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Posts Tagged ‘sunflower seeds’

Ai Weiwei, reputado artista conceptual chinês, nascido em 1957 em Pequim, foi notícia nos últimos dois anos, e por razões muito díspares: a destruição do seu atelier em Pequim e a sua posterior detenção, em Abril de 2011, e a inauguração da exposição do seu trabalho The unilever series: Ai Weiwei sunflower seeds, na Tate Modern em Londres, em Outubro de 2010. O primeiro caso prende-se com a sua acção como activista político, num país onde este tipo de atitude é fortemente reprimida, e a segunda, pela exposição referida, que esteve patente até Maio de 2011, naquele que é o  gadget de arte contemporânea mais prestigiado da Europa. “Made in China”, no bom sentido, define na perfeição esta instalação escultórica, como adiante se explicará.

Entre Abril de 2010 e Novembro de 2011, Ai Weiwei viu o seu estúdio em Pequim, no valor de 1 milhão de euros, ser destruído, os seus bens serem confiscados, a sua mulher sujeita a interrogatórios e ele próprio ser detido em local secreto durante três meses. Depois de libertado foi proibido de utilizar o Twitter e de dar entrevistas durante 1 ano.

Ai Weiwei tornou-se conhecido internacionalmente por ter sido o assessor artístico na  construção do “Ninho de Pássaro”, nome com que foi batizado o palco central dos jogos olímpicos de Pequim 2008, da autoria dos arquitectos Herzog & de Meuron.

Weiwei é filho de Ai Qing, poeta venerado na China, que, no entanto, durante o regime maoísta, foi alvo de perseguições. Acusado de direitista, foi desterrado para o oeste da China onde foi obrigado a limpar latrinas e proibido de publicar. O desterro, que Ai sofreu com o pai, e com quem partilha os ideais de justiça, acabou com o fim da Revolução Cultural (1966-1976), tendo a família voltado a Pequim, onde Ai estudou cinema e  dinamizou um colectivo de artistas denominado Xingxing, grupo perseguido pelas autoridades chinesas, acabando a maioria dos seus membros por abandonar a China. Ai Weiwei foi então para Nova Iorque onde permaneceu doze anos, entregando-se a tarefas diversas para sobreviver, frequentando, sem nunca concluir, vários cursos de arte. Acaba por entrar em contacto com o meio intelectual nova-iorquino, na altura em que o ambiente artístico efervescente está ainda marcado pelas experiências da Pop Art, do minimalismo e do conceptualismo. É nessa cidade que toma conhecimento do legado de Marcel Duchamp, cujas ideias veio a perfilhar. Numa entrevista ao Jornal El País (16/05/2005) afirmou: “aprendi a ser um artista inteligente, não um artista único, com habilidades visuais ou técnicas, – estas fazem falta, porém são apenas ferramentas para representar uma ideia”

Regressado à China, para acompanhar o pai na doença, instala-se em Pequim onde se aplica na animação cultural da cidade, sempre vigiado pelas autoridades chinesas, até porque a sua obra, onde são utilizados vários suportes, entre elas a fotografia, tem quase sempre um conteúdo provocatório, como a fotografia em que aparece frente à Praça Tianamen (onde ocorreram os massacres de 1989), com o punho fechado e o dedo médio estendido, e outra em que a sua mulher, Lu Qing surge levantando a saia em frente ao retrato de Mao Tsé Tung, em Tianamen.

A temática da sua obra não se esgota, contudo, nestes desafios, embora tenha sempre alguma conotação social ou crítica, nem sempre tão explícita. Ai Wewei dedica-se à construção de grandes instalações, fazendo também séries fotográficas com objectos com ligação ao Império do Meio, como vasos neolíticos, cerâmicas imperiais, mobiliário tradicional, em que se subverte a sua função ou o seu valor, como no caso da série em que deixa cair e partir uma réplica de jarrão da Dinastia Ming (séculos III a.C. a III d.C.).

A sua exposição na Tate Modern, Ai Weiwei sunflowers seeds é uma instalação com 100 milhões de sementes de girassol (uma quantidade para além do imaginável, segundo o próprio autor), com o peso total de 150 toneladas, réplicas das naturais, mas feitas em porcelana chinesa, na cidade de Jingdezhen, a terra da porcelana, cozidas a 1300 º e pintadas à mão, uma a uma, num complicado processo, cuja produção envolveu cerca de 1600 pessoas. O que distingue estas sementes de porcelana dos ready-made de Duchamp, é que estas não são fruto de uma indústria massificada, nem produzidos para outro qualquer fim, mas objetos únicos, produzidos por artesãos especializados, destinados exclusivamente à obra artística.

Os girassóis foram uma metáfora utilizada pelo regime comunista na sua revolução cultural, representando Mao o próprio sol, cujo movimento os milhões de girassóis (os chineses) seguiam, em tropismo infalível e perpétuo; – os girassóis suportaram, tanto material como espiritualmente, a revolução, diz o artista acerca da sua opção por este objeto. Ao mesmo tempo, as sementes de girassol são um aperitivo popular muito comum na China, presentes sempre que se socializa à volta de uma bebida, simbolizando então a partilha, o prazer e a comunhão colectiva. A porcelana, por outro lado, é a mais emblemática das exportações chinesas. Simboliza a delicadeza, perícia e diligência com que eram feitos muitos dos artefactos tradicionalmente produzidos na China (não nos deixemos contaminar pelo novo sentido do “made in China”, característico da voragem industrial contemporânea chinesa e da sua busca pela hegemonia comercial; o termo cuja origem se prende com os atributos que mencionámos será chinezisse, embora, aqui, a sua utilização vernácula, o tenha também desvirtuado).

Cem milhões de sementes produzidas artesanalmente e pintadas uma a uma é disso mesmo testemunho – uma homenagem a esta atitude ancestral chinesa que tantas preciosidades produziu – ainda que estas preciosidades, as sunflowers seeds de Weiwei que encheram a Turbine Hall da Tate, pudessem ser calcadas pelos visitantes, pelo menos até terem sido cobertas por um vidro para evitar a poeira sufocante que libertavam. De acordo com a curadoria da exposição, “a natureza preciosa do material, o esforço de produção, a narrativa e a interpretação pessoal, fazem deste trabalho um poderoso comentário sobre a condição humana”.

 Cristina Teixeira

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