limites da liberdade e do gosto. Damien Hirst é controverso, como tal tem sido sempre tanto exaltado, como vilipendiado. E copiado também. Hoje, com 46 anos, e depois de uma vida desregrada, o único excesso que se lhe conhece é o dos muitos milhões que ganhou (é o artista mais rico do mundo, segundo a Sunday Times Rich List), e prepara-se para inaugurar na Tate Modern a exposição do ano, – a retrospectiva da sua obra. Neste, que é o um dos mais importantes espaços expositivos da contemporaneidade, escolheu-se precisamente este período, Abril a Setembro, em que Londres se prepara para acolher os milhões de visitantes para assistirem aos Jogos Olímpicos, para mostrar os valores britânicos. E a escolha recaiu precisamente em Damien Hirst.

"The anatomy of an angel"

Não deixa de ser vagamente irónico que este ícone da arte contemporânea, que graças a ela se tenha tornado riquíssimo e poderosíssimo (passe-se a redundância), tenha iniciado a sua via para o estrelato à margem e contra o sistema, liderando um grupo que se definia pela rebeldia e pela provocação, os YBA, acrónimo de young british artists.

Mas quem é Damien Hirst, que aura mediática possui, que conseguiu até impor, à revelia da direcção e da curadoria, entre as salas onde decorre a sua retrospectiva, um espaço para vender a sua merchandising? Nascido em meio desfavorecido (pai mecânico e fugitivo, mãe funcionária e católica, que confessou ter perdido cedo a mão no filho), viu por várias vezes rejeitada a sua candidatura a escolas de arte, tendo finalmente sido aceite na Golsmith College, escola onde se graduaram grande parte dos YBA. Para financiar os estudos, foi obrigado a trabalhar numa mortuária e, muito a propósito, o tema central da sua obra é precisamente a morte. Não o lado poético ou ontológico desta, mas antes o seu lado macabro e repulsivo, o da inevitabilidade da putrefacção. A do processo da decomposição, mas também o da sua suspensão, o da preservação da matéria. Daí a quantidade recipientes com animais em formol. Aliás o seu trabalho toca muito de perto o do taxidermista, pela utilização das técnicas de dissecação e preservação de cadáveres. As farmácias e os laboratórios, espaços tão ligados à vida como à morte, são também temática recorrente em Hirst.

"Crematorium"

Os seus talentos transcendem, contudo, a sua obra artística. Há um Hirst artista, mas também um empreendedor, um encenador, um polemista, e um coleccionador, que no seu conjunto definem a personagem, e explicam, em parte, o seu êxito. Qualquer destes traços se revelou cedo. Na Londres tacheriana, nos finais da década de 80, alcançaram grande protagonismo os já referidos YBA, cuja figura proeminente foi sem dúvida Damien Hirst. Conhecidos pelas suas “tácticas de choque”, pelos materiais e técnicas utilizados nas suas produções (desperdícios, descartáveis) e pela organização de mostras fora dos circuitos convencionais, expondo em espaços industriais desafectados. Ao comissariar, em 1988, uma exposição, Freeze, Hirst conseguiu chamar a atenção dos média e de Charles Saatchi, o célebre colecionador, que financiou, a partir daí, a sua obra, mas com quem veio a romper, em conflito, em 2003. A notoriedade de Hirst começou com Freeze, ainda estudante e, embora hoje já “ultrapassado”, ocupa ainda, no ranking dos artistas britânicos vivos, o segundo lugar, logo abaixo de David Hockney. É igualmente conhecido pela imensa riqueza que conseguiu acumular, ao vender os seus trabalhos por valores incalculáveis, a quem não se questionou sobre a genialidade da sua obra. Ficará para os anais do mercado da arte, o célebre leilão organizado pela Sotheby´s de Londres, em Setembro de 2008, na véspera, portanto, do afundamento dos mercados mundiais. À revelia das galerias que o representavam (a leiloeira ganha uma comissão inferior), leiloou então um conjunto de obras, que batizou de Beautiful inside my head forever. Nas duas noites em que se realizou o leilão, a Sotheby´s estabeleceu um recorde absoluto de vendas de um só artista. A peça principal era um gamo, em formol, com as hastes e os cascos cobertos de ouro, mas havia outros animais, entre eles, uma zebra e um unicórnio (!), e sobretudo borboletas, muitas pintadas, em composições que incorporavam ouro e diamantes. As vendas, que alcançaram 111 milhões de libras, ultrapassaram as expetativas mais optimistas!

A sua produção compreende, para além dos animais dissecados (carneiros, porcos, vacas) em vitrinas ou contentores, escultura, igualmente animais vivos, como borboletas; pintura – as telas spot e as spin (telas com bolas coloridas ou com espirais resultantes de aplicação de meios mecânicos accionados por assistentes), assim como uma série de gabinetes com instrumentos cirúrgicos, ou com objectos farmacêuticos, e ainda muitos comprimidos. Os seus trabalhos são referenciados como minimalistas e conceptualistas, daí os longos e complexos títulos que lhes atribui.

"The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living"

Na Tate poderão ser vistas as sua obras mais conhecidas, sendo que a de mais aparato, o For the Love of God (2007), crânio em platina, cravejado com 8 601 diamantes (avaliado em 50 milhões de £), peça que possui segurança privada, ocupará a célebre Turnbine Hall, espaço com a muito apropriada forma de cripta. Mas estarão igualmente expostas as suas mais célebres instalações, entre elas a The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living (1991), imagem icónica da arte inglesa da década de 90, na qual um tubarão tigre com 4,3 m se encontra dentro de uma vitrina, suspenso numa imersão de formol. Também as fétidas (no sentido estrito do termo, uma vez que as obras de Hirst possuem também esta outra dimensão, a do odor, nem sempre agradável, como se compreende), Thousand Years (1990), na qual milhares de moscas cumprem, à vista dos visitantes, um ciclo completo, entre a procriação, a alimentação (de uma cabeça de vaca em decomposição) e a morte, tudo dentro de uma caixa acrílica, ou ainda o cinzeiro gigante, repleto de milhares de beatas que ali se encontram desde 1996, altura da sua produção.

"A thousand years"

Também se poderá apreciar In and Out of Love, uma sala cheia de borboletas tropicais, desta vez vivas, alimentando-se de frutos para esse fim expostos; as borboletas são assistidas, na sua curta vida, por entomologistas, e guardadas por seguranças especiais não fujam escondidas nas cabeleiras dos visitantes. Estas são algumas das peças que irão ocupar as 14 salas onde vai decorrer a retrospectiva, sem esquecer ainda as telas spin e spot (1500 quadros só das spots!) e a loja de merchandasing, também ela integrada na exposição.

Nos anos 90, quando Damien Hirst se tornou conhecido, disse numa entrevista, “não vejo a hora de alcançar uma posição em que possa fazer má arte, e safar-me com ela”…

Cristina Teixeira

imagens daqui e daqui

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