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Jean-Michel Basquiat

Em 1980, Jean-Michel Basquiat deixou de assinar como SAMO os graffitis que, sob este acrónimo (qualquer coisa como SAMe Old shit), enchia, nos finais dos anos 70, as ruas do SoHo, Tribeca e East Village, bairros trendy da cidade de Nova Iorque, precisamente as ruas das galerias, percorridas pelos yuppies, o alvo preferido das suas críticas, enquanto graffiter. Os jovens compradores, (de acordo com Basquiat, com os $Daddy´s Funds), eram apaixonados pelo “radical chic” e pelo vanguardismo e, num espaço de quatro anos, Jean Michel Basquiat abandonou a técnica do spray, e os seus desenhos primitivos, os rabiscos e as frases truncadas, passaram das paredes para as telas, e das ruas para as galerias mais glamorosas, de Nova Iorque a Los Angeles, de Zurique a Tóquio.  Junto a Andy Wharol, foi capa no New York Times Sunday, em cujas páginas interiores pousou descalço, vestido com um fato Armani. Os seus quadros vendiam-se então por milhares de dólares, quando, em Agosto de 1988, com apenas 27 anos, morreu vítima de overdose, versão contemporânea do fim trágico e autodestrutivo do artista romântico.

Este foi o percurso, embora nem sempre tão bem sucedido, de inúmeros street artists, aproveitados pelo mercado das artes, sobretudo norte-americano, sendo quase sempre depois votados ao esquecimento, e substituídos por outra novidade. Foi no entanto desta forma que as minorias étnicas, sobretudo afro-americanas, jamaicanas ou hispânicas, conseguiram afirmar-se no mundo das artes plásticas contemporâneas (na música já o tinham conseguido mais cedo – por essa altura, já Jimmy Hendrix punha multidões em êxtase ao partir ou pegar fogo à guitarra durante os concertos), até aí quase um exclusivo das comunidades brancas de origem europeia.

O percurso destes artistas marca também, para a história da arte, a emergência do paradigma pós-moderno na arte, caracterizado pela forte marca da identidade, quer seja ela identidade de género (a feminina ou femininista), de etnicidade, ou de orientação sexual (o caso de Keith Haring, outro célebre criador de grafittis), e pela ressurreição da pintura como género artístico, decretada morta desde que a arte conceptual e o minimalismo tomaram conta da cena artística.

Keith Haring

O grafitti é um fenómeno tanto social como artístico. Os seus praticantes são geralmente oriundos de uma 2ª geração de emigrantes, comunidades desenraízadas e remetidas para os subúrbios, novos guetos das grandes metrópoles, onde aproveitam os espaços públicos para expressarem o seu protesto, riscando a tinta spray (uma novidade dos anos 60) a sua marca distintiva de minorias excluídas. South Bronx, em Nova Iorque, parece ter sido o berço desta prática cultural, assim como do movimento do hip hop, de que não se pode dissociar. Com o movimento da contracultura de Maio de 68 o grafitti invade Paris, com inscrições cujos conteúdos vão do político ao poético, e não mais desaparece como fenómeno urbano.

Graffiti romano encontrado em Pompeia

Embora a sua origem se perca no tempo, (há quem a situe em Roma Antiga – a origem da palavra grafitti é italiana), foi, sem dúvida, a partir dos finais dos anos 60 que a sua prática se torna uma estigma comum a todas as cidades, onde surge associada às tribos urbanas e à demarcação de território, oscilando entre a transgressão e o puro vandalismo (mais ligado ao fenómeno do Tag, assinatura-borrão, que degrada a paisagem urbana), acompanhando a divulgação quase planetária do movimento hip-hop. Hoje em dia, tornou-se um movimento organizado, tendo alcançado a categoria de arte plástica, definida pela utilização dos espaços públicos como suporte, normalmente edifícios devolutos, interpelando o transeunte, divertindo-o pela ironia das suas intervenções e/ou deliciando-o pela mestria de algumas das obras, – a Street Art passou a integrar a paisagem urbana.

fachada da Tate Modern (Londres)

Assim enquadrada, as obras da Street Art chegaram aos museus (o caso da fachada da Tate Modern em Londres), e os seus autores, tal como aconteceu com Jean Michel Basquiat, chegam ao estrelato, sendo contratados e disputados a peso de ouro para intervirem em edifícios condenados à condição de devolutos, em sítios de passagem frequente, assim sendo “requalificados”. A título de exemplo, temos o caso da contratação, por quantia avultada, feita pela Câmara Municipal de Lisboa dos artistas Os Gémeos, dupla de artistas brasileiros, ao Blu (Itália) e ao Sanz (Espanha) para a intervenção na fachada de dois edifícios degradados na Avenida Fontes Pereira de Melo. Este é apenas um dos muitos exemplos, espalhados tanto na capital, como nas cidades do interior do país. A municipalidade de Lisboa dispõe inclusivamente de um gabinete, GAU (gabinete de arte urbana), que trata especificamente deste tipo de arte, que organiza roteiros, festivais, catálogos e exposições, não só em zonas deprimidas da cidade, como em site specific* disponibilizados pelo gabinete. Concorrendo para a inscrição da capital no panorama internacional de arte urbana, existem ainda outros projectos de curadoria urbana, como o CRONO, iniciativa de natureza social e artística, e a ACA (Azáfama Citadina Associação).

Os Gêmeos+Blu (Lisboa)

Estas intervenções no espaço público perderam assim o seu carácter underground e institucionalizaram-se. No entanto, à margem desta integração, e pretendendo manter o carácter original, subversivo e de desafiador, o fenómeno grafitti continua a proliferar, surpreendendo sempre o transeunte, pelo carácter irónico, oportunístico e até misterioso, este último devido ao anonimato da autoria da maior parte destas obras, realizadas quase sempre “pela calada da noite”. O anonimato é deliberado, quer pela ilicitude do acto, se o suporte é propriedade privada ou pública, quer por questões de “marketing”, ou até por questões ideológicas. É o caso de Banksy, grafitter inglês, com trabalhos de enorme qualidade, e cuja identidade é um segredo tão bem guardado, que até a sua revelação esteve a ser licitada no e-Bay.

Texto: Cristina Teixeira; edição, seleção de imagens: Fernando Rebelo

imagens: daqui, daqui, daqui, daqui e daqui

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