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Oh! Que bela guerra!: canções de entusiasmo bélico

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soldados neo-zelandeses marchando alegremente para a frente de combate

Quando a 1ª Guerra Mundial eclodiu, no verão de 1914, o orgulho, entusiasmo e emoção norteavam os combatentes mobilizados. No espírito da época o desejo de guerra pairava como uma necessidade, uma escola de homens e os soldados partiam confiando numa rápida vitória, saudados e aplaudidos pela população. Os exacerbados discursos nacionalistas utilizados, eficazmente, pelo poder político-militar como estímulo à participação popular refletiram-se nas cartas enviadas pelos soldados, no início do conflito, e demonstram essa visão romântica e heróica da guerra.

Mas as cartas dos combatentes, depois do entusiamo inicial, rapidamente transmitem o choque causado pela realidade do conflito, nomeadamente, nas trincheiras que, mais que uma simples estratégia militar, representam intensamente os horrores vividos neste período. O escritor alemão Ernst J.Junger  que participou neste conflito descreveu em Tempestades de aço  o seu fascínio e horror:

postal onde militares húngaros ostentam palavras jocosas sobre ingleses, franceses e sérvios

Militares húngaros ostentam o “menu da guerra”:  pequeno-almoço – 2 russos; almoço – rosbife inglês com salada francesa;  jantar – carne à sérvia com arroz

“A guerra parecia-nos um desafio viril, um alegre concurso de tiro disputado sobre pradarias em flor onde o sangue era o orvalho.” Numa época de nacionalismos extremos a guerra era vista, desta forma, como um ideal, uma busca de heroísmo que levou milhões de jovens idealistas aos campos de batalha, transformando a europa num extenso cemitério e ceifando milhões de vidas. O início do conflito foi marcado por algumas conquistas territoriais no que foi denominado “ guerra de movimentos”.

a nova tecnologia militar

a nova tecnologia militar

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as cartas  transmitem o choque causado pela realidade do conflito

No entanto este período não foi significativo pois a tecnologia militar utilizada, pela primeira vez, como submarinos, tanques de guerra, aviões, metralhadoras, armas químicas combinadas com as estratégias militares inadequadas e conservadoras dos comandos, que não se adaptaram a novas realidades, vieram demonstrar que, em breve, se entraria num impasse e os avanços só aconteceriam à custo de milhares de vidas. A maior parte do conflito foi, desta forma, marcado pela “ guerra das posições ou trincheiras” a cuja imagem estará sempre associado. Nos 760 km da Linha da Frente Ocidental desde o mar do norte à fronteira suiça edificaram-se as linhas de trincheiras mais famosas, com as forças alemãs e aliadas frente a frente, onde se desenrolaram infindáveis e sangrentos combates como em Verdun e na região de Somme que se saldaram por mais de um milhão de mortos. Estudos indicam que quase 35% de todas as baixas sofridas na Frente Ocidental foram de soldados mortos ou feridos quando estavam numa trincheira. Na frente oriental devido às condições geográficas os combates não tiveram a mesma amplitude embora os avanços fossem, igualmente, insignificantes.

esquema da trincheira

esquema da trincheira

As descrições da forma como viviam não traduzem a real dimensão do seu quotidiano pois os soldados estavam submetidos a vivências extremas não só durante as batalhas mas no ambiente da própria trincheira. Ratos, piolhos e insetos proliferavam sem controlo nas construções, em linha reta e a céu aberto, com cerca de 2,30 metros de profundidade e 2 metros de largura que deveriam servir para atacarem, com sacos de areia e arame farpado na zona mais elevada que, supostamente, protegeriam os soldados das balas e dos estilhaços das bombas. Para observar o inimigo um degrau interno chamado “fire step” servia como ponto de vigia e de defesa. A chuva e o facto de algumas serem construídas abaixo do nível do mar fazia com que estivessem quase sempre enlameadas. Estima-se que 10% dos soldados contraíram a” febre das trincheiras” marcada por dores no corpo e febre alta e o” pé da trincheira” que poderia causar gangrena e amputação. Falar de higiene é redutor pois para as necessidades fisiológicas eram utilizados buracos no chão e, quando estavam cheios, outros eram escavados por soldados castigados. A alimentação tinha como base a comida enlatada e a água utilizada era a da chuva. Havia também trincheiras que eram espécie de abrigos subterrâneos de madeira usados como hospitais, postos de comando ou depósitos.

na trincheira

soldado no fire step

Entre as trincheiras inimigas ficava a perigosíssima “terra de ninguém”, onde crateras, corpos em decomposição e

"Terra de ninguém"

“Terra de ninguém”

arame farpado eram recorrentes sendo estes destruídos por soldados com bastões de explosivos na ponta que ao detonarem abriam caminho para os combatentes. Durante as ofensivas, este espaço, que variava entre 100 metros e 1 km,  era percorrido pelos soldados em ziguezague que não estavam autorizados a auxiliar os combatentes atingidos. Esse trabalho ingrato e arriscado cabia aos que retiravam os feridos em macas.

Nestas incursões era suposto os soldados terem o apoio da artilharia que ficava na retaguarda a cerca de 10 kms da linha da frente e cujos canhões disparavam antes do início da ofensiva. No entanto, devido às deficiências nas comunicações e à confusão gerada durante o combate muitos eram atingidos pelo denominado “ fogo amigo”, calculando-se que,

a vida nas trincheiras

a vida nas trincheiras

no exército britânico, 75 mil soldados foram mortos pela própria artilharia. O equipamento pessoal e o armamento dos soldados pesavam cerca de 30 kg o que atrapalhava a movimentação tendo sido reduzidos, por isso, ao longo da guerra. Quando não havia batalhas o soldado ficava oito dias nas trincheiras da linha da frente e de seguida quatro dias nas da retaguarda seguidos de quatro dias de folga em acampamentos militares onde aguardavam pelas ordens dos comandos.

Este conflito está, igualmente, associado à utilização de produtos químicos que espalharam o terror e o pânico entre os

sequelas do gás mostarda

sequelas do gás mostarda

combatentes calculando-se que perto de 100 mil soldados foram vítimas deste instrumento de morte. A partir de 1916 a paisagem de guerra foi marcada pela presença dos vapores dos gases venenosos de cloro e de mostarda utilizados em larga escala tanto pelos alemães como pelos franceses e ingleses que desenvolveram pesquisas no sentido de aumentarem o seu efeito mortífero. Inicialmente utilizava-se cilindros para despejar o gás conforme a direcção do vento utilizando-se, mais tarde, um dispositivo próprio que lançava as cápsulas a maiores distâncias. O uso destes produtos tóxicos que provocavam cegueira, problemas de pele e mortes por asfixia era tão generalizado que chegou a constituir um quarto dos lançamentos da artilharia.

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uma geração de jovens desiludidos e perdidos

Neste período terrível há relatos de tréguas ocasionais entre as tropas inimigas nomeadamente no natal de 1914 em que alemães e aliados confraternizaram como forma de amenizarem as saudades de casa. A morte banalizou-se tanto nos campos de batalha como na insuportável vida das trincheiras e muitos combatentes enlouqueceram no que seria identificado, atualmente, como vítimas de stress pós-traumático. Mas na época assim não entendiam e muitos deles foram vítimas de fuzilamentos e execuções sumárias pelo facto dos seus superiores considerarem que desertavam ou desonravam a pátria. Pela primeira vez a capacidade dos homens matarem atingiu níveis que abalaram a prosperidade e otimismo do princípio do século transformando em desiludidos e perdidos uma geração de jovens que começou a sua vida adulta no espaço da guerra.

Luísa Oliveira

(imagens daqui, daqui, daqui, daquidaqui, daqui , daqui e daqui)

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No ano em que se cumpre o centenário da 1ª Guerra Mundial, na qual infelizmente Portugal participou,  a nossa colaboradora habitual das Fitas do Mês, Luísa Oliveira, inicia hoje a publicação de um rubrica que pretende ao longo deste ano letivo tratar vários episódios que abordarão diversas fases desse período negro que só teve o seu epílogo em novembro de 1918.

O centenário do primeiro conflito global não deve ser encarado como uma comemoração mas como uma memória de um tempo sombrio que se saldou em milhões de mortos e feridos e provocou significativas alterações políticas, económicas e sociais e que, devido à sua dimensão, será sempre identificado como a Grande Guerra.

A Europa em 1914

A Europa em 1914

No início do século XX a Europa vivia um período de intensas rivalidades políticas, corrida ao armamento, disputa de novas áreas de influência, nomeadamente, na fervilhante Península Balcânica onde os nacionalismos se intensificavam. A geopolítica europeia era dominada pelas rivalidades económicas imperialistas pela posse das colónias africanas e asiáticas. Embora a crença geral fosse a de que a humanidade atingira a maturidade necessária à resolução pacífica dos conflitos internacionais a grande quantidade de armamento e soldados fazia a Europa viver numa autêntica “ paz armada” que a política de alianças como a Tríplice Aliança e Tríplice Entente veio sancionar.

Os Arquiduques (Franz Ferdinand e Sophie)

Os Arquiduques (Franz Ferdinand e Sophie)

A última das muitas causas para despoletar este conflito armado, o episódio decisivo, foi o assassinato do herdeiro do império Austro-Húngaro, arquiduque Francisco Fernando, pelo jovem bósnio de origem sérvia Gavrilo  Princip, em Sarajevo, actual capital da Bósnia e Herzegovina e, à época, província da Áustria-Hungria. Dirigentes políticos e militares, espiões são personagens secundárias deste sangrento conflito que os meios tecnológicos nunca antes utilizados como aviões, produtos químicos, tanques de guerra e submarinos provocaram um grau de destruição até então desconhecido. Os protagonistas contabilizam-se pelos números terríveis dos mortos e feridos e são um pálido reflexo do sofrimento que este conflito causou. Os 10 milhões de mortos e, especialmente, os não identificados são relembrados e homenageados nos “Monumento ao soldado desconhecido” aos quais se juntam mais de 30 milhões de feridos e inválidos.

Oskar Potiorek

Oskar Potiorek

Os factos ocorridos em 28 de junho 1914 são sobejamente conhecidos e bem documentados mas nunca é demais relembrá-los. A Sérvia fervia com os movimentos nacionalistas pretendendo formar a Grande Sérvia a partir da união dos eslavos das Balcãs e, desde 1903, tinha uma monarquia de forte caráter nacionalista que desejava reestabelecer as fronteiras do antigo Império Sérvio do século XIV e, sobretudo ter acesso ao Mar Adriático. A Bósnia e Herzegovina tinha sido anexada pela Aústria-Hungria, mas estava ligada etnicamente (1/3 dos seus habitantes era de origem sérvia) e culturalmente ao reino independente da Sérvia. O governador da Bósnia, Oskar Potiorek como forma de afirmar a presença e força do império austríaco convida os herdeiros do trono, Francisco Fernando (Franz Ferdinand) e sua esposa Sofia (Sophie), duquesa de Hohenb, a visitarem o território. O sobrinho do imperador Aústro-Húngaro, Francisco José, devido a uma sucessão de mortes na família Habsburgo, tornou-se herdeiro do trono em 1896 e pretendia reformar o Império Austro-Húngaro o que limitaria os ideais expansionistas da monarquia sérvia. Como também superentendia os assuntos

carimbo do grupo "Mão Negra"

carimbo do grupo “Mão Negra”

militares, foi nesse âmbito que se deslocou à Bósnia para assistir a manobras militares e para inaugurar as obras de um novo museu em Sarajevo. Quando a visita foi conhecida o chefe de segurança da Sérvia, coronel Dragutin Drimitijevic, começou a planear um atentado que demonstrasse o repúdio pelo império dos Habsburgos tendo escolhido, para a execução de tal plano, jovens militantes do grupo nacionalista radical Mão Negra que era contra a presença austro-húngara e defendia a união territorial da Bósnia e Herzegovina com a Sérvia. Os nacionalistas receberam revólveres, granadas e doses de cianeto, pois caso falhassem ou fossem capturados deveriam cometer suicídio para não denunciarem os intervenientes na operação.

Sarajevo, 1914

Sarajevo, 1914

Assim, num ambiente de grande tensão, a visita dos herdeiros iniciou-se na parte de manhã do dia fatídico e logo foi visível a desorganização, em termos de segurança, pois aquando do cortejo pelas ruas de Sarajevo dos seis veículos que compunham a comitiva o casal estava completamente exposto e sem elementos de escolta por perto. Também desorganizados estavam os terroristas dado que, dos sete elementos que se espalharam pela cidade, só um lançou uma granada que falhou o alvo mas fez alguns feridos. Perante este facto o Arquiduque cancelou a agenda da visita e fez questão de visitar os feridos no hospital, para onde se dirigiu, na parte da tarde.

ilustração do assassinato

ilustração do assassinato

Devido a um engano do motorista no trajeto, este parou em frente ao café Schiller onde se encontrava um dos jovens nacionalistas, Gavrilo Princip, que, de imediato, disparou uma sequência de tiros que provocaram a morte dos herdeiros reais. Assim, quase por acaso, o jovem bósnio de origem sérvia que tinha nascido na cidade de Obljaj, Bósnia, tornou-se um herói para os seus conterrâneos. Preso e acusado de traição declarou que não pretendia matar a duquesa mas o governador da Bósnia. Foi condenado a vinte anos de prisão pois a leis aústro-húngaras defendiam que a pena de morte não podia ser aplicada a menores de vinte anos. Faleceu de tuberculose na prisão de Theresienstadt, na república Checa, em 28 abril de 1918.

Gavrilo Princip

Gavrilo Princip

Fotografia da captura de Gravilo Princep

Fotografia da captura de Gravilo Princip

De imediato, soube-se que militares sérvios (três deles acabaram condenados à morte) tinham organizado o atentado que gerou uma crise entre a Áustria-Hungria e a Sérvia, culminando com a entrega de um ultimato a esta última, a 23 de julho de 1914. No ultimato, a Áustria-Hungria fazia exigências que, caso não fossem aceites, dariam início a uma ofensiva militar austríaca. Na verdade, parece credível que a Áustria-Hungria teria redigido o documento calculando a reação sérvia, para causar um conflito que lhe desse pretexto para anexar o pequeno reino eslavo.

Num autêntico efeito de dominó este ultimato pôs em movimento a guerra, um mês após o histórico atentado, pois com a recusa sérvia em aceitar as exigências austríacas, a Rússia põe-se ao lado da Sérvia, aliada da França, a Alemanha declara guerra a estes países, invade a Bélgica e a Inglaterra intervém de seguida contra os impérios da Alemanha, Austro-Húngaro e Otomano. As nações europeias e de outros continentes como E.U.A. e Japão envolvem-se não só no território central europeu como nas colónias invocando-se as alianças formadas nas décadas anteriores e iniciando-se um conflito que todos os intervenientes julgavam que seria de curta duração. Um terrível engano pois o cessar-fogo e vitória da Tríplice Entente verificou-se só em 11 de novembro de 1918, conhecido como o Dia do Armistício

(imagens daquidaquidaquidaqui e daqui)

Luísa Oliveira

 

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