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Posts Tagged ‘Magnicídio’

No ano em que se cumpre o centenário da 1ª Guerra Mundial, na qual infelizmente Portugal participou,  a nossa colaboradora habitual das Fitas do Mês, Luísa Oliveira, inicia hoje a publicação de um rubrica que pretende ao longo deste ano letivo tratar vários episódios que abordarão diversas fases desse período negro que só teve o seu epílogo em novembro de 1918.

O centenário do primeiro conflito global não deve ser encarado como uma comemoração mas como uma memória de um tempo sombrio que se saldou em milhões de mortos e feridos e provocou significativas alterações políticas, económicas e sociais e que, devido à sua dimensão, será sempre identificado como a Grande Guerra.

A Europa em 1914

A Europa em 1914

No início do século XX a Europa vivia um período de intensas rivalidades políticas, corrida ao armamento, disputa de novas áreas de influência, nomeadamente, na fervilhante Península Balcânica onde os nacionalismos se intensificavam. A geopolítica europeia era dominada pelas rivalidades económicas imperialistas pela posse das colónias africanas e asiáticas. Embora a crença geral fosse a de que a humanidade atingira a maturidade necessária à resolução pacífica dos conflitos internacionais a grande quantidade de armamento e soldados fazia a Europa viver numa autêntica “ paz armada” que a política de alianças como a Tríplice Aliança e Tríplice Entente veio sancionar.

Os Arquiduques (Franz Ferdinand e Sophie)

Os Arquiduques (Franz Ferdinand e Sophie)

A última das muitas causas para despoletar este conflito armado, o episódio decisivo, foi o assassinato do herdeiro do império Austro-Húngaro, arquiduque Francisco Fernando, pelo jovem bósnio de origem sérvia Gavrilo  Princip, em Sarajevo, actual capital da Bósnia e Herzegovina e, à época, província da Áustria-Hungria. Dirigentes políticos e militares, espiões são personagens secundárias deste sangrento conflito que os meios tecnológicos nunca antes utilizados como aviões, produtos químicos, tanques de guerra e submarinos provocaram um grau de destruição até então desconhecido. Os protagonistas contabilizam-se pelos números terríveis dos mortos e feridos e são um pálido reflexo do sofrimento que este conflito causou. Os 10 milhões de mortos e, especialmente, os não identificados são relembrados e homenageados nos “Monumento ao soldado desconhecido” aos quais se juntam mais de 30 milhões de feridos e inválidos.

Oskar Potiorek

Oskar Potiorek

Os factos ocorridos em 28 de junho 1914 são sobejamente conhecidos e bem documentados mas nunca é demais relembrá-los. A Sérvia fervia com os movimentos nacionalistas pretendendo formar a Grande Sérvia a partir da união dos eslavos das Balcãs e, desde 1903, tinha uma monarquia de forte caráter nacionalista que desejava reestabelecer as fronteiras do antigo Império Sérvio do século XIV e, sobretudo ter acesso ao Mar Adriático. A Bósnia e Herzegovina tinha sido anexada pela Aústria-Hungria, mas estava ligada etnicamente (1/3 dos seus habitantes era de origem sérvia) e culturalmente ao reino independente da Sérvia. O governador da Bósnia, Oskar Potiorek como forma de afirmar a presença e força do império austríaco convida os herdeiros do trono, Francisco Fernando (Franz Ferdinand) e sua esposa Sofia (Sophie), duquesa de Hohenb, a visitarem o território. O sobrinho do imperador Aústro-Húngaro, Francisco José, devido a uma sucessão de mortes na família Habsburgo, tornou-se herdeiro do trono em 1896 e pretendia reformar o Império Austro-Húngaro o que limitaria os ideais expansionistas da monarquia sérvia. Como também superentendia os assuntos

carimbo do grupo "Mão Negra"

carimbo do grupo “Mão Negra”

militares, foi nesse âmbito que se deslocou à Bósnia para assistir a manobras militares e para inaugurar as obras de um novo museu em Sarajevo. Quando a visita foi conhecida o chefe de segurança da Sérvia, coronel Dragutin Drimitijevic, começou a planear um atentado que demonstrasse o repúdio pelo império dos Habsburgos tendo escolhido, para a execução de tal plano, jovens militantes do grupo nacionalista radical Mão Negra que era contra a presença austro-húngara e defendia a união territorial da Bósnia e Herzegovina com a Sérvia. Os nacionalistas receberam revólveres, granadas e doses de cianeto, pois caso falhassem ou fossem capturados deveriam cometer suicídio para não denunciarem os intervenientes na operação.

Sarajevo, 1914

Sarajevo, 1914

Assim, num ambiente de grande tensão, a visita dos herdeiros iniciou-se na parte de manhã do dia fatídico e logo foi visível a desorganização, em termos de segurança, pois aquando do cortejo pelas ruas de Sarajevo dos seis veículos que compunham a comitiva o casal estava completamente exposto e sem elementos de escolta por perto. Também desorganizados estavam os terroristas dado que, dos sete elementos que se espalharam pela cidade, só um lançou uma granada que falhou o alvo mas fez alguns feridos. Perante este facto o Arquiduque cancelou a agenda da visita e fez questão de visitar os feridos no hospital, para onde se dirigiu, na parte da tarde.

ilustração do assassinato

ilustração do assassinato

Devido a um engano do motorista no trajeto, este parou em frente ao café Schiller onde se encontrava um dos jovens nacionalistas, Gavrilo Princip, que, de imediato, disparou uma sequência de tiros que provocaram a morte dos herdeiros reais. Assim, quase por acaso, o jovem bósnio de origem sérvia que tinha nascido na cidade de Obljaj, Bósnia, tornou-se um herói para os seus conterrâneos. Preso e acusado de traição declarou que não pretendia matar a duquesa mas o governador da Bósnia. Foi condenado a vinte anos de prisão pois a leis aústro-húngaras defendiam que a pena de morte não podia ser aplicada a menores de vinte anos. Faleceu de tuberculose na prisão de Theresienstadt, na república Checa, em 28 abril de 1918.

Gavrilo Princip

Gavrilo Princip

Fotografia da captura de Gravilo Princep

Fotografia da captura de Gravilo Princip

De imediato, soube-se que militares sérvios (três deles acabaram condenados à morte) tinham organizado o atentado que gerou uma crise entre a Áustria-Hungria e a Sérvia, culminando com a entrega de um ultimato a esta última, a 23 de julho de 1914. No ultimato, a Áustria-Hungria fazia exigências que, caso não fossem aceites, dariam início a uma ofensiva militar austríaca. Na verdade, parece credível que a Áustria-Hungria teria redigido o documento calculando a reação sérvia, para causar um conflito que lhe desse pretexto para anexar o pequeno reino eslavo.

Num autêntico efeito de dominó este ultimato pôs em movimento a guerra, um mês após o histórico atentado, pois com a recusa sérvia em aceitar as exigências austríacas, a Rússia põe-se ao lado da Sérvia, aliada da França, a Alemanha declara guerra a estes países, invade a Bélgica e a Inglaterra intervém de seguida contra os impérios da Alemanha, Austro-Húngaro e Otomano. As nações europeias e de outros continentes como E.U.A. e Japão envolvem-se não só no território central europeu como nas colónias invocando-se as alianças formadas nas décadas anteriores e iniciando-se um conflito que todos os intervenientes julgavam que seria de curta duração. Um terrível engano pois o cessar-fogo e vitória da Tríplice Entente verificou-se só em 11 de novembro de 1918, conhecido como o Dia do Armistício

(imagens daquidaquidaquidaqui e daqui)

Luísa Oliveira

 

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