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Posts Tagged ‘Jeff Koons’

A polémica desencadeada pela inauguração da exposição de Takashi Murakami, o Rei do Manga, no Palácio de Versalhes, provocou tanto ou mais ruído do que a primeira exposição do género naquele espaço, a do artista plástico americano Jeff Koons, que em 2008 inaugurou o ciclo de mostras de arte contemporânea neste espaço barroco. Para os espíritos mais conservadores, o símbolo maior da identidade nacional francesa, o Palácio de Versalhes, palco da magnificência da monarquia, do glamour e dos privilégios, não podia ser profanado pela intrusão deste tipo de arte, “grotesca” e “ridícula”, -“uma estética de transporte público nipónico”, nas palavras do crítico Henry Bellet, intolerável “poluição visual” que expressa, do seu ponto de vista, sobretudo “desordem mental”.

A conjuntura política e uma certa cultura de xenofobia sarkoziana (Murakami é Japonês, não podia, portanto, profanar aquele templo gaulês com as suas criações absurdas), explicam as milhares de assinaturas recolhidas on-line pelo grupo “Versalhes meu amor” e pela revista “Valores Actuais”, que são o rosto da hostilidade às exposições sacrílegas.

Jean-Jacques Aillagon, Director do palácio e ex-ministro da Cultura durante a Presidência de Jacques Chirac, decidiu retirar Versalhes da “imersão de formol” em que se encontrava, acordar o palácio do seu longo sono, tornando-o um lugar mais vivo. A iniciativa visava reanimar o espaço: criar um diálogo (ou um choque?) entre os interiores veneráveis e pomposos do palácio e um “intruso” que é o seu contraponto, obras com contornos kitsch, pueris, e aparentemente banais. O primeiro artista seleccionado, Jeff Koons, e o último (Jean-Jacques Aillagon, declarou que não fará mais exposições destas dentro do palácio, mas adianta que não se trata de uma cedência), Murakami, ocupam, respectivamente, o primeiro e o sexto lugar no ranking dos artistas vivos com maior cotação. Koons, também conhecido por ter sido casado com a conhecida artista porno italiana, Cicciolina, vendeu, em 2008, uma obra pela módica quantia de 25 milhões de US$! A crítica feita a esta exposição visava outros aspectos além dos referidos: as obras pertenciam todas a um coleccionador, que teria visto assim, de conluio com o Director do palácio, uma forma de aumentar ainda mais o valor da sua colecção. Uma exposição num local como este é uma chancela, entroniza o artista e a sua obra e torna milionário o seu proprietário! Passados que estão os anos 90, em que este tipo de arte sofreu alguma contestação, é pelo local em que se mostra e pelas pretendidas intenções obscuras que subjazem à sua realização, que surge a contestação.

Jeff Koons, artista que se inspira em objectos infantis e do quotidiano, como aspiradores, bugigangas, recordações em porcelanas, exibiu no Apartamento da Rainha, que teve como última ocupante Maria Antonieta, uma instalação composta por vários aspiradores e máquinas de lavar carpetes, iluminados por néons; no tecto do salão Marte foi pendurada uma gigantesca lagosta em alumínio, aço e vinil, inspirada nas bóias de plástico. A célebre Galeria dos Espelhos exibe a não menos célebre “Lua” em aço azul. Nos jardins, uma gigantesca escultura em forma de animal, com uma cabeça meio pónei, meio dinossauro, é coberta por cem mil flores. A sua criação mais famosa, “ Rabbit” (1986), um coelho insuflável, em inox, é exposto no Apartamento do Rei.

Na “Murakami Versailles”, 22 peças da criação deste artista foram espalhadas pelos  emblemáticos espaços, entre eles podem ver-se bonecos com orelhas de coelho (Toy-Art ou Arte-Brinquedo designa precisamente a arte que se inspira no universo dos brinquedos), sapos, flores, e os incontornáveis Mangas (desenhos animados japoneses) e um Buda dourado, com 5 metros de altura, que adorna a ala principal dos célebres jardins. A inauguração mobilizou os “puristas da arte”, que organizaram manifestações à porta do palácio. O autor, uma das grandes glórias da arte contemporânea, e conhecido colaborador das colecções dos designers de moda Marc Jackobs e Louis Vitton, explica, em entrevista, que o seu intento nunca foi a provocação mas sim o confronto dialogante entre duas estéticas, aparentemente tão diferentes.

Na aparência, mas e na essência? Serão assim tão diferentes? Ao ver a recriação feita recentemente por Sofia Copolla da vida da corte neste palácio (Marie Antoinette), ou a que Rosselini fez nos anos 60 (A Tomada do Poder por Luís XIV), sente-se que não é por acaso que, entre tantos artistas contemporâneos, foram estes os escolhidos para ali exporem. Talvez a sua obra ilustre melhor que qualquer outra o espírito de Versalhes.

Profª Cristina Teixeira

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