Quando, no verão de 1914, se iniciou o primeiro conflito mundial, Portugal vivia os tempos conturbados do regime republicano implantado em 1910, pelo que a discussão sobre a eventual participação nacional foi mais um dos motivos para as infindáveis lutas político-partidárias. Com a crise generalizada em todos os setores, o Partido Democrático no poder aproveitou essa controvérsia para criar um consenso nacional mobilizando o país num desígnio que, neste caso, seria a defesa das colónias africanas.
Apesar de alguma resistência à incorporação militar, esse objetivo mobilizou os portugueses e o facto é que desde finais de 1914, muito antes de existir oficialmente um estado de guerra
entre Portugal e a Alemanha, os militares destes países defrontavam-se no sul de Angola e no norte de Moçambique. A declaração oficial de guerra só aconteceu em 9 março de 1916, após a apreensão em 23 fevereiro, por solicitação da Inglaterra, de setenta navios mercantis alemães e dois austrohúngaros ancorados nos portos nacionais. Subjacente a este motivo, havia o medo de que, num cenário pós-guerra, as ambicionadas colónias servissem de moeda de troca entre as potências em conflito, nomeadamente a Inglaterra e a Alemanha, receio justificado pelo facto de anteriores acordos entre estas potências preverem a partilha dos territórios africanos. Por outro lado, o fragilizado poder republicano contava que a participação traria não só prestígio internacional ao regime como compensação nas negociações de paz, reforçando a velha aliança com a Inglaterra que dominava o maior império na época. O Partido Democrático jogou igualmente com o temor de anexação pela Espanha neutral e da eventual restauração da monarquia, pelo que a defesa das colónias e da soberania nacional, e a necessidade de legitimação internacional do regime republicano fazem o país responder às solicitações tardias da aliada Inglaterra e da França.

Instrução militar em Tancos
Mas a questão da participação chocava com a realidade dos escassos efetivos militares nacionais, dado que só em 25 maio de 1911 se criou o serviço militar obrigatório e o sistema de oficias milicianos, que até então tinha esbarrado na oposição dos oficiais do quadro permanente. O ministro de Guerra, Norton de Matos, dirige a preparação e organização dos futuros combatentes criando a Divisão de Instrução em Tancos que irá dar origem ao Corpo Expedicionário Português (C.E.P), num treino feito com tal rapidez que ficou conhecido como “o milagre de Tancos”.

embarque para a Flandres em St. Apolónia
Em finais de janeiro de 1917, parte para a Frente Ocidental, em França, o inexperiente contingente militar sob o comando do general Gomes da Costa, integrado no XI Corpo do Exército Britânico, autonomizando-se posteriormente para, em janeiro de 1918, com o governo de Sidónio Pais, voltar a estar dependente do comando britânico.
Foi nesta posição que ocorreu a traumática Batalha de La Lys, na frente de Ypres, na Flandres, em que as tropas portuguesas foram esmagadas pelos alemães, melhor equipados e em número bastante superior. Na madrugada de 9 abril, quando se iniciava a operação de substituição da extenuada 2ª divisão do C.E.P. por tropas britânicas, o setor português foi apanhado de surpresa pelos intensos bombardeamentos da operação alemã Georgette que pretendia separar as forças aliadas, atravessando o rio Lys e tomando as cidades de Calais e Bolougne–sur–Mer.

Batalha de La Lys
Os serviços de espionagem tinham informado os alemães que as tropas portuguesas estavam mal equipadas e desmoralizadas pois sentiam-se abandonadas pelo poder nacional, e esgotadas devido à estadia prolongada em combate, ao contrário de outros exércitos que regularmente eram substituídos, e sem oficiais experientes pois estes tinham sido chamados por Sidónio Pais a Portugal. O ataque alemão foi levado a cabo por oito divisões com cerca de cem mil homens e mais de mil peças de artilharia e, apesar da 1ª divisão do C.E.P. se juntar ao combate, as forças portuguesas perfaziam cerca de vinte mil homens, pelo que era uma derrota anunciada.

Após a batalha
Apesar do trágico desfecho, os nacionais resistiram heroicamente, contribuindo para reter o avanço alemão, registando-se inúmeros atos de heroísmo e de coragem, com destaque para o famoso “Soldado Milhões” que salvou inúmeras vidas e que se tornou o único soldado português deste conflito condecorado com o Colar da Ordem de Torre e Espada. No saldo final, as tropas portuguesas ficaram reduzidas a uma divisão, registando-se 1300 mortos (praticamente metade dos mortos em toda a campanha da Flandres), 4600 feridos 2000 desaparecidos e 7000 prisioneiros.
A participação de Portugal neste conflito ficará sempre ligada ao desastre de La Lys mas é injusto esquecer a participação dos nacionais em outros campos de batalhas europeus integrados nos exércitos inglês e francês, nomeadamente com o Corpo de Artilharia Pesada Independente, assim como nas colónias africanas onde se envolveram milhares de combatentes em que as terríveis condições que enfrentaram eram idênticas às do espaço europeu.

campas portuguesas em França
Os portugueses viveram os horrores caraterísticos deste conflito tendo sido elogiados pelo general Gomes da Costa nas suas memórias: lançado, inesperadamente, numa Guerra que estava longe de prever, o país viu-se em dificuldades, com um exército desprovido de organização apropriada, sem uniformes, sem armamento, sem munições , sem transportes e sem dinheiro. A participação a guerra saldou-se em cerca de sete mil mortos, muitos dos quais sepultados no Cemitério Militar Português de Richebourg, em França, assim como em milhares de feridos e desaparecidos.

desfile português na Parada da Vitória
Portugal fará parte da Conferência de Paz, pertencerá à Sociedade das Nações e, embora quatrocentos militares portugueses tenham desfilado na Parada da Vitória sob o Arco do Triunfo, em Paris, os resultados da participação nacional não foram auspiciosos para o país. A conjuntura de guerra agudizou as dificuldades económicas e sociais, a instabilidade política e governativa, abrindo caminho à instauração da ditadura militar em 28 maio de 1926 e posteriormente às décadas de regime autoritário e repressivo do Estado Novo, sendo que a liberdade só seria restaurada em 25 abril de 1974.
Luísa Oliveira




























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