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Posts Tagged ‘Séc. XX’

general-alfred-jold-assina-os-termos-de-rendicao.bmpHá 70 anos a rendição da Alemanha marcou o fim, na Europa, de um dos períodos mais sombrios da história da humanidade. Para a posteridade, o 8 de maio de 1945 é a data oficial da rendição da Alemanha nazi: “ Dia da vitória”  mas o primeiro ato aconteceu, na verdade, um dia antes,  no quartel-general americano em Reims (França).

Tratou-se de uma ata de rendição puramente militar (Act of Military 8-VE-Day-008Surrender), que exigia das tropas alemãs a obediência às ordens que impunham o fim dos combates em 8 de maio, às 23h01 (hora da Europa Central).O general Jodl, chefe do Estado–Maior da Wehrmacht e o almirante Friedeburg assinaram  a capitulação de todas as forças alemãs  enquanto do lado dos vencedores, a ata foi rubricada pelo general Walter Bodell-Smith, chefe do Estado-Maior do general Dwight Eisenhower, comandante supremo dos Aliados, e o general soviético Ivan Susloparov. O general francês François Sevez, chefe do Estado-Maior do general Charles de Gaulle, foi convidado para assiná-lo na qualidade de simples testemunha o que, segundo se consta, desagradou aos alemães.

flat,800x800,070,fNenhum dos altos comandos aliados esteve presente no momento da assinatura sendo que Eisenhower negou-se a reunir com os alemães até que estes tivessem assinado a rendição. No entanto, como sinal do emergente poderio soviético e da rivalidade com os norte americanos, Estaline exigiu que o ato se repetisse em Karlshorstla, na periferia de Berlim, na Escola de Engenharia Militar da Wehrmacht, onde tinha sido instalado o QG das forças soviéticas.

Os líderes Estaline, Truman e Churchill concordaram em bloquear a V-E-Day_Stars_and_Stripes_No_285_Paris_8_May_1945notícia da capitulação para não desvalorizar a cerimónia em Berlim mas este embargo político/ militar não foi cumprido por alguns jornalistas. O certo é que o documento definitivo de capitulação da Alemanha, datado de 8 de maio de 1945, foi assinado pelo marechal soviético Yukov e o marechal britânico Arthur William Tedder, em nome do Comandante Supremo do Corpo Expedicionário Aliado na Europa, e, como testemunhas, pelo general francês De Lattre de Tassigny e o general norte-americano Carl Spaatz sendo os delegados alemães o marechal Keitel, o almirante Friedeburg e o general Stumpff. O texto, semelhante ao documento firmado em Reims, indicava que a Alemanha seria “completamente desarmada”, que os navios e equipamentos militares não deviam ser destruídos e, finalmente, precisava que a ata tinha sido redigida em inglês, russo e alemão, mas que apenas os textos em inglês e russo deveriam ser considerados autênticos.

VE-Day-2Terminava, formalmente, a trágica loucura comandada por Hitler que supostamente teria cometido  suicídio  em 30 abril nomeando, antes, como seu  sucessor e chefe de Estado, o almirante Doenitz, formando-se o então denominado “governo dos almirantes”. Desde finais de abril que as forças militares alemãs se rendiam em vários territórios ocupados sendo que a primeira grande capitulação de uma grande formação do exército alemão aconteceu no dia 4 de maio de 1945 quando o marechal de campo britânico Bernard Montgomery recebeu a rendição parcial do almirante Hans Georg von Friedeburg em Luneburg, na Alemanha, ato que se estendeu a outras zonas do país. Ao mesmo tempo iniciaram-se conversações para a rendição incondicional de todas as forças mas que foram sendo retardadas pelos alemães para possibilitar a fuga dos seus cidadãos, civis e militares, que se encontravam no leste da europa aterrorizados pelo avanço das temidas forças soviéticas que invadiam a frente oriental, conquistando Berlim, enquanto os exércitos anglo-americanos invadiam a frente ocidental.images

O “Dia da vitória” é comemorado por norte-americanos no dia 7, a generalidade dos europeus no dia 8 e os russos no dia 9. Nenhuma das datas, no entanto, está correta pois embora o conflito, iniciado em setembro de 1939 com a invasão da Polónia pelas tropas nazis, tenha terminado na Europa prosseguiu na Ásia até à rendição do Japão em 2 setembro de 1945.

Terminou então ”a guerra desnecessária“, como Churchill a apelidava, que se saldou por milhões de mortos, a maioria civis, e que deu origem a um diferente mapa político mundial dominado pela rivalidade soviético-americana. Um novo mundo emergiu mas sem paz.

Luísa Oliveira

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No ano em que se cumpre o centenário da 1ª Guerra Mundial, na qual infelizmente Portugal participou,  a nossa colaboradora habitual das Fitas do Mês, Luísa Oliveira, inicia hoje a publicação de um rubrica que pretende ao longo deste ano letivo tratar vários episódios que abordarão diversas fases desse período negro que só teve o seu epílogo em novembro de 1918.

O centenário do primeiro conflito global não deve ser encarado como uma comemoração mas como uma memória de um tempo sombrio que se saldou em milhões de mortos e feridos e provocou significativas alterações políticas, económicas e sociais e que, devido à sua dimensão, será sempre identificado como a Grande Guerra.

A Europa em 1914

A Europa em 1914

No início do século XX a Europa vivia um período de intensas rivalidades políticas, corrida ao armamento, disputa de novas áreas de influência, nomeadamente, na fervilhante Península Balcânica onde os nacionalismos se intensificavam. A geopolítica europeia era dominada pelas rivalidades económicas imperialistas pela posse das colónias africanas e asiáticas. Embora a crença geral fosse a de que a humanidade atingira a maturidade necessária à resolução pacífica dos conflitos internacionais a grande quantidade de armamento e soldados fazia a Europa viver numa autêntica “ paz armada” que a política de alianças como a Tríplice Aliança e Tríplice Entente veio sancionar.

Os Arquiduques (Franz Ferdinand e Sophie)

Os Arquiduques (Franz Ferdinand e Sophie)

A última das muitas causas para despoletar este conflito armado, o episódio decisivo, foi o assassinato do herdeiro do império Austro-Húngaro, arquiduque Francisco Fernando, pelo jovem bósnio de origem sérvia Gavrilo  Princip, em Sarajevo, actual capital da Bósnia e Herzegovina e, à época, província da Áustria-Hungria. Dirigentes políticos e militares, espiões são personagens secundárias deste sangrento conflito que os meios tecnológicos nunca antes utilizados como aviões, produtos químicos, tanques de guerra e submarinos provocaram um grau de destruição até então desconhecido. Os protagonistas contabilizam-se pelos números terríveis dos mortos e feridos e são um pálido reflexo do sofrimento que este conflito causou. Os 10 milhões de mortos e, especialmente, os não identificados são relembrados e homenageados nos “Monumento ao soldado desconhecido” aos quais se juntam mais de 30 milhões de feridos e inválidos.

Oskar Potiorek

Oskar Potiorek

Os factos ocorridos em 28 de junho 1914 são sobejamente conhecidos e bem documentados mas nunca é demais relembrá-los. A Sérvia fervia com os movimentos nacionalistas pretendendo formar a Grande Sérvia a partir da união dos eslavos das Balcãs e, desde 1903, tinha uma monarquia de forte caráter nacionalista que desejava reestabelecer as fronteiras do antigo Império Sérvio do século XIV e, sobretudo ter acesso ao Mar Adriático. A Bósnia e Herzegovina tinha sido anexada pela Aústria-Hungria, mas estava ligada etnicamente (1/3 dos seus habitantes era de origem sérvia) e culturalmente ao reino independente da Sérvia. O governador da Bósnia, Oskar Potiorek como forma de afirmar a presença e força do império austríaco convida os herdeiros do trono, Francisco Fernando (Franz Ferdinand) e sua esposa Sofia (Sophie), duquesa de Hohenb, a visitarem o território. O sobrinho do imperador Aústro-Húngaro, Francisco José, devido a uma sucessão de mortes na família Habsburgo, tornou-se herdeiro do trono em 1896 e pretendia reformar o Império Austro-Húngaro o que limitaria os ideais expansionistas da monarquia sérvia. Como também superentendia os assuntos

carimbo do grupo "Mão Negra"

carimbo do grupo “Mão Negra”

militares, foi nesse âmbito que se deslocou à Bósnia para assistir a manobras militares e para inaugurar as obras de um novo museu em Sarajevo. Quando a visita foi conhecida o chefe de segurança da Sérvia, coronel Dragutin Drimitijevic, começou a planear um atentado que demonstrasse o repúdio pelo império dos Habsburgos tendo escolhido, para a execução de tal plano, jovens militantes do grupo nacionalista radical Mão Negra que era contra a presença austro-húngara e defendia a união territorial da Bósnia e Herzegovina com a Sérvia. Os nacionalistas receberam revólveres, granadas e doses de cianeto, pois caso falhassem ou fossem capturados deveriam cometer suicídio para não denunciarem os intervenientes na operação.

Sarajevo, 1914

Sarajevo, 1914

Assim, num ambiente de grande tensão, a visita dos herdeiros iniciou-se na parte de manhã do dia fatídico e logo foi visível a desorganização, em termos de segurança, pois aquando do cortejo pelas ruas de Sarajevo dos seis veículos que compunham a comitiva o casal estava completamente exposto e sem elementos de escolta por perto. Também desorganizados estavam os terroristas dado que, dos sete elementos que se espalharam pela cidade, só um lançou uma granada que falhou o alvo mas fez alguns feridos. Perante este facto o Arquiduque cancelou a agenda da visita e fez questão de visitar os feridos no hospital, para onde se dirigiu, na parte da tarde.

ilustração do assassinato

ilustração do assassinato

Devido a um engano do motorista no trajeto, este parou em frente ao café Schiller onde se encontrava um dos jovens nacionalistas, Gavrilo Princip, que, de imediato, disparou uma sequência de tiros que provocaram a morte dos herdeiros reais. Assim, quase por acaso, o jovem bósnio de origem sérvia que tinha nascido na cidade de Obljaj, Bósnia, tornou-se um herói para os seus conterrâneos. Preso e acusado de traição declarou que não pretendia matar a duquesa mas o governador da Bósnia. Foi condenado a vinte anos de prisão pois a leis aústro-húngaras defendiam que a pena de morte não podia ser aplicada a menores de vinte anos. Faleceu de tuberculose na prisão de Theresienstadt, na república Checa, em 28 abril de 1918.

Gavrilo Princip

Gavrilo Princip

Fotografia da captura de Gravilo Princep

Fotografia da captura de Gravilo Princip

De imediato, soube-se que militares sérvios (três deles acabaram condenados à morte) tinham organizado o atentado que gerou uma crise entre a Áustria-Hungria e a Sérvia, culminando com a entrega de um ultimato a esta última, a 23 de julho de 1914. No ultimato, a Áustria-Hungria fazia exigências que, caso não fossem aceites, dariam início a uma ofensiva militar austríaca. Na verdade, parece credível que a Áustria-Hungria teria redigido o documento calculando a reação sérvia, para causar um conflito que lhe desse pretexto para anexar o pequeno reino eslavo.

Num autêntico efeito de dominó este ultimato pôs em movimento a guerra, um mês após o histórico atentado, pois com a recusa sérvia em aceitar as exigências austríacas, a Rússia põe-se ao lado da Sérvia, aliada da França, a Alemanha declara guerra a estes países, invade a Bélgica e a Inglaterra intervém de seguida contra os impérios da Alemanha, Austro-Húngaro e Otomano. As nações europeias e de outros continentes como E.U.A. e Japão envolvem-se não só no território central europeu como nas colónias invocando-se as alianças formadas nas décadas anteriores e iniciando-se um conflito que todos os intervenientes julgavam que seria de curta duração. Um terrível engano pois o cessar-fogo e vitória da Tríplice Entente verificou-se só em 11 de novembro de 1918, conhecido como o Dia do Armistício

(imagens daquidaquidaquidaqui e daqui)

Luísa Oliveira

 

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cunhal

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Muitas foram as aquisições recentes para a estante de História da nossa BE – esperamos que os outros leitores da ESDS as aproveitem com pelo menos uma parte do entusiasmo com que os nossos bibliblogueiros profª. Cristina Teixeira e Luís Fernandes recomendarem a sua aquisição. Aqui ficam as sugestões de quem sabe…

Para a  História de Portugal…

Um rol de Reis, uma Rainha (a outra estava esgotada…); dois destacados estadistas estadistas de vulto, um consensual, outro mais controverso, já contemporâneos: Salazar e Sá Carneiro(convém conhecer os responsáveis pelos nossos destinos), todos governantes portugueses ; uma revolução revista por um polémico analista e nada mais que três imperadores (num único livro) – três primos (pelo lado materno e/ou paterno), ligados familiarmente à  Rainha Vitória (dois netos directos e um terceiro por afinidade), que dominaram parcelas imensas da terra e empurraram o mundo para a Grande Guerra, deixando marcas indeléveis na história do século XX. Estas são as obras em destaque entre as recentes aquisições de livros de História para a biblioteca da escola.

Assim, a colecção REIS de PORTUGAL (Temas & Debates), escrita pelos mais reputados historiadores portugueses da actualidade, é uma excelente colecção de biografias régias, lançados pela Temas e Debates (e também pelo Círculo dos Leitores), que nos devolve, à luz da mais recente historiografia, não só a vida de quem nos governou durante 8 séculos, como dos contextos nacionais e internacionais que condicionaram as suas vidas e as sua decisões. Contêm, além da bibliografia exaustiva sobre o tema, dados cronológicos, estampas e gravuras de grande qualidade. Alguns reinados foram mais decisivos que outros  e esse foi o critério que presidiu à selecção das aquisições, embora alguns dos títulos preferidos se  encontrem entretanto esgotados, como a biografia de D. José, de D. Maria II, de D. Pedro V e de D. Luís. Segue lista das obras adquiridas nesta colecção:

D. Afonso Henriques, de José Mattoso

D. Afonso V, de Saul António Gomes

D. João II, de Luís Adão da Fonseca

D. Manuel I, de João Paulo Oliveira e Costa

D. Maria I, de Luís Oliveira Ramos

D. João VI, de Jorge Pedreira

D. Carlos, Rui Ramos

Igualmente de salientar: a História da colonização Portuguesa no Brasil, de Maria Beatriz Nizza da Silva, académica que lecciona tanto no Brasil, na Universidade de são Paulo, como em Portugal, na Universidade portucalense e na Universidade Aberta (edições Colibri); Exclusão e intolerância, número da revista Ler História, colectânea de artigos sobre a forma como em Portugal se tem lidado, ao longo dos tempo, com as várias minorias étnicas, religiosas e outras, aqui residentes, e sobretudo àquelas que foram alvo de perseguição pela Inquisição; O Estado, a Igreja e a Sociedade em Portugal -1832-1911, de Vítor Neto, uma edição da IN-CM, sobre a difícil e conturbada relação entre a instituição religiosa e o estado durante a consolidação do liberalismo em Portugal; Afonso Costa, de Filipe Ribeiro de Meneses (Leya) e Diário dos Vencidos – o 5 de Outubro visto pelos monárquicos em 1910. de Joaquim Leitão, com prefácio de Vasco Pulido Valente (Aletheia Editores). Sobre a mesma temática foi adquirido também este ano, entre outros, o livro de Jorge Morais, Regicídio, a contagem decrescente, sobre a implicação dos monárquicos dissidentes e da maçonaria no derrube da monarquia, dando-nos uma crónica detalhada da trama que vitimou o Rei e o Príncipe Real em 1908).

Finalmente, como já foi referido, Salazar, de Filipe Ribeiro de Menezes, investigador do Trinity College de Dublin e docente da National University of Ireland, e grande especialista da primeira metade do século XX, é uma excelente biografia do homem que durante meio século conduziu a história do país e que foi o único que, como o autor começa por nos lembrar, entre todos os ditadores da época, chegou ao poder por mérito académico, e  Sá Carneiro, de Miguel Pinheiro, uma extensa biografia do malogrado e carismático político, do fim do marcelismo e dos primeiros anos da República democrática pós 25 de Abri, trágica e precocemente morto no polémico acidente de Camarate.

Sobre a História Mundial…

Os Três Imperadores – três primos, três impérios e o caminho para a Primeira Guerra Mundial, de Miranda Cárter (Texto História): obra várias vezes premiada e fundamental para se compreender a violência dos acontecimentos que caracterizaram o século XX. Uma biografia de Nicolau II, czar da Rússia, Jorge V, do Reino Unido e do Kaiser Guilherme II do Império alemão – retratos de vida e de famílias, de laços familiares impossíveis e ilusórios, de cobiças e conflitos que empurraram a civilização para a Primeira Guerra Mundial.

Cristina Teixeira

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TERÇAS A LER

Programação especial de incentivo à leitura e reencontro com autores portugueses do século XX .

Este projecto, concebido e coordenado pela actriz Maria do Céu Guerra, vai realizar-se durante todo o ano de 2011 no Teatro A BARRACA – CINEARTE (Lgº. de Santos, nº2), todas as primeiras terças-feiras de cada mês às 19h, entrada livre.

Próximas “Terças a Ler”:

Correspondência – Outras Cartas Portuguesas

Correspondência de personalidades da cultura portuguesa.

1 de Março

Sophia e Jorge de Sena

5 de Abril

Manuel e Maria João Bessa Múrias – selecção de cartas trocadas durante o período da Guerra Colonial

Correspondência de Guerra

3 de Maio

Cesariny,  Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes

7 de Junho

Adolfo Casais Monteiro

Correspondência Familiar

5 de Julho

Luís Pacheco e Cesariny

6 de Setembro

A indicar

4 de Outubro

A indicar

1 de Novembro

Piteira e Stela –  cartas de prisão e exílio

Correspondência Familiar

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Reconhece algumas das “caras” do mosaico? Provavelmente não através da revista homónima, embora seja muito provavel que já tenha lido algumas obras cujos autores aqui representados escreveram.

Trata-se de uma selecção editada pela revista Ler no artigo Os 50 autores mais influentes do séc. XX e o que aprendemos (ou devíamos ter aprendido) com eles, da autoria de José Mário Silva.

Como em todas as listas, o critério selectivo é  discutível, sendo nesta a palavra chave “influência” e tomando-se “autores” no sentido lato, dado que engloba cientistas, filósofos, prémios Nobel da literatura  e escritores de best-sellers ligeiros, mas de grande sucesso comercial.

Ideal para quem gosta de sínteses de cultura geral durante o despreocupado ritmo das férias,  o artigo pode ser acedido aqui.

Fonte: blogue RBE/Revista Ler

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Jane e Louise Wilson

O que me fez escolher Tempo suspenso (Suspending time), de Jane e Louise Wilson, exposição inaugural da nova direcção do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), para a rubrica do Bibliblog, “Morte da estética?” Sobram razões: a estreia de Isabel Carlos* à frente da programação do CAM, o facto de se tratar de uma dupla de artistas, as gémeas britânicas Jane e Louise Wilson (n. 1967) que trabalham e expõem juntas desde dos anos 90, a utilização de vídeos, filmes e fotografias, suportes definidores da arte contemporânea, o sugestivo nome da mostra, “Tempo suspenso”, as alusões históricas aos horrores do século…

Bunker

O que perpassa no enorme espaço que o público percorre, através de objectos tão heteróclitos, é o tempo: o tempo da história, da história dos homens e da história de vida, ou melhor, fragmentos destas histórias, aqui devolvidos pelas memórias, em tempo suspenso, de percursos interrompidos, inflectidos. É esse tempo, e a sua suspensão, que Jane e Louise tentam explorar. As memórias das tragédias do século XX (será que alguma vez as conseguiremos exorcizar?), da II Guerra Mundial ao Holocausto, à Guerra Fria, são as representações mais presentes na obra desta dupla. O seu trabalho assume assim o duplo carácter de documento e de denúncia.

Começa a exposição pelas gigantescas fotografias do que resta das fortificações que integraram a Muralha do Atlântico, estrutura defensiva construída pelos alemães na Normandia (Sealander, 2006); seguem-se as instalações vídeo Stasi City (1997), que nos mostram o interior das instalações da sinistra polícia secreta da RDA.

Em Unfolding The Aryan Papers, a obra mais recente da dupla, reencontramos o cineasta Stanley Kubrick, já desaparecido, através de material recolhido nos seus arquivos pessoais. Projectam-se imagens, guardadas por Kubrick, para um filme passado na II Guerra Mundial. O argumento era sobre uma família de judeus que se salvou forjando um “Ahnenpass”, documentos que atestavam a arianidade. Do arquivo Kubrick projectam-se também imagens originais dos guetos de Varsóvia e Cracóvia durante a guerra, e ainda testes da actriz escolhida para protagonista, Joahnna Steege, há 30 anos atrás. Alternando com estes, surgem ainda registos com depoimentos da actriz hoje em dia, sobre a brusca decisão então tomada por Kubrick, de desistir do filme (o tema causou-lhe uma depressão, a que não terá sido alheio o facto de ter perdido parte da família em Auschwitz, e também porque acabava de estrear a Lista de Schindler, de Spielberg, e, para os produtores, o êxito alcançado por este filme comprometia o sucesso do filme de Kubrick, uma vez que era sobre o mesmo tema) e da decepção que sentiu, pois esperava com este filme alcançar a fama, que, de facto, nunca veio a alcançar.

O tempo passado materializa-se também nas séries fotográficas Oddments (2008/09), na sequência de imagens de portas, ladeadas dos livros antigos e valiosos do célebre livreiro londrino, Maggs. Bros. Ldt, local de grande apreço do nosso rei bibliófilo, D. Manuel II, pois aqui passava longas horas, agora que o tempo em que deveria ser rei lhe tinha sido devolvido e se podia dedicar por inteiro à sua paixão.

Spiteful of Dream

O tempo suspenso, ainda que por minutos, é representado por uma experiência vivida pelas gémeas quando em 1993 estiveram no Porto, onde integraram uma exposição colectiva em Serralves. A série Hypnotic Suggestion 505 é o registo filmado da sessão de hipnose a que então se submeteram, às mãos de dois hipnotizadores, um inglês e um português; 505  era a frase que as restituiria ao estado vigilante.

Noutra sonora instalação vídeo (a introdução de som, música e ruídos quotidianos é outra das possibilidades da video-arte), Spiteful of Dream, 2008, ouvem-se conversas entre homens e mulheres num Centro Comunitário da Bósnia-Herzegovina, relatando experiências traumáticas como refugiados no Reino Unido, enquanto dentro de um gigantesco cubo de rede, um engenhosíssimo jogo de paralelepípedos espelhados reflecte imagens de turbinas em incessante movimento. O conjunto das imagem projectados sobre planos que as sequencializam, e a respectiva banda sonora, confere à instalação uma dimensão escultórica de grande efeito cénico.

Como fio condutor, e ponto de partida da exposição, surgem, pontuando todo o espaço, tanto em esculturas suspensas, como nas fotografias, ou ainda integradas nas instalações, réguas em madeira, com a obsoleta medida Yard (jarda), Yardsticks, testemunhos de um tempo que não volta mais, mas que simultaneamente vai dando a medida e as diferentes escalas de cada peça em exposição.

O sentido desta aparente dispersão (e não descrevi tudo) é dada por uma montagem clarificadora e também pela leitura do catálogo, que inclui uma esclarecedora entrevista às autoras sobre o seu percurso e sobre esta retrospectiva.

Filmes, vídeos, fotografias, arquitecturas e esculturas, fazem emergir as ruínas de um século e de vidas marcadas pela tragédia; a sua percepção (tridimensional), não deixa de ser vivida pelo visitante com alguma emoção, também estética.

* Isabel Carlos, 46 anos, licenciada em filosofia e mestre em comunicação social pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, conseguiu uma projecção internacional notável, pertencendo aos júris internacionais das principais bienais de arte, Veneza e São Paulo, estando até agora a dirigir a bienal de Sarjah, nos Emiratos Árabes Unidos, posto que deixou para vir dirigir o CAM., tendo sido recentemente nomeada membro do júri do Turner Prize, um dos prémios de arte mais prestigiados do mundo.

Profª Cristina Teixeira

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