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Posts Tagged ‘Yayoi Kusama’

yayoi-kusamaYayoi Kusama é uma artista japonesa (a mais considerada na atualidade no seu país), prolífica e surpreendente,  senhora de uma forma muito particular de ver a realidade e de a exprimir. Nascida em 1929, na província de Matsumoto, numa próspera família de industriais, continua hoje, com 83 anos, a trabalhar e a produzir com imensa energia. Para comemorar os 60 anos da sua atividade artística, duas das mais importantes instituições da arte contemporânea, a Tate, em Londres, e a Whitney, em Nova Iorque, organizaram em 2012 exposições retrospetivas da sua obra. As exposições foram, entre outros, patrocinadas pela célebre marca Louis Vuitton, que, pela mão do seu diretor artístico, Marc Jacobs, encetou em 2011, uma parceria com a artista, que passou a assinar alguns dos cobiçados acessórios da marca.

Artista multifacetada, YaYoi Kusama utilizou todos os meios de expressão, da pintura à escultura, à yayoi-kusama-dots-obsession-2009instalação, ao vídeo, à performance, ao design e à poesia, revelando a sua enorme versatilidade. A sua preferência vai para a instalação e a performance, mas, quer nestes casos, quer nos objetos de design, como telemóveis, malas, ou mesmo cosméticos, como os batons da l’Óreal, que também já desenhou, em todos eles Kusama exibe os seus temas preferidos, uma repetição de bolas em tons psicadélicos, as polka dots (tradução: bolinhas) coloridas, ou sobre fundo colorido, com as quais compõe padrões repetitivos e densos, que cobrem a totalidade das superfícies, ou ocupam todo espaço, no caso das instalações. Essa superfície pode ser, como foi várias vezes o caso, o próprio corpo da artista. Estas polka dots, a que a artista também chama “infinity nets” (redes infinitas) são, de acordo com a própria, o fruto das experiências alucinatórias que sofre desde muito nova. Na verdade, a sua infância e vida familiar não foram felizes. Apesar do conforto que a posição social da sua família lhe proporcionou, teve um pai ausente e uma mãe desequilibrada e autoritária, circunstância que a própria liga ao quadro depressivo e obsessivo grave, com episódios alucinatórios, que desde cedo a perturbou e a levou ao internamento psiquiátricos. O seu universo pictórico, obsessivo e algo pitoresco, é a expressão gráfica das suas experiências alucinatórias, a materialização do seu mundo a-real. E funciona como “ antídoto do mal” (Kusama repetiu em entrevistas, “se não fosse a arte, há muito me tinha suicidado”).

Yayoi Kusama retrospective at Tate ModernAs infinity nets, com esta vertente, simultaneamente artística e terapêutica, ao serem enquadrados pelo movimento avant-gard, movimento do qual Kusama foi uma das principais representantes, tornaram-se um sucesso no mundo artístico. Mas para que isso acontecesse, teve que deixar o país natal, onde iniciou uma formação artística que não a satisfez, e ir para Nova Iorque, cidade onde esse instalou e viveu desde os finais dos anos 50 até 1973, ano em que voltou para o Japão. Em Nova Iorque, no epicentro da arte avant-garde, foi influenciada pelas várias correntes, sobretudo pelo Expressionismo Abstrato e pela Pop-Art, expondo com Andy Warhol e Claes Oldenburg . Por essa altura desenvolveu-se também o movimento de contracultura hippie, no qual Kusama imerge intensamente, preparando festivais (street performances), dos quais ficaram célebres os nus cobertos com as inevitáveis polka dots (Central Park, Brooklyn Bridge, MOMA). Mais tarde vai ainda ligar-se ao Minimalismo e à Art Brut.

Em 1973 volta ao Japão e interna-se numa instituição psiquiátrica em Tóquio, onde passou residir, voluntariamente, até hoje, caindo aos poucos no esquecimento. Reapareceu depois do sucesso do seu trabalho no pavilhão japonês da bienal de Veneza de 1993, onde apresentou uma instalação em que uma divisão em vidro se enchia de pequenas abóboras cobertas com um padrão de pintinhas pretas. Desde então tem esculpido uma série de enormes abóboras amarelas cobertas Abóboras-de-Yayoi-Kusamacom o referido padrão ótico. A abóbora acabou mesmo, de acordo com os seus biógrafos, por se tornar o seu alter-ego.

Bolas, pintas, esferas, acrílicos, espelhos, paredes tatuadas com padrões repetitivos, neons, luzes florescentes, tudo em larga escala, assim é composto o mundo orgânico, abstrato e vibrante de Yayoi Kusama, um mundo que transcende o espaço, brinca com a cor, com o reflexo, e com a densidade, e onde muitas vezes o criador é também criatura, tantas as vezes que a artista é parte da obra.

Este mundo muito particular, criado por esta octogenária de cabeleira vermelha, em cadeira de rodas, decorada com polka dots, está hoje presente em muito dos espaços públicos das grandes cidades do planeta.

Cristina Teixeira

imagens daqui, daqui e daqui

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