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proclamação da república

Uma bandeira representa uma síntese de um povo, da sua história e tradições, mas também as opções políticas do regime que o governa. Só assim se percebe que as bandeiras mudem. Contudo essa mudança, não pode (ou não deve) ser radical, sob pena desse mesmo povo que representa não se reconhecer na bandeira que o representa. Posto isto, percebe-se a importância simbólica da bandeira. Foi exactamente por esse reconhecimento que, nos dias que se seguiram à revolução republicana, em Outubro de 1910, a escolha da bandeira originou uma enorme polémica. A “questão da bandeira” centrava-se sobretudo à volta da cor, assunto que se polarizou, entre os concordantes e discordantes da cor verde-rubro, as cores da actual bandeira, e os do azul-branco, cores da bandeira nacional durante a monarquia.

Os símbolos nacionais constituiram uma das prioridades do Governo Provisório, sobretudo sabendo do grande impacto que estes têm para a opinião pública. Apressaram-se a nomear uma comissão destinada ao estudo da bandeira e do hino nacionais.

Foram escolhidos para integrar a comissão figuras de relevo da vida nacional, entre eles o célebre pintor Columbano Bordalo Pinheiro, o romancista Abel Botelho, o jornalista e conhecido republicano João Chagas, e ainda dois combatentes do 5 de Outubro.

No dia 1 de Dezembro de 1910, em frente à Câmara Municipal de Lisboa, lugar onde fora proclamada a República em 5 de Outubro, uma parada militar prestou

"Tradição" e "Revolução"

homenagem, ao som de “A portuguesa” (outro assunto curioso), à bandeira “verde-rubra”, agora feita bandeira nacional. Ao desfile das tropas pela Baixa juntou-se uma multidão de populares, de acordo com os jornais da época, que, em “clima patriótico” subiu a Avenida até à Rotunda, e depois seguiu-se um espectáculo no Teatro Nacional. Este evento, A Festa da Bandeira, foi precedido de uma renhida polémica à volta do tema. A manutenção da esfera armilar e do escudo foi relativamente pacífico, mas a questão das cores moveu as principais figuras nacionais e a opinião pública. Em Lisboa e no Porto, assim como por todas as cidades de província, em clubes políticos e estabelecimentos comerciais expunham-se as maquetas das bandeiras, realizavam-se debates e conferências, e as páginas dos jornais enchiam-se de artigos prós e contra as propostas.

Guerra-Junqueiro, poeta e republicano, foi o grande tribuno da bandeira azul-branco, apresentando a sua defesa na Sociedade de Geografia. Para ele o “branco é candura, pureza perfeita, virtude sem mancha” e o vermelho” é um excitante da vida, dá-lhe ardor, impele a acção, provoca a luta”. O azul é “serenidade, bondade, graça ingénua, alegria cândida”. Tudo qualidades lusas! O Branco, defendia, não podia desaparecer da bandeira nacional porque foi a base de todas as bandeiras portuguesas desde a fundação da nacionalidade, e o Azul remetia para o céu e o mar, elementos indissociáveis da nossa História. E estas cores seriam, além do mais, as únicas a serem reconhecidas como representativa da soberania de Portugal, em África.

No entanto, para muitos adeptos do novo regime, o azul-branco estava irremediavelmente ligado “Monarquia corrupta dos Braganças”, motivo mais que suficiente para ser eliminado.

Teófilo Braga, filósofo positivista, republicano, e Presidente do Governo Provisório, era o grande defensor da proposta verde-rubro, juntamente com outras destacadas personalidades, como Afonso Costa e António José de Almeida. O vermelho, porque era a cor dos movimentos populares e revolucionários. como factor tradição, esta tinha também sido a cor da conquista do Algarve (Afonso III), “em que se integrou o território português”. O verde não deixava de ser também a cor da Ala dos Namorados, na Batalha de Aljubarrota. Verdade é que o verde e o vermelho tinham sido as cores usadas no primeiro pronunciamento republicano, o 31 de Janeiro de 1891 (a bandeira então içada na Câmara do Porto era toda vermelha com um círculo verde ao meio) no 5 de Outubro (desfraldada na Câmara, no castelo de S. Jorge e em todos os quartéis, a bandeira era bipartida, com vermelha junto à tralha e a parte maior verde; esfera armilar de ouro assente em fundo azul, estrela de prata com resplendor de em ouro). A verde-rubra era pois a bandeira dos republicanos.

Enfim, argumentos havia que chegassem para ambas as partes, mas a comissão optou pelo verde-rubro, para o qual apresentou as seguintes razões: “ o vermelho é a cor combativa, quente, viril (…) cor da conquista e do risco e que figura na bandeira desde D. João II, (…) O verde, que embora não tenha raízes na consciência nacional, foi uma das cores que preparou e consagrou a revolução”. Definitivamente, havendo quanto baste de simbolismo histórico na paleta cromática de todas as propostas, acabou por prevalecer o critério político.

Mais consensual, mais ditada pelo nacionalismo do que pela política, foi a escolha das armas. O partido republicano era profundamente nacionalista e grande defensor do Império colonial, criticando inclusivamente aos monárquicos o desleixarem este aspecto da vida nacional. Foi portanto fácil a aceitação da esfera armilar, «padrão eterno do nosso génio», e o escudo branco com as quinas azuis «da fundação da nacionalidade» (armas de Afonso Henriques), de acordo com o parecer da comissão.

Nem todos se reviram de imediato nesta bandeira. E não só monárquicos. Foi só com o tempo que a verde-rubra passou de bandeira republicana a bandeira nacional. A consolidação desta referência como nacional foi conseguida graças à sua exposição repetida como símbolo de identidade nacional, em momentos em que o “nacionalismo” se tornou particularmente relevante, como na Grande Guerra, nas campanhas coloniais, no 25 de Abril, e mais recentemente, podíamos acrescentar, nas competições internacionais de futebol.

Profª. Cristina Teixeira

(Adaptado de “Do azul-branco ao verde-rubro. A simbólica da bandeira nacional” de Nuno Severiano Teixeira, in a Memória da Nação, Livraria Sá da Costa Editora, Colóquio F.C.G., Lisboa, 1987)

(para saber mais sobre a história das bandeiras de Portugal clique aqui.)

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